Durante a sua passagem pelo Funchal, a diretora do semanário católico espanhol Alfa y Omega, Cristina Sánchez Aguilar, partilhou com o Jornal da Madeira uma reflexão abrangente sobre os desafios atuais da comunicação eclesial. A jornalista, que participou no Encontro Ibérico das Comissões Episcopais de Comunicação Social de Portugal e Espanha, falou sobre o papel das redes sociais, a formação dos comunicadores católicos e a importância de manter viva a imprensa em papel.
Formar missionários digitais e não improvisar evangelizadores
Cristina Sánchez considera urgente que a Igreja acompanhe melhor quem comunica a fé nas plataformas digitais. “Assim como a pastoral forma catequistas e acompanha os responsáveis de movimentos, a Igreja devia também formar aqueles que se autodenominam ‘missionários digitais’”.
A diretora de Alfa y Omega não propõe nenhum tipo de censura que limite a liberdade de expressão, mas acompanhamento. “As redes podem ser mais perigosas do que positivas para a Igreja. É muito difícil permanecer nelas sem que a própria pessoa se coloque à frente da mensagem. Há uma linha muito fina entre evangelizar e querer ser visto”.
“Assim como a pastoral forma catequistas e acompanha os responsáveis de movimentos, a Igreja devia também formar aqueles que se autodenominam ‘missionários digitais’”.
Segundo a jornalista, o ambiente digital tende a alimentar o ego. “Começa-se com boa intenção, mas ao fim de algum tempo o que se quer é ser reconhecido. As redes foram feitas para isso e ninguém está isento”.
Para Sánchez, é necessário que a Igreja compreenda melhor este fenómeno e deixe de “idolatrar os influencers”. “Em Espanha, a Igreja convida-os a congressos e dá-lhes prémios, mas… o que é ser influencer? Quem são? O que fizeram realmente?”.
“Não se pode tratar os jovens como ingénuos”
Na opinião da diretora de Alfa y Omega, a tentativa de conquistar o público jovem com fórmulas mediáticas pode ser contraproducente. “Não podemos tratar os jovens como se fossem ingénuos. É legítimo que exista um primeiro anúncio, mas esse anúncio não tem de ser sempre feito por um padre que dança”.
“Está muito bem que existam expressões artísticas (também eu canto à noite num teatro), mas isso não me torna influencer para vender uma mensagem vazia ou superficial. Não nos apercebemos de quantas pessoas seguem este tipo de comunicações. Em vez de nos deixarmos seduzir pela difusão, temos de usar a cabeça”.
A comunicadora defende que a evangelização não pode ser reduzida a uma estética viral. “Não digo que não devam existir estas iniciativas, mas é preciso discernimento”.

Polarização e superficialidade: dois riscos nas redes sociais
Cristina Sánchez alerta ainda para a polarização que se instalou em muitos espaços digitais ligados à fé. “Há extremismos nos dois lados: os que proclamam normas rígidas e fechadas, e os que só oferecem alegria e danças, como se bastasse dizer ‘Deus é bom porque estou feliz’”.
“É muito perigoso, e não nos damos conta de quanto o é. Há pessoas com milhões de seguidores a reproduzir mensagens simplistas. E depois aparecem figuras que falam de Deus na Internet e são aclamadas como modelos, mas… quem são? O que fizeram na vida? As pessoas levam essas mensagens a sério, e isso não é brincadeira”.
Sánchez insiste na necessidade de discernimento e acompanhamento pastoral neste novo território comunicativo. “Não se trata de condenar, mas de pôr cada coisa no seu lugar”.
“Não podemos tratar os jovens como se fossem ingénuos. É legítimo que exista um primeiro anúncio, mas esse anúncio não tem de ser sempre feito por um padre que dança”
“O papel não pode desaparecer”
Apesar da força do digital, Cristina Sánchez defende convictamente a continuidade da imprensa em papel. “O surgimento de novas linguagens não significa que devamos descartar as tradicionais. O nosso público não é só jovem. A Igreja é muita gente e há muita gente que ainda lê em papel, não apenas os de 70 anos, também os de 50”.
A jornalista argumenta que a leitura impressa educa de modo insubstituível. “Na Internet não se lê nem se escreve da mesma forma. Se perdermos o hábito da leitura em papel, perdemos também capacidade de expressão e de pensamento. Os meios de comunicação educam e a Igreja não pode deixar isso morrer”.
“Damos aos jovens vídeos e textos mal escritos, rápidos, e depois queixamo-nos de que não sabem ler nem se expressar. O papel custa dinheiro, sim, mas tudo custa dinheiro. É preciso escolher onde investir”.
E conclui com firmeza: “Um bom comunicador, seja de rádio ou televisão, tem de saber escrever. E, para saber escrever, tem de ler. O jornalismo de sempre é texto escrito — e é por aí que se começa. Temos de estar nas redes, na rádio e na televisão, mas também no papel. O papel não pode desaparecer”.
“A Igreja não pode ser um meio residual”
Para Cristina Sánchez, a digitalização tem utilidade prática, mas não deve empobrecer o alcance da comunicação eclesial. “No caso de uma diocese, pode ser mais eficaz enviar o boletim por WhatsApp do que imprimir folhas que ninguém vai buscar à igreja. Mas, a nível nacional, é diferente: a Igreja deve investir num projeto comunicativo sólido, que esteja presente na sociedade. Não pode ser um meio residual, voltado apenas para os fiéis. Tem de ser um ator público, com influência real nas questões sociais”.
A jornalista aponta o exemplo italiano como referência. “O Avvenire é um jornal fundamental. Em qualquer debate televisivo, há sempre alguém do Avvenire, seja jornalista ou sacerdote. São atores públicos, com legitimidade para falar de qualquer tema, porque abordam o quotidiano. Em Espanha, sonho com um projeto assim – com imprensa escrita, digital, rádio e televisão – capaz de influenciar a sociedade. É fundamental”.
“Se perdermos o hábito da leitura em papel, perdemos também capacidade de expressão e de pensamento. Os meios de comunicação educam e a Igreja não pode deixar isso morrer”.
“Nada do que é humano nos é alheio”
Sánchez considera que a comunicação da Igreja não deve limitar-se a relatar atividades internas. “O problema é que, quando se investe dinheiro, tende a fazer-se apenas comunicação institucional e está bem, é necessária, mas é preciso também prestar o outro serviço: o de falar à sociedade com verdade e humanidade”.
Recorda um caso recente em Espanha. “Uma menina suicidou-se por causa do bullying. A Igreja tem de falar sobre isso, porque nada do que é humano nos é alheio. As vidas, as crianças, tudo é precioso. Temos de analisar o que está a acontecer. Os meios generalistas falam apenas dos protocolos escolares. Um meio eclesial deve ir mais fundo: onde estão os pais das crianças agressoras? Porque não corrigem os filhos? O que se passa nas famílias? Nós olhamos o mesmo tema a partir de outro ponto de vista — e isso é necessário”.
“O Evangelho não é medo nem comodidade”
A diretora de Alfa y Omega termina com um apelo à coragem comunicativa. “Temos de ser valentes e não ter medo das críticas. Muitas vezes não se fala por medo da exposição, por medo de ser criticado. Mas o Evangelho não é medo nem comodidade. O próprio Jesus ia a toda a parte e pregava aos gentios. Nós também não devemos calar-nos”.

























