Mesa-redonda do Dia Mundial dos Pobres destaca urgência de respostas sociais e “cuidado pelo outro”

Foto: Duarte Gomes

Realizou-se esta segunda-feira, no MASF, uma mesa-redonda dedicada ao Dia Mundial dos Pobres, que se celebrou no domingo, 16 de novembro, promovida pelo Secretariado da Pastoral Social e pela Caritas Diocesana do Funchal.

O encontro que abordou o tema “Cuidar do outro: desafios do mundo de hoje”, contou com a presença do Bispo do Funchal, do presidente da Cáritas, e de quatro oradores convidados: a designer Nini Andrade Silva, o Pe. João Gonçalves, de Jorge Spínola, provedor da Santa Casa da Misericórdia do Funchal, e o advogado Ricardo Vieira.

A encerrar o encontro, o Bispo do Funchal sublinhou que a reflexão sobre a pobreza não se pode limitar à carência material, mas deve incluir a solidão, a fragilidade emocional e “tudo aquilo que ainda não é amor na nossa vida social”.

Relembrou que “o amor está aí, a iluminar como critério”, e apelou a que a Madeira preserve “o cuidado pelo outro” que ainda a distingue. “Continuemos a cuidar-nos uns aos outros”, pediu, recordando a diferença que sente quando está fora da região: “Tive tantas saudades da Madeira… Aqui ainda se diz bom dia, ainda se olha, ainda se cuida”.

Foto: Duarte Gomes

Pobreza material e pobreza relacional

O presidente da Cáritas contextualizou a iniciativa explicando que o propósito “não é fazer festa”, mas pensar seriamente na realidade da pobreza.

Recordou que “a falta de comida e casa é uma realidade”, mas que existe também “uma pobreza que é solidão”, dirigida a quem, mesmo tendo o mínimo material, vive sem relações, sem apoio e sem pertença.

Defendeu um olhar mais atento sobre a questão da habitação, que considera central nas dificuldades das famílias. Explicou ainda que o evento resulta de uma parceria entre a Pastoral Social, a Segurança Social e a Cáritas, reunindo oradores que representam diferentes áreas da sociedade.

Pequenas grandes atitudes

Quanto à designer madeirense sublinhou o valor da dignidade e das pequenas atenções: “Dizer bom dia, agradecer a quem limpa uma casa de banho num evento… isto não são coisas pequenas, são muito grandes.”

Partilhou ainda o seu percurso pessoal, lembrando que cresceu com dificuldades e que a fama internacional lhe permitiu ajudar mais pessoas. Afirmou que muitos dos seus trabalhos e palestras se transformam em apoios concretos: “Há empresas que não pagam com dinheiro, mas com máquinas, móveis, eletrodomésticos. Tudo isto chega a quem precisa.” Para Nini, a sua missão é clara: “Eu acho que vim para ajudar”.

Foto: Duarte Gomes

Pobreza continua a ser estigma

O pároco do Curral das Freiras relatou a experiência de acompanhar cerca de 30 famílias através da Conferência de São Vicente de Paulo.

Recebe pedidos de ajuda não só materiais, mas sobretudo emocionais e familiares: “Muitas vezes é só ouvir. O papel do padre também é ser ouvinte”.

Sobre a realidade atual, o Pe. João afirmou que “a pobreza continua a ser um estigma” e que “as situações de doença mental, quando não acompanhadas a tempo, levam muitas vezes à pobreza e ao isolamento.”

Embora o número de casos na freguesia não esteja a aumentar, observou que o trabalho é partilhado com outras instituições locais, como o Centro de Dia e a Segurança Social.

Apoio domiciliário como futuro

Já o provedor destacou que o maior desafio social hoje é o tempo, porque “os pais trabalham, têm filhos, chegam tarde… não há tempo para cuidar.”

Jorge Spínola defendeu que o futuro da resposta social passa por contratos de apoio domiciliário (CDI) feitos com instituições, e não exclusivamente pelo Estado.

“Se a Administração Pública fizer tudo, cria-se uma despesa fixa que daqui a 30 anos é incomportável”, frisou o responsável, para logo explicar “que as instituições têm mais flexibilidade para contratar pessoal, adquirir equipamentos e chegar onde é necessário.

Para o provedor, a prioridade deve ser manter os idosos e dependentes nas suas casas, com redes de apoio completas que incluam cuidados médicos, higiene, alimentação e companhia, tendo defendido que
“o combate à solidão tem de ser tão importante quanto o combate à pobreza material.”

Foto: Duarte Gomes

Competência que nos faz humanos

Finalmente usou da palavra Ricardo Vieira. O advogado abordou a dimensão antropológica do cuidado, afirmando que nenhuma outra espécie cuida do outro como o ser humano: “Podemos não ter família nem amigos, mas alguém na sociedade acaba por nos ajudar. Isto é único na humanidade.”

Alertou, porém, que os desafios para governantes e técnicos são “terríveis”, porque as soluções não dão resultados imediatos e exigem continuidade.

Sublinhou também que a sociedade deve organizar-se para garantir cuidado sustentável e eficaz, preservando o essencial: “O cuidado pelo outro é uma das competências que nos elevou enquanto humanidade.”

A mesa-redonda do Dia Mundial dos Pobres evidenciou assim o diagnóstico comum de que a pobreza é cada vez mais complexa, muitas vezes invisível, e profundamente ligada à solidão e à falta de tempo para cuidar.

Entre apelos à dignidade, ao envolvimento das instituições e à preservação da cultura madeirense de proximidade, ficou o convite a que cada cidadão seja parte ativa da solução, começando pelo gesto mais simples de cuidar do outro.

Foto: Duarte Gomes