O Papa Leão XIV recebeu no dia 20 de outubro, no Vaticano, a comunidade do Pontifício Colégio Português, por ocasião do 125.º aniversário de fundação. O momento foi vivido com emoção e gratidão pelo reitor, padre Estêvão Fernandes, sacerdote madeirense, que o descreveu ao Jornal da Madeira, como “uma experiência eclesialmente profunda e espiritualmente densa”.
Segundo o reitor, a coincidência de datas deu um significado muito especial ao encontro. “Foi muito belo encontrarmo-nos com o Papa Leão XIV exatamente 125 anos depois de Leão XIII ter fundado o Colégio, no mesmo dia”, recordou. “Teve um significado muito particular, mas foi ao mesmo tempo uma experiência eclesialmente muito profunda e espiritualmente também muito densa. O facto de o Papa nos acolher a nós, que na sua grande maioria o acolhemos aquando da sua eleição, há poucos meses, na Praça de São Pedro, foi algo de muito belo e significativo”.
Durante a audiência, o Santo Padre dirigiu-se aos membros do Colégio com uma reflexão que, segundo o padre Estêvão, “fez uma síntese daquilo que foi o caminho do Colégio ao longo dos seus 125 anos, sublinhando aquilo que considera essencial e apontando caminhos para o presente e para o futuro”. O núcleo da mensagem, destacou, foi “favorecer o anúncio do Evangelho”.

“O Papa colocou logo no início do seu discurso a tónica nisto mesmo: o núcleo da sua mensagem é favorecer o anúncio do Evangelho”, explicou. “E, neste contexto, sublinhou a escuta, o encontro, o estudo da teologia e das ciências humanas, bem como a capacidade de caminharmos juntos enquanto discípulos do Senhor. Esta dimensão é fundamental nos tempos que correm”.
Entre os apelos mais fortes, o sacerdote destacou o convite à “pedagogia sinodal”. “O Santo Padre falou desta dimensão quando se referiu à fundação do Colégio, feita através da relação e da mútua escuta entre leigos e clérigos. Há um único caminho e um único objetivo: tornar o anúncio do Evangelho mais capaz, mais competente e com capacidade de chegar a todos”.
Na leitura do reitor, Leão XIV valorizou ainda a diversidade cultural e eclesial da atual comunidade, composta por sacerdotes “que vão do Chile à Coreia, do Brasil à Nigéria, de Angola a Portugal”. “Pegou nesta diversidade para dizer que é importante favorecer estas experiências, pois é nelas que compreendemos a universalidade da Igreja”, acrescentou.
Da intervenção papal, uma expressão ficou particularmente gravada na memória do madeirense: “a policromia da unidade e a polifonia da comunhão”. “Foi uma expressão muito bela”, observou. “O Papa caracterizou assim a própria comunidade sacerdotal do Colégio Português, dizendo que o que a define não é apenas o facto de sermos todos sacerdotes, mas o facto de, sendo sacerdotes, vivermos esta policromia da unidade e esta polifonia da comunhão — na interculturalidade e na interdisciplinaridade. São dimensões fundamentais, não só para a formação sacerdotal, mas também para o próprio caminho da Igreja e o anúncio do Evangelho”.
Essa visão, prosseguiu o padre Estêvão, está enraizada no apelo a um coração moldado segundo Cristo: “Viver esta policromia da unidade e esta polifonia da comunhão exige também a dimensão da escuta e da misericórdia. O Papa sublinhou que devemos construir um coração ao jeito de Cristo Bom Pastor. Não basta um coração sábio, nem apenas humano ou de carne; é necessário um coração apaixonado pela Igreja e cheio de compaixão”.
Leão XIV exortou ainda os sacerdotes a fazerem do Colégio “uma verdadeira casa”, evocando uma expressão de Paulo VI sobre a necessidade de criar “algo de mais pessoal, mais próximo, que produza colegialidade e comunhão”. “O nome Colégio”, recordou o padre Estêvão, “implica comunhão, amizade, encontro e unidade, trabalhadas no reconhecimento dos dons de cada um e na valorização das identidades pessoais. É desse reconhecimento que nasce a policromia da unidade e a polifonia da comunhão”.
Outro momento de destaque foi a referência do Pontífice às Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, presentes no Colégio há meio século. O reitor fez questão de sublinhar a importância desta menção: “Creio ser a primeira vez que um Papa se dirige diretamente à congregação das Irmãs Vitorianas, agradecendo a sua maternidade espiritual. O Papa reconheceu que esta maternidade, ainda que discreta, não passa despercebida a Deus e é fundamental para o crescimento humano, espiritual e intelectual dos sacerdotes”.
Na parte final da sua reflexão, o sacerdote destacou o apelo do Santo Padre a olhar o futuro “com esperança e responsabilidade”. O padre Estêvão recordou que, “se o sujeito do anúncio do Evangelho no início do século XX era essencialmente o clero, hoje esse sujeito é mais amplo e abrange todo o Povo de Deus. Isso desafia o Colégio a repensar a sua missão, para servir melhor a Igreja em Portugal e no mundo atual”, referiu.
O reitor não deixou de evocar a ligação histórica entre o Pontifício Colégio Português e a Diocese do Funchal. “Nestes 125 anos já passaram por aqui mais de trinta sacerdotes madeirenses, que se especializaram e serviram a Igreja no Funchal com competência, dedicação e generosidade, como todos os outros”, referiu. “Essa relação permanece viva e é sinal da comunhão entre a Igreja da Madeira e a Igreja universal”.

























