Erradicação da Pobreza

D.R.

Nestes dias, o calendário convida-nos a olhar para duas datas: o Dia Mundial da Alimentação, a 16 de outubro, e o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, a 17 de outubro. Em Roma, o Papa Leão XIV participou no 80.º aniversário da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e, no seu discurso, deixou um apelo: “Permitir que milhões de seres humanos vivam – e morram – atingidos pela fome é um fracasso coletivo, um desvio ético, uma culpa histórica.” Recordou ainda que a fome e a pobreza não são fatalidades, mas sinais da injustiça que ainda governa demasiados corações e sistemas.

Em Portugal, o mais recente relatório da EAPN, publicado esta sexta-feira, 17 de outubro, traça um retrato simultaneamente encorajador e preocupante. A taxa de risco de pobreza ou exclusão social desceu para 19,7%, o valor mais baixo desde 2015, mas continua a abranger cerca de 2,1 milhões de pessoas. O estudo revela que 1,76 milhões de portugueses (16,6% da população) vivem com menos de 632 euros por mês e que quase metade dos pobres está empregada. É um dado que inquieta: o trabalho, que deveria ser caminho de dignidade, deixou de o garantir.

As desigualdades permanecem visíveis e profundas. As mulheres, as famílias monoparentais e as pessoas idosas que vivem sós continuam entre os grupos mais vulneráveis. A EAPN alerta para os efeitos persistentes da precariedade laboral, da crise da habitação e do acesso desigual a serviços essenciais. Na Madeira, o risco de pobreza e exclusão social atinge 22,9%, superando a média nacional. 

Na infografia que acompanha o relatório da EAPN é surpreendente o elevado número de pessoas que não tem recursos para substituir mobiliário, fazer uma semana de férias fora de casa, pagar uma despesa inesperada, comprar roupa nova, cozinhar uma refeição de carne ou peixe a cada dois dias, ou possuir dois pares de sapatos adequados. 

Apesar de alguns sinais de progresso, o relatório evidencia um aumento da pobreza entre os idosos, que já atinge 23,8%, e a persistência dos chamados “trabalhadores pobres”. 

A erradicação da pobreza não pode ser apenas uma meta internacional, mas um compromisso de todos, para todos. Porque, só uma sociedade que garante pão e dignidade a cada pessoa pode chamar-se verdadeiramente humana. Como advertiu Leão XIV, “não podemos aspirar a uma vida social mais justa se não estivermos dispostos a livrar-nos da apatia que justifica a fome, como se fosse uma música de fundo a que já nos habituámos”.