Atlântico

D.R.

No dia 1 de outubro, em Castel Gandolfo, o Papa Leão XIV abençoou um fragmento de gelo com 20 mil anos, trazido da Gronelândia. O gesto, profundamente simbólico, quis tornar visível a urgência da crise climática e o drama do degelo dos glaciares. Nas imagens, os pingos do gelo a derreter até pareciam lágrimas. Foi nesse contexto que o Papa lançou um apelo direto ao mundo: “É preciso passar dos discursos ambientalistas a uma conversão ecológica”, chamando a atenção para a necessidade de ir além das palavras e dos diagnósticos.

Essa conversão, explicou Leão XIV, “só pode acontecer por meio de um retorno ao coração”, porque “nas Escrituras, o coração não é apenas o centro dos sentimentos e emoções: é a sede da liberdade”. A crise climática exige decisões políticas e económicas urgentes, mas começa numa transformação interior. “É preciso passar da coleta de dados ao cuidado”, afirmou o Papa, lembrando que “somos uma única família, com um Pai comum; habitamos um mesmo planeta, do qual devemos cuidar juntos”. Não se trata de um tema secundário, mas de uma responsabilidade essencial que define o nosso futuro coletivo.

Um dos problemas ecológicos mais graves da atualidade situa-se no oceano. Num relatório recente, os cientistas alertam para a “tríplice crise planetária”: alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição. O Atlântico, tal como os restantes oceanos, tem sido um verdadeiro pulmão azul da Terra, absorvendo grandes quantidades de calor e dióxido de carbono, funcionando como um amortecedor natural contra o aquecimento global e regulando o clima mundial. Contudo, em 2024 registaram-se níveis recorde de aquecimento das águas, com a temperatura média da superfície oceânica a ultrapassar os 21 ºC e com uma subida média do nível do mar de 4,1 mm por ano, a mais alta alguma vez registada.

“Estas mudanças ameaçam ecossistemas marinhos, biodiversidade, património cultural e setores económicos fundamentais, como a aquacultura e o turismo costeiro” (Copernicus Ocean State Report 2025).

O Papa recorda que a crise ecológica não é apenas ambiental, mas também espiritual e ética: “Não se pode amar o Deus que não se vê desprezando as suas criaturas”, disse. A conversão ecológica não se limita a palavras: implica ações concreta, mudança de hábitos e políticas eficazes. Este magnífico oceano Atlântico que nos abraça e nos dá identidade pede agora o nosso cuidado. Proteger o Atlântico é proteger-nos a nós mesmos.

O vídeo está disponível aqui.