Como me situo neste mundo em constante mutação

D.R.

“Brilhai hoje como astros no mundo” … Este também é o sentido do Evangelho das bem-aventuranças que trazem consigo uma nova interpretação da realidade. São o caminho e a mensagem de Jesus educador. As bem-aventuranças não são um ensinamento entre tantos: são o ensinamento por excelência. Encontramo-nos na sua escola, aprendendo a descobrir na sua vida um horizonte de sentido capaz de iluminar todas as formas de conhecimento. Os desafios atuais podem parecer, por vezes, superiores às nossas forças, mas não é assim. Não permitamos que o pessimismo nos vença! A referência à noite que nos rodeia recorda-nos um dos textos mais conhecidos de São John Henry Newman, o hino ‘Lead, kindly light’ (Luz terna, suave, leva-me mais longe”). Nessa linda oração percebemos que estamos longe de casa, que temos os pés vacilantes, que não conseguimos decifrar claramente o horizonte. Mas nada disso nos pode deter, porque encontrámos o nosso Guia: “Conduz-me, terna luz… a noite é escura e estou distante de casa, conduz-me tu, sempre mais avante”. (Papa Leão XIV, Homilia de 1 de Novembro de 2025).

De facto, a santidade é construída no tempo presente porque nos sabemos, filhos muito amados de Deus que se preocupa com os nossos problemas, que não nos deixa sós, tanto assim que nos enviou um anjo à nossa frente para nos proteger no caminho. E as armas para se alcançar a santidade são os sacramentos e a oração, centrais na nossa relação pessoal que estabelecemos com Jesus. Um verdadeiro plano de amor que decorre na nossa intimidade.

Na sequência destas palavras introdutórias, de comigo a pensar: e eu como me situo neste mundo em constante mutação? Será que desenvolvo todos os esforços por me integrar e, de algum modo, aceitar o que não posso mudar.

PODE EXPLICITAR MELHOR A FRASE ANTERIOR?

Envido todos os esforços por me atualizar ainda que considere que os acontecimentos às vezes ocorrem de um modo tão vertiginoso que dificilmente os consigo acompanhar. Mas o certo é que, na realidade, hoje sinto-me menos ativa. Questiono-me porque terei deixado de lado a audácia anterior. A idade é outra. As responsabilidades também. Dei por mim tão absorvida nas preocupações do dia-a-dia que senti a necessidade de algum espaço, de respirar, de reservar algum tempo para mim. Era como se sentisse alguma necessidade de que ainda mantinha as minhas capacidades e o meu espírito de descoberta, de atualização. 

Entretanto uma amiga convidou-me para participar num convívio cultural. Encontrei várias amigas, que não via há algum tempo face á minha indisponibilidade. Senti-me feliz, acarinhada e útil. Eis quando senão, uma outra amiga que reside no estrangeiro, nos convidou a mim e à minha irmã para passarmos uns dias na sua companhia. Demorámos algum tempo a decidir, já que tinha compromissos aos quais não gostaria de faltar. Mas na verdade ninguém é insubstituível! Há algum tempo que não viajávamos para fora do país. E a família achou que nos faria bem. Acresce que a minha irmã, já viúva, celebraria o seu aniversário durante a estadia, e conforme era a sua vontade gostaria de fazer algo diferente! 

E assim rumámos caminho à nossa primeira etapa. O aeroporto de Lisboa. Notámos algumas diferenças. Em particular o número elevado de passageiros que nos obrigou a dar inúmeras voltas na fila para passarmos o detetor de metais. Depois o atraso. Foram várias horas no aeroporto. A minha irmã já se encontrava cansada. Talvez fosse melhor cancelar a viagem? Não estive de acordo. Se era para ir não havia ponto de retorno. Finalmente embarcámos e o voo viria a correu lindamente. A nossa amiga aguardava-nos à chegada de braços abertos. Que bom revê-la, que satisfação. Começava agora a nossa estadia. E correu muito bem. Não podia ser melhor. A minha excelente amiga programou tudo ao ínfimo detalhe. Quão gratas ficámos. Inclusivamente já nos tinha adquirido bilhetes para a ópera. Mostrou-nos a cidade. Sabia os nossos gostos. Teve imenso cuidado em nos proporcionar uns dias memoráveis. Levou-nos a visitar os arredores. Como é bom conhecer novas realidades, saborear pratos diferentes. Visitar igrejas, feiras locais, monumentos, vistas maravilhosas. Na verdade, as relações humanas, as nossas relações com outras pessoas são indispensáveis. Como estava feliz e sorridente a minha irmã, no seu die natalis, a celebrar mais um ano de vida, degustando uma fatia de bolo de tradição local e um chocolate quente.

Também a cultura desempenha um papel fundamental e indispensável. Recordo com saudade a ópera a que tive oportunidade de assistir, o intervalo numa varanda com uma vista espantosa sobre a cidade. Ainda ressoam nos meus ouvidos o forte repique dos sinos da Igreja de S. Bartolomeu a chamar para a missa. As lindas casas preparadas para a queda de neve. A praça do Município e tantos outros locais. Quando a nossa amiga nos deixou no aeroporto, sentimos uma enorme dívida de gratidão. Obrigada, amiga! Percorremos, de coração cheio, os corredores do aeroporto que já não nos pareceram tão longos. Tínhamos conseguido, apesar da nossa “juventude acumulada”, ultrapassar os constrangimentos com esperança e determinação de levar a viagem a bom termo. Foi uma grande graça que Jesus nos concedeu. “Obrigada, perdão, ajuda-me mais”. Sentimo-nos bem e integrámo-nos neste mundo em constante mutação…

Veio-me ao pensamento uma frase: O valor divino das coisas pequenas. A vida quotidiana e corrente das pessoas está entrelaçada de factos e situações, aparentemente sem importância, escondida nas situações mais comuns, em que há um quê de santo, de divino. “Mudar o mundo com as coisas pequenas de cada dia, partilhar com generosidade, ouvindo os outros, estabelecendo relações fraternas” (Papa Francisco, Mensagem aos jovens, 2-VI-2017).