Fiéis Defuntos: Bispo do Funchal recorda condição peregrina da vida e esperança cristã na ressurreição

Centenas de pessoas participaram nesta celebração presidida pelo bispo do Funchal, D. Nuno Brás

Foto: Duarte Gomes

Na celebração do Dia dos Fiéis Defuntos, que decorreu este domingo, dia 2 de novembro, no Cemitério de São Martinho, o bispo do Funchal sublinhou que o cristão vive “como peregrino e estrangeiro neste mundo”, recordando que a nossa pátria definitiva é junto de Deus.

De forma realista, mas cheia de esperança, D. Nuno Brás, observou que muitos se apegam ao imediato por medo do desconhecido. Talvez por isso, “muitos cristãos vivam o seu quotidiano agarrados a este mundo, a este nosso viver, ainda que por entre sofrimentos e dificuldades — mas, apesar de tudo, algo que julgam ser mais certo que a vida eterna.”

Inspirado nas palavras de São Paulo — “Vivemos como exilados, longe do Senhor” — o prelado afirmou que, apesar de muitos verem neste mundo a sua morada definitiva, a fé cristã revela que estamos apenas de passagem.

“A nossa sede de eternidade e o desejo profundo de vida plena não se esgotam nas realidades temporais”, declarou o prelado, lembrando que, embora o ser humano cresça e construa no tempo, só em Deus encontra a verdadeira morada.

D. Nuno Brás destacou ainda que a fé na ressurreição não nasce de teorias, mas do encontro vivo com Cristo ressuscitado. “Paulo não encontrou uma doutrina nova, mas um Homem vivo — o Senhor ressuscitado — que lhe transformou a vida. A partir desse encontro, venceu o medo e encontrou a firme esperança na vida eterna”, afirmou.

Numa mensagem dirigida aos fiéis presentes, o bispo diocesano sublinhou que a celebração dos Defuntos é, acima de tudo, celebração de esperança. “Não caminhamos para o vazio. A morte não tem a última palavra. A fé assegura-nos que a vida venceu a morte em Cristo.”

Concluindo, convidou os cristãos a viverem com o olhar fixo na eternidade, sem se deixarem aprisionar pelo imediatismo do mundo presente. “Com Cristo ressuscitado, aprendemos a viver não para nós mesmos, mas para Deus. Hoje, caminhamos ainda como exilados. Um dia habitaremos para sempre a Casa do Pai”, disse, antes de confiar ao Senhor todos os que repousam no cemitério e aguardam a ressurreição final.

A cerimónia contou com a presença de sacerdotes, familiares enlutados e numerosos fiéis que, em recolhimento e oração, prestaram homenagem aos seus entes queridos falecidos.

Como é habitual, terminada a celebração, D. Nuno Brás dirigiu-se em cortejo ao jazigo dos padres falecidos para aí depositar uma coroa de flores e orar pelos sacerdotes que já partiram para junto do Pai, passando depois pelo túmulo de D.Teodoro de Faria onde também depositou uma coroa de flores. 

Leia na íntegra a Homilia de D. Nuno Brás: 

COMEMORAÇÃO DOS FIÉIS DEFUNTOS

IIª Missa

Cemitério de S. Martinho, 2 de novembro de 2025

“Vivemos como exilados, longe do Senhor” (2Cor 5,6)

1. A afirmação de S. Paulo que acabámos de escutar na IIª Leitura: “Vivemos como exilados, longe do Senhor” (2Cor 5,6), não pode deixar de nos questionar. Com efeito, esta afirmação do Apóstolo parece contradizer a nossa experiência quotidiana: aqui, neste mundo, longe de nos sentirmos exilados, parece que o dominamos cada vez mais, à medida que crescemos e nos tornamos adultos; parece que, em cada dia que passa, este mundo se torna, cada vez mais, a nossa casa, o nosso lugar natural de vida, o lugar onde nos sentimos bem. 

Ao contrário, colocar a hipótese de deixar este mundo, ainda que para junto do Senhor, parece-nos carregado de incerteza: dizemos que, dali, ninguém regressou — esquecendo Jesus ressuscitado que veio ao encontro dos seus; temos a sensação de que desconhecemos como será — esquecendo que Deus é amor; parece uma realidade sem garantias, frágil, que nos mete medo — esquecendo a firmeza e a segurança da fé. Talvez por isso, muitos cristãos vivam o seu quotidiano agarrados a este mundo, a este nosso viver, ainda que por entre sofrimentos e dificuldades — mas, apesar de tudo, algo que julgam ser mais certo que a vida eterna.

2. No entanto, na IIª Leitura de hoje, S. Paulo convidava-nos a viver de outro modo. Dizia ele que, aqui, vivemos como exilados, como estrangeiros. No dizer do Apóstolo, esta não é a casa para que nascemos, não é o nosso mundo: habitamo-lo apenas dum modo passageiro, como estrangeiros. Tendo embora lugar para todos, este nosso mundo é demasiado pequeno para a sede de vida eterna; é insuficiente para responder ao desejo de imortalidade que nos habita!

Antes de ser cristão, S. Paulo era um fariseu e, como tal, acreditava na ressurreição dos mortos (cf. Act 23,6). Nessa altura, tomava a vida eterna como o prémio exclusivo das suas acções. Era o fruto da sua capacidade de cumprir a Lei de Moisés. Ou seja: é certo que a vida eterna era um horizonte — mas era um horizonte difícil, impossível de atingir, reservado apenas para alguns, impossível de propor a todos.

Sabemos como o encontro com Jesus ressuscitado que Paulo teve no caminho para Damasco modificou o seu modo de viver. Que se terá passado nesse encontro? Naquele momento, Jesus ressuscitado não deu a Paulo uma lição de doutrina ou um curso de novas ideias que fizeram converter o jovem fariseu. Paulo converteu-se porque encontrou, viu, acolheu no seu coração, na sua vida, a Jesus ressuscitado. Como ele próprio reconheceu depois: “Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim: o que agora vivo na carne, vivo-o na fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gal 2,20).

Paulo não encontrou uma nova doutrina nem uma nova ideologia. Encontrou um Homem, que ele julgava estar morto, que tinha sido crucificado e sepultado, mas que agora saía ao seu encontro, não como espírito ou fantasma, mas cheio da abundante vida de Deus, da vida eterna. No Caminho de Damasco, Paulo encontrou o próprio Deus e recebeu em si a vida divina. Foi este encontro com o Senhor que lhe deu a certeza da ressurreição, a certeza do caminho para a vida com Deus para sempre: Jesus ressuscitado. 

Foi o encontro e a percepção da presença constante de Jesus ressuscitado ao seu lado e nele que modificaram a vida de Paulo. Foi o encontro e a presença de Jesus ressuscitado que o animaram a caminhar pelo mundo para anunciar o Evangelho, para implantar a Igreja onde quer que encontrasse corações disponíveis para acolher a Boa Notícia de que a vida tinha, definitivamente, vencido a morte.

Era urgente que todos conhecessem esta realidade de Cristo connosco na fé. Era uma notícia urgente que poderia mudar o modo de viver dos homens e mulheres do mundo inteiro — como, de facto, mudou!

3. O encontro com Jesus não nos faz apenas procurar ser bons, portar-nos bem, sermos amigos uns dos outros. Diante de nós, o Evangelho abre um novo horizonte de vida (o horizonte da vida de Deus, da Vida Eterna); faz-nos entender a nossa vida e toda a realidade, toda a história do mundo, de um outro modo: percebemos que nós e tudo quanto existe vem de Deus e para Ele se encaminha; que o mundo não anda a vaguear no espaço indefinido, de modo que sejamos nós a conferir-lhe valor; percebemos que o segredo, o caminho da Vida, é deixarmos de viver para nós, para vivermos para Deus e com Deus (na Sua presença) — e, assim, acolhendo em nós a presença do Ressuscitado e do seu Espírito, percebemos que podemos e devemos transformar o mundo, tudo quanto está à nossa volta e dentro de nós, não à nossa imagem mas à imagem de Jesus ressuscitado! Percebemos que podemos e devemos colocar em tudo a Presença de Deus!

Com Jesus ressuscitado, temos força e coragem para modificar o nosso modo de viver, para deixar o nosso egoísmo que centra tudo em cada um de nós e no que julgamos ser o nosso interesse: passamos a viver com Deus que é eternidade — e, assim, deixamos de viver apenas para o hoje, o aqui e agora. Passamos a viver com Deus que tudo tem — e, assim, deixamos de viver obcecados com o ter, com a posse dos bens materiais.

Compreenderam-no bem os santos e, em particular, os mártires: diante da grandeza que o Ressuscitado abre para os crentes, os bens materiais, o poder, a fama e a própria vida passaram a ser coisas menores. Sim, com S. Paulo, nós os crentes, podemos e devemos entender este mundo, não como uma realidade definitiva, mas como um momento passageiro da nossa existência, caminho para a vida definitiva com Deus. Hoje, agora, vivemos exilados, longe do Senhor. Depois de passarmos pela porta da morte, viveremos na alegria que não tem fim. Teremos chegado à nossa morada, à meta da nossa existência: viver para sempre na Casa do Pai.

Pedimos por todos quantos aqui descansam e esperam esse dia glorioso em que o Senhor, regressando em glória, a todos dê a oportunidade de contemplar para sempre e plenamente o Seu rosto de vida.