Capela dos Terceiros reabre no ano do “Cântico das Criaturas”

A bênção da capela restaurada tem lugar nesta sexta-feira, 3 de outubro, “dia do trânsito” de São Francisco de Assis, coincidindo com os 800 anos do “Cântico das Criaturas”.

Foto: P. Giselo Andrade

Depois de uma década de trabalhos pacientes e sucessivas fases de restauro, a histórica Capela dos Terceiros, também conhecida como Capela de São Francisco, junto ao Convento de São Bernardino em Câmara de Lobos, prepara-se para reabrir as suas portas. Nesta sexta-feira, dia 3 de outubro, véspera da festa litúrgica de São Francisco de Assis, será celebrada a bênção da capela restaurada, um momento muito esperado pela família franciscana e pela população local. A data ganha um simbolismo ainda maior por coincidir com o jubileu dos 800 anos do “Cântico das Criaturas”, a célebre oração escrita por São Francisco em 1225. 

O programa das comemorações inclui a celebração da Eucaristia às 19 horas, na igreja conventual, onde será feita memória deste jubileu franciscano com a colaboração de Hugo Castro. Segue-se a bênção dos animais no adro e, por fim, a bênção do espaço restaurado, com a participação da Orquestra de Bandolins de Câmara de Lobos.

Ao entrar na capela, o visitante é imediatamente surpreendido pela imponência do espaço: o pé-direito alto confere-lhe uma atmosfera de elevação e espiritualidade. No teto, domina o brasão da Ordem Franciscana, considerado por Frei Nélio Mendonça, OFM, “um dos elementos mais relevantes do Convento de São Bernardino”. Em declarações ao Jornal da Madeira, o franciscano sublinha que “os dois elementos mais icónicos deste convento são naturalmente os dois brasões da ordem franciscana, encontrando-se este no teto da capela de São Francisco e outro, em pedra lavrada, na antiga sacristia, ambos do século XVIII”.

O brasão representa os braços de Cristo e de São Francisco com os estigmas nas mãos e três pares de asas, evocando a experiência mística do santo no Monte Alverne. Inclui, ainda, a coroa seráfica, representando as sete alegrias de Nossa Senhora, o cordão franciscano e diversos instrumentos da Paixão de Cristo, acompanhados da inscrição paulina em latim “Longe de mim gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14). Este emblema, com a cruz de Jerusalém na base, recorda também a presença contínua dos franciscanos na Terra Santa, através da Custódia da Terra Santa, instituição que desde o tempo de São Francisco guarda os Lugares Santos e acolhe os peregrinos provenientes de todo o mundo.

Erguida no século XVIII pela Ordem Franciscana Secular (OFS), a capela era o espaço espiritual dos chamados “terceiros”, leigos que seguiam o carisma franciscano. A sua dimensão generosa revela a importância da ordem na Madeira. “O facto dos terceiros terem construído uma capela com esta volumetria significa que a Ordem Terceira tinha na Madeira um peso enorme. Pois, desde a morte de Fr. Pedro da Guarda em 1505, começaram a afluir muitos peregrinos e romeiros de toda a ilha. Daí a existência da grande cozinha e da casa dos romeiros”, explica o guardião de São Bernardino.

Com o passar do tempo, a capela ganhou também uma forte vocação cultural. Durante o período em que a paróquia de Santa Cecília funcionou em São Bernardino, ali realizaram-se peças de teatro, concertos, palestras, retiros e catequese, atividades muitas vezes dinamizadas pelos jovens da paróquia. “Esta capela tem vocação religiosa, mas também cultural. Está aberta para retiros, encontros paroquiais e iniciativas dos movimentos da diocese, mas também para atividades culturais. Já aqui decorreram vários encontros musicais e duas exposições de fotografia”, recorda o franciscano.

O processo de restauro, iniciado há cerca de dez anos, foi desenvolvido por etapas. Depois do telhado novo colocado por ocasião das obras de reabilitação de São Bernardino, começou-se pela substituição do soalho em madeira de casquinha, prosseguiu-se com o restauro integral do retábulo em talha dourada e, posteriormente, do teto com o brasão franciscano. A fase final incluiu a pintura das paredes, das portas, o marmoreado das madeiras e o envernizamento do piso.

A recuperação deste património só foi possível graças ao esforço conjunto de várias entidades e da comunidade local. A Câmara Municipal de Câmara de Lobos, as Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, a Ordem dos Frades Menores de São Bernardino, a Ordem Franciscana Secular que ofereceu a mão de obra, e as ofertas espontâneas da população contribuíram para tornar possível este projeto. Os oito bancos atualmente existentes na capela foram doados pela Paróquia da Sé do Funchal.

Com a reabertura, a Capela dos Terceiros passará a ser a nova sede regional da Ordem Franciscana Secular (OFS), sucedendo à Capela de São Paulo, no Funchal. Após a demolição do Convento de São Francisco em 1866, os terceiros franciscanos passaram a reunir-se na sacristia da Igreja do Colégio. Em 1935, com o regresso dos frades à Madeira, residindo na Capela da Penha de França, Frei José Rolim contribuiu para a reabertura da Capela de São Paulo ao culto. Após 80 anos no Funchal, em 2015 os frades regressaram a Câmara de Lobos e o Conselho Regional da OFS passou a reunir-se na portaria de São Bernardino. Agora, com a reabertura deste espaço, a OFS volta a dispor de um local próprio e com maior dignidade para os seus encontros e atividades.

Atualmente, a Ordem Franciscana Secular conta com dez fraternidades na diocese, presentes em várias paróquias, com encontros mensais e a assistência espiritual dos franciscanos e párocos locais.

A história da capela está também ligada a figuras marcantes da espiritualidade franciscana na Madeira, como a Irmã Maria de São Francisco Wilson, que faleceu no convento a 18 de outubro de 1916. As suas exéquias foram celebradas precisamente nesta capela, antes de ser sepultada em Câmara de Lobos e, mais tarde, trasladada para a Quinta das Rosas.

No campo da arte sacra, destacam-se duas peças do século XVIII: a imagem de vestir de São Francisco de Assis, proveniente do antigo convento de São Francisco do Funchal e colocada no nicho central do retábulo, e um crucifixo no alto do altar-mor, ambos testemunhos da devoção e da arte religiosa da época.

O renascimento da Capela dos Terceiros, associada a todo o espaço conventual é um marco na história religiosa da Madeira e um símbolo vivo de fé, cultura e memória coletiva. “Este é um espaço aberto ao exterior, à diocese, às paróquias e aos movimentos, assim como à cultura, podendo à semelhança de outros espaços idênticos designar-se, também, como Centro Cultural de São Bernardino”, sublinha Frei Nélio, destacando a importância de manter viva a missão franciscana de acolher e evangelizar.