Chama-se António Pedro Barreiro e é teólogo. No próximo dia 29 de novembro vai estar na Diocese do Funchal a orientar mais uma edição da Jornada Diocesana dos Leigos, no Colégio de Santa Teresinha. Aos participantes irá falar sobre o tema “Igreja, comunhão e participação”. Ao Jornal da Madeira António Pedro Barreiro fala do seu interesse pela teologia e diz que “vivemos num tempo de corações anestesiados por distrações e barulho” e que é preciso “’abanar’ esse torpor”. Diz também que fomentar uma participação mais ativa e corresponsável dos leigos na vida da Igreja passa por perceber que “um leigo é muito mais do que um ‘não-padre’. É alguém com uma missão concreta, no meio do mundo. Seja no âmbito da família, seja na vida profissional, seja na política, na cultura ou na sociedade”. Para ouvir e saber mais opiniões leia não só a entrevista que se segue, mas inscreva-se também nas jornadas. Aqui levanta-se apenas a ponta do véu do interesse das mesmas e do quanto é importante que participe.
Como nasceu o seu interesse pela teologia e pela reflexão sobre a vida da Igreja?
Como a maioria dos portugueses, sou católico desde que me lembro. Aprendi a fé em casa, com a minha família. Depois, na adolescência, atravessei as dúvidas habituais, e foi já na universidade, aos 18 anos, que reencontrei Deus. Eu estava, na altura, a começar os estudos de Ciência Política, e vivi uma experiência de encontro vivo com Jesus, que me marcou profundamente. Nunca mais O deixei. Aos 23 anos, entrei no Seminário de Lisboa, e foi aí que comecei a estudar Teologia. Mais tarde, percebi que a minha vocação não passava pelo sacerdócio. Hoje, no meio da vida laical, continuo a tentar ser-Lhe fiel.
Quais foram as principais influências — pessoais, académicas ou espirituais — no seu caminho teológico?
A nível pessoal, o meu pai, que é professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), e dois padres – o Padre Mário Rui e o Padre João Seabra – que mudaram a minha vida, porque me falaram de Cristo, não só com palavras, mas com a vida. No plano académico e espiritual, devo muito a dois alemães: Joseph Ratzinger e Romano Guardini. E também a São Josemaría Escrivá, que sabe falar claro ao nosso coração de latinos. Sem esquecer Santa Teresinha, cujos escritos me fizeram muita companhia num período especialmente difícil da minha vida.
“vivi uma experiência de encontro vivo com Jesus, que me marcou profundamente. Nunca mais O deixei. Aos 23 anos, entrei no Seminário de Lisboa, e foi aí que comecei a estudar Teologia”.
Enquanto jovem teólogo, como vê o papel dos jovens na Igreja de hoje?
Não me leve a mal, mas vou virar a pergunta. Acho que os jovens, num mundo instável como o nosso, estão cada vez mais sedentos de verdade, de permanência e de silêncio. Não querem respostas confortáveis; querem referências sólidas. E, nesse campeonato, nenhuma estrutura humana consegue apresentar uma proposta tão autêntica como a da Igreja. O nosso desafio, hoje e sempre, é anunciar essa boa notícia.
Na sua perspetiva, o que significa ser “Igreja” no contexto atual?
Significa permanecer, num mundo em que todos abandonam. Apresentar, a cada alma, um horizonte de sentido e um caminho de santidade que possam ser vividos na primeira pessoa. Sem desistir de ninguém. E, ao mesmo tempo, continuar a apresentar, diante dos desafios culturais, sociais, políticos e tecnológicos do nosso tempo, o critério do Evangelho. Não é coisa pouca.

Quais são, hoje, os maiores desafios que a Igreja enfrenta na sua missão evangelizadora?
Vejo muita gente que desistiu de fazer perguntas – sobre a origem das coisas, o sentido da vida, o significado do mundo – porque acha, talvez, que não vale a pena. Vivemos num tempo de corações anestesiados por distrações e barulho. O nosso primeiro desafio, enquanto católicos, é “abanar” esse torpor. Trazer às almas um rasgo de espanto, de comoção, de beleza, de amizade. Mostrar que vale a pena. Tudo o resto nasce daí.
“Vivemos num tempo de corações anestesiados por distrações e barulho. O nosso primeiro desafio, enquanto católicos, é “abanar” esse torpor””.
De que forma a Igreja pode continuar a ser um “sinal de comunhão” num mundo cada vez mais individualista?
Por muito críticos que sejamos da nossa cultura (e eu, nesta entrevista, já fui bastante), somos sempre filhos dela. E herdamos, também, os seus defeitos. Por isso, a nossa única esperança de sermos menos individualistas e mais capazes de comunhão é a partir de Cristo e da vida espiritual. Ou rezamos, ou vamos ficar-nos pelas boas intenções.
O que entende por “comunhão eclesial”?
É o que sinto quando estou noutro país e entro numa igreja. Mesmo sem perceber a língua e sem conhecer pessoa alguma, sei que nos entendemos muito bem. Temos o mesmo Senhor, a mesma fé, o mesmo Papa. Partilhamos uma mundividência e uma pertença. Somos irmãos.
A comunhão é, muitas vezes, posta à prova por diferenças de opinião e sensibilidade dentro da Igreja. Como se pode viver a unidade sem cair na uniformidade?
Nós prestamos um bom serviço à verdade quando aprendemos a distinguir entre o que é absoluto e o que é relativo. Em relação às coisas absolutas (que são poucas), não pode haver desvios. Mas, quanto às coisas relativas, é importante dar algum espaço à diferença. Às vezes, perdemos demasiado tempo a discutir questões que são mais de estilo e de gosto do que de substância. É pena, porque não temos, realmente, tempo a perder.
Que papel tem a oração e a Eucaristia na construção da comunhão entre os fiéis?
São Paulo escreve aos coríntios que a Igreja é um corpo com muitos membros. Cada um com a sua configuração e função, e todos indispensáveis. Mas esta imagem do Corpo Místico de Cristo, que é tão poderosa e significativa, só se pode entender a partir do Corpo eucarístico que adoramos e que comungamos. Sem Eucaristia, não há Igreja.
Como podemos fomentar uma participação mais ativa e corresponsável dos leigos na vida da Igreja?
Julgo que o nosso principal desafio continua a ser deixar brilhar todo o esplendor da vocação laical. Um leigo é muito mais do que um “não-padre”. É alguém com uma missão concreta, no meio do mundo. Seja no âmbito da família, seja na vida profissional, seja na política, na cultura ou na sociedade. Todos os dias toca, com a sua vida, realidades onde um padre, por muito que tente, não consegue chegar. Por isso, a principal missão do leigo dentro da Igreja é ser leigo. E sê-lo com inteireza, com exigência, com critério.
“Acredito, pelos sinais que vejo, que o tempo que se avizinha vai precisar, mais do que nunca, da presença de Cristo”.
Que importância tem o papel das mulheres e dos jovens na edificação da Igreja sinodal?
A Igreja precisa, hoje e sempre, de exemplos de santidade de todas as formas e feitios. Exemplos como o de Santa Edith Stein, uma das filósofas mais interessantes do século XX, que estudou com Edmund Husserl, viveu num Carmelo e morreu em Auschwitz, ou o de Santa Teresa de Calcutá, que contagiou o mundo com a sua caridade. Ou o recém-canonizado Pier Giorgio Frassatti, um jovem irreverente, amante das montanhas, da intervenção política e da caridade. Vidas que têm um carisma extraordinário e uma torrente de vitalidade brutal. Que haja mais gente assim fará mais pelo futuro da Igreja do que as nossas reuniões,
Que esperanças tem para o futuro da Igreja em Portugal e no mundo?
Confesso que tenho uma esperança enorme. Deus deu-nos a graça de vivermos num tempo extraordinário; um tempo em que há um novo mundo à espera de germinar, sem que o mundo antigo tenha ainda desaparecido totalmente. Acredito, pelos sinais que vejo, que o tempo que se avizinha vai precisar, mais do que nunca, da presença de Cristo. Há um grande interesse cultural, uma grande abertura e expetativa. E temos, pela primeira vez em muitas décadas, a oportunidade de trazer o Senhor ao coração da nossa cultura. Não é fácil, mas é necessário. E vale mesmo a pena!



















