“És tu que Eu quero”: Vigília pela Semana dos Seminários reuniu diocese no Seminário do Funchal

Foto: Duarte Gomes

“És tu que Eu quero”. A frase, repetida várias vezes pelo bispo do Funchal na sua reflexão durante a Vigília da Semana de Oração pelos Seminários, marcou o tom de uma noite profundamente vocacional, vivida no Seminário Diocesano do Funchal, ao início da noite do dia 6 de novembro.

Na homilia, o prelado diocesano sublinhou que a vocação é sempre um mistério de eleição pessoal, recordando as figuras bíblicas de Moisés, Jonas e Pedro. “Deus não chama multidões; chama pessoas concretas, com a sua história, com as suas feridas, com as suas fragilidades. És tu, com tudo o que és, que o Senhor chama”, afirmou D. Nuno Brás.

Inspirando-se no episódio do chamamento de Moisés, destacou que “Deus escolhe quem foge, quem tem medo, quem não sabe falar — e é com esses que realiza a libertação”. “Moisés era um fugitivo, Jonas fugiu também, Pedro era teimoso e pecador… mas foi a eles que o Senhor olhou e disse: ‘És tu que Eu quero’”, acrescentou.

O prelado alertou ainda para a tentação de regressar ao “Egito”, símbolo da escravidão e do esquecimento de Deus: “Voltar ao Egito é sempre voltar ao esquecimento de Deus, é deixar que os deuses deste mundo nos distraiam do essencial.”

No final, convidou todos a reconhecer a própria terra sagrada: “O nosso Monte Sião é aqui, este Seminário, esta Vigília. Que saibamos tirar as sandálias do coração — tudo o que nos separa de Deus.”

A Vigília contou também com o testemunho do seminarista Francisco Abreu, aluno do 12.º ano e no seu terceiro ano de Seminário, que partilhou com simplicidade o percurso da sua vocação.

“Tudo começou quando tinha 10 anos, num convite simples para participar no pré-seminário. Vieram o Pe. Carlos e o Pe. Vítor à minha paróquia, e eu aceitei experimentar. Nunca pensei que esse convite fosse o início de um caminho tão importante”, contou.

Francisco descreveu os primeiros anos como uma descoberta progressiva: “Gostava muito dos encontros mensais — havia oração, convívio e amizade. Eram momentos em que sentia Deus a chamar-me, mesmo sem perceber bem para quê.”

Houve, porém, tempos de afastamento e de dúvida. “Por volta dos 12 anos deixei de ir. A vocação foi ficando adormecida. Mas mais tarde, já com 16 anos, antes do Crisma, o seminário voltou à minha cabeça. Foi como se Deus me dissesse outra vez: ‘E então? Estás pronto?’”, partilhou o jovem entre sorrisos.

A decisão de entrar no Seminário não foi fácil. “O primeiro ano foi complicado, pensei várias vezes em desistir. A escola estava a ser difícil, e achei que não era capaz. Mas os meus pais ajudaram-me muito. Disseram-me para ter calma, para não decidir com pressa, e percebi que Deus me estava a ensinar através das dificuldades.”

Hoje, com maturidade e gratidão, Francisco reconhece a importância da comunidade e da paróquia que o acompanha: “A minha paróquia ajuda-nos em tudo — nas despesas, na oração, no apoio. Sinto que não caminho sozinho.” E concluiu emocionado: “A vocação é um caminho que se descobre aos poucos. O importante é não ter medo de dizer ‘sim’.”

No encerramento da Vigília, o bispo do Funchal voltou a dirigir-se aos presentes com uma palavra de esperança: “Não é um caminho para heróis. É para gente real, que cai e se levanta, que vai de derrota em derrota até à vitória final. Que bom é que o Senhor continue a chamar — e que ainda haja quem responda.”