Um parto nas bananeiras em Câmara de Lobos

Em 1989 a União Europeia criou pela primeira vez, nos chamados Programas de Luta Contra a Pobreza, o âmbito concelhio. Câmara de Lobos foi o concelho que a Acção Social da Segurança Social escolheu, atendendo aos valores indicativos da sua grande pobreza, e para o qual fez um programa que propôs às diferentes entidades.

Foram três as áreas que se consideraram prioritárias e que nos propusemos modificar em 3 anos: a mortalidade infantil, a abstenção escolar e fornecer capacitações e motivação para a obtenção de mais habilitações para se melhorar a taxa de emprego e a qualidade do mesmo. Numa grande reunião para toda a Escola Secundária do Estreito de Câmara de Lobos, a única no Concelho, quando foi feita a apresentação do programa, os alunos consideraram que o lixo existente nas ruas, nos sítios, em todo o lado, era a maior manifestação de pobreza no Concelho e propuseram mais este objectivo, o qual foi de imediato aceite. E foram os alunos, toda a Escola e as Autarquias, que programaram e desenvolveram esse trabalho.

Antes de vos falar do parto nas bananeiras tenho que referir que estes Programas são executados em rede, isto é, todas as pessoas, a população em geral, e as entidades participam com os seus saberes, com apoio em meios para se atingirem os diferentes objectivos, para se realizarem as mudanças.

Vamos então ao parto.

Uma parturiente que já tinha muitos filhos, talvez uns 6 ou 7, estava a ser acompanhada na sua gravidez, pela primeira vez, pelos Serviços de Saúde. E digo primeira vez porque as pessoas consideravam que só se recorria ao Centro de Saúde quando se estava doente, com dores, com febre.

Em Câmara de Lobos a taxa de mortalidade infantil, quando se começou o programa, era de 19 nados mortos por 1.000 partos (19/1000). Na União Europeia em 2024 foi de 2/1000. 

A Enfermeira que seguia esta grávida propôs-lhe que fosse acompanhada ao longo de toda a gravidez e que este Bebé nascesse no Hospital, pois a mortalidade das Mães também era elevada.

A Senhora aderiu plenamente ao projecto e estava feliz e segura, aguardando o seu Bebé, “que iria nascer no Hospital”.

Mas…, um dia em que estava tratando das bananeiras, tendo consigo um filho pequeno, (5 ou 6 anos?) começa a sentir o trabalho de parto com muita violência. De tal forma que se deitou no chão das bananeiras e disse ao miúdo: “Vai depressa, corre muito e diz à Sra. Enfermeira que o Bebé está a nascer”.

O filho assim fez e trouxe consigo rapidamente a Enfermeira, tanto mais que o Centro de Saúde era muito próximo.

Mas não houve tempo a perder. A criança nasceu mesmo no meio das bananeiras. E por mais que aquela adorável e meiga Enfermeira tentasse acalmar a Mãe e lhe dissesse que o importante era Mãe e o Filho estarem bem, e estavam, a Mãe levou todo o tempo a chorar e só dizia: “Enfermeira, estragámos a estatística”.