Machico viveu com fé a Festa do Senhor dos Milagres

Foto: Duarte Gomes

A paróquia de Machico voltou a viver intensamente a devoção ao Senhor dos Milagres, numa das maiores manifestações de fé da Madeira. Desde cedo, chegaram excursões vindas de vários pontos da ilha. Quarenta peregrinos partiram a pé do Funchal ao que se juntaram outros ao longo do percurso e muitos outros vieram de outros cantos, cumprindo promessas e agradecendo graças alcançadas.

Neste ano jubilar, a barca que transportou a Cruz foi ornamentada com uma alusão aos “peregrinos de esperança”, símbolo do Jubileu. O cenário foi de uma fé como há muito não se via: milhares de pessoas encheram as ruas, incluindo estrangeiros que se juntaram à celebração. Havia muitas promessas, gente descalça e gestos de gratidão que expressavam o profundo significado desta festa.

A tradicional procissão dos archotes voltou a ser o ponto alto da celebração. O percurso entre a Capela do Senhor dos Milagres e a Igreja Matriz demorou mais de duas horas, num ambiente de silêncio, luz e oração. O brilho das velas e dos cerca de 168 archotes iluminou as ruas e os corações, transformando a noite de Machico num cenário de fé viva e emoção partilhada.

À chegada, foi celebrada a Eucaristia presidida por D. Nuno Brás, bispo do Funchal, e concelebrada pelo bispo madeirense D. Nélio Pita que vai presidir hoje às 19 horas à Missa antes do regresso do Senhor dos Milagres à sua capela e por vários sacerdotes. Na homilia, o prelado convidou os fiéis a contemplarem a Cruz de Cristo, recordando o poder transformador do amor de Deus.

D. Nuno Brás começou por afirmar que, “hoje, ao findar deste dia, e depois da procissão sempre tocante em que o Senhor dos Milagres percorre o centro desta cidade, queremos olhar, dum modo muito especial, para a Cruz de Jesus”, lembrando que “na cruz, não contemplamos apenas um morto, ainda que ele fosse o melhor de todos nós, o exemplar mais perfeito de humanidade que alguma vez pudéssemos encontrar”.

Na Cruz, “contemplamos Deus que sofre a nossa morte. Na cruz, percebemos quanto cada um de nós é importante para Deus — tão importante que Ele não hesita em fazer-Se um de nós e mesmo em sofrer a morte dos condenados, para nos oferecer a sua vida”, frisou.

O bispo sublinhou ainda que é na Cruz que se revela a medida máxima do amor divino. Isto é, é na Cruz que “descobrimos o ponto mais alto a que pode chegar o amor. Como afirma São João: ‘Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho único ao mundo, para que vivamos por Ele’. O Deus que é amor manifesta-se, deste modo, na Cruz de Jesus, ao identificar-se com a morte de todos: a nossa morte e até a morte dos condenados.”

O prelado lembrou que o amor de Deus vai muito além de qualquer gesto humano:“O amor manifestado na Cruz de Jesus vai bem mais longe que qualquer gesto de amor humano. Bem mais longe que o amor dos voluntários, que a amizade, que o amor de um homem e de uma mulher, ou o amor dos filhos pelos pais. Todas estas manifestações do amor não passam de imagens pequenas, diante da cruz do Senhor. O próprio Jesus afirmou: ‘Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos amigos; e Eu chamei-vos amigos.”

Perante a grandeza deste amor, D. Nuno Brás convidou à humildade e ao reconhecimento da nossa fragilidade, lembrando que “perante a grandiosidade do amor de Deus por nós, não podemos deixar de nos sentir reconhecidos, mas também culpados. Quanto nos falta ainda, a cada um de nós e à humanidade inteira, para nos identificarmos com esse amor! Diante da sua claridade, como ainda é escuro e mau o nosso coração! Diante da lógica desse amor divino, como são estreitos os nossos pensamentos!”

O bispo recordou que, apesar do esforço e da penitência, o amor humano nunca se iguala ao amor divino afirmando que, “por muito que nos esforcemos, o que fazemos ficará sempre aquém do amor” que, “por nós, jamais seremos capazes de o imitar. Como dizemos em português popular: ‘não lhe chegamos, nem aos calcanhares!”

Referindo-se às palavras de São Paulo, acrescentou: “O bem que quero fazer não faço, mas o mal que não quero fazer, esse pratico. Diante do Amor manifestado na Cruz, percebemos a nossa falta de amor, o nosso pecado.”

Mas, segundo o bispo do Funchal, é precisamente aí que nasce a esperança: “É por isso que, não raras vezes, temos a tentação de desistir. Se não somos capazes, para quê dar-nos ao trabalho? Mas São Pedro diz: ‘Cristo sofreu de uma vez para sempre pelos nossos pecados, o Justo pelos injustos, para nos conduzir a Deus’. 

O prelado concluiu com uma mensagem de confiança e encorajamento, convidando a que, ao olharmos para a Cruz, percebamos, que “apesar de sermos pecadores e frágeis, Deus está ao nosso lado, luta por nós e connosco. Por isso, ficamos cheios de esperança. Em nós, o amor de Deus pode fazer grandes coisas, tal como sucedeu com os santos. Também eles eram frágeis e pecadores, mas deixaram-se envolver e vencer pelo amor de Deus, manifestado em Cristo. Peçamos, também para nós, essa graça.”

A celebração terminou com um ambiente de grande recolhimento e emoção. Muitos fiéis permaneceram em oração diante da imagem, outros regressaram em silêncio, levando no coração a paz e a gratidão que o Senhor dos Milagres inspira. Foi, mais uma vez, uma noite de luz e fé em Machico — sinal vivo de um povo que continua a caminhar, confiante, “peregrino de esperança”.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás: 

SENHOR JESUS DOS MILAGRES

Machico, 8 de Outubro de 2025

“Quem nos poderá separar do amor de Deus?”

1. Hoje, ao findar deste dia, e depois da procissão sempre tocante em que o Senhor dos Milagres percorre o centro desta cidade, queremos olhar, dum modo muito especial, para a Cruz de Jesus. 

Na cruz, não contemplamos apenas um morto, ainda que ele fosse o melhor de todos nós, o exemplar mais perfeito de humanidade que alguma vez pudéssemos encontrar. Na Cruz, contemplamos Deus que sofre a nossa morte. Na cruz, percebemos quanto cada um de nós é importante para Deus — tão importante que Ele não hesita em fazer-Se um de nós e mesmo em sofrer a morte dos condenados, para nos oferecer a sua vida.

Na cruz, descobrimos, deste modo, o ponto mais alto a que pode chegar o amor. Como afirma S. João, na sua Primeira Carta: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho único ao mundo, para que vivamos por Ele” (1Jo 4,10). O Deus que é amor manifesta-se, deste modo, na Cruz de Jesus, ao identificar-se com a morte de todos: a nossa morte e, até, a morte dos condenados.

O amor manifestado na Cruz de Jesus vai bem mais longe que qualquer gesto de amor humano. Bem mais longe que o amor dos voluntários que oferecem as suas horas em favor do próximo; bem mais longe que a amizade; bem mais longe que o amor dum homem e de uma mulher; bem mais longe que o amor dos filhos pelos pais ou dos pais pelos filhos; bem mais longe que a dedicação de alguém que ofereça a sua vida em substituição de outro ou de toda a cidade. Todas estas manifestações do amor não passam de imagens pequenas, diante da cruz do Senhor. O próprio Jesus afirmou de si: “Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos amigos; e Eu chamei-vos amigos”.

2. Perante a grandiosidade do amor de Deus por nós — por cada um de nós e pelo mundo inteiro, de todos os tempos, raças e nações — não podemos deixar de nos sentir reconhecidos. Mas não podemos, ao mesmo tempo, deixar de nos sentir culpados.

Quanto nos falta ainda, a cada um de nós e a todos — a toda a humanidade — para nos identificarmos com esse amor manifestado na Cruz do Senhor! Diante da sua claridade, como ainda é escuro e mau o nosso coração! Diante da lógica desse amor divino, como são estreitos os nossos pensamentos! Perante a “Palavra da Cruz” que Deus pronuncia, como as nossas palavras não passam de balbucios! Diante do agir de Deus em nosso favor e em favor de toda a humanidade, como as nossas acções são estreitas, limitadas.

Por muito que nos esforcemos; por muito que empenhemos a nossa vontade; por muito que a nossa penitência tente extirpar o pecado que nos habita, o que fazemos e o que vivemos ficará sempre aquém do amor. Por nós, jamais seremos incapazes de o imitar. Como dizemos em português popular: “não lhe chegamos, nem aos calcanhares!”.

E não só. Como é verdadeiro, também em nós, o drama de S. Paulo: “O bem que quero fazer não faço, mas o mal que não quero fazer, esse pratico” (Rom 7,19). Diante do Amor manifestado na Cruz, percebemos a nossa falta de amor, o nosso pecado.

3. É por isso que, não raras vezes, temos a tentação de desistir. Se não somos capazes, para quê dar-nos ao trabalho? Não será melhor conformar-nos com as nossas incapacidades?

São Pedro diz: “Cristo sofreu de uma vez para sempre pelos nossospecados, o Justo pelos injustos, para nos conduzir a Deus” (1Ped 3,18). E S. Paulo: 

“Se Deus é por nós, quem estará contra nós?Ele, que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não haverá de nos conceder, juntamente com Ele, todas as coisas? Quem poderá acusar os eleitos de Deus? É Deus quem justifica! Quem os poderá condenar? Cristo Jesus, que morreu e, mais ainda, que ressuscitou, está sentado à direita de Deus e intercede por nós?Quem nos poderá separar do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, ou a espada? […] Em tudo isto somos mais que vencedores, graças Àquele que nos amou. De facto, estou certo de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem as coisas presentes nem as que estão para vir, nem as potestades,nem a altura nem a profundidade, nem qualquer outra criatura, nos poderá separar do amor de Deus que se manifestou em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rom 8,31-39).

Olhamos para a cruz e percebemos que, apesar de sermos pecadores e frágeis, Deus está ao nosso lado, luta por nós e connosco. Por isso, ficamos cheios de esperança. Por isso, continuamos com vontade de caminhar. Por isso, não desistimos.

Em nós, em cada um de nós, o amor de Deus pode fazer grandes coisas, tal como sucedeu com os santos. Também eles eram frágeis e pecadores. Mas deixaram-se envolver, vencer, pelo amor de Deus, manifestado em Cristo. Peçamos, também para nós, essa graça.