Não acompanho de perto as questões sobre a Venezuela, mas sei que é um país mergulhado há tantos anos em dor e incerteza. Um país onde a liberdade é amordaçada, onde milhões foram forçados a fugir em busca de dignidade e onde a esperança só resiste porque há vozes que não se calam. Entre essas vozes está María Corina Machado, distinguida esta sexta-feira, 10 de outubro, com o Prémio Nobel da Paz. Uma mulher de coragem admirável, símbolo da resistência que vence o medo.
“O Prémio Nobel da Paz de 2025 é atribuído a María Corina Machado pelo seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos do povo da Venezuela e pela sua luta por uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia”, escreveu o Comité do Nobel. Segundo o comunicado, “ela mantém acesa a chama da democracia no meio de uma escuridão crescente”, e acrescenta: “Machado é um dos exemplos mais extraordinários de coragem civil na América Latina nos últimos tempos. Foi uma figura unificadora numa oposição antes profundamente dividida”.
“Este é um prémio para todo um movimento”, afirmou a própria logo após o anúncio. Este prémio não é só para uma pessoa, mas para o povo que resiste sem armas, para os que acreditam que o futuro está no voto livre. “A nossa luta é pela vida, pela liberdade e pela verdade”, disse no início do ano, depois de ter sido sequestrada e libertada dias mais tarde.
Ao ouvir o seu nome, veio-me à memória a passagem do Evangelho de São Mateus: “O machado já está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo” (Mt 3,10). O machado, na linguagem bíblica, não é instrumento de destruição, mas de justiça, que corta o que é corrupto e estéril para que o bem volte a crescer.
O Comité também reconheceu o valor moral da sua resistência: “María Corina Machado mostrou que as ferramentas da democracia são também as ferramentas da paz. Ela encarna a esperança de um futuro diferente, onde os direitos fundamentais dos cidadãos são protegidos e as suas vozes ouvidas. Nesse futuro, o povo será finalmente livre para viver em paz.” Estas palavras não se limitam ao contexto da Venezuela, mas falam de todos os lugares onde o autoritarismo tenta apagar a esperança.

























