Bispo do Funchal desafia comunidade a olhar para os pobres e investir na formação dos leigos

D. Nuno desejou ainda que “cada um se deixe formar por Cristo, para que a Igreja diocesana seja verdadeiramente sinal de esperança e de vida para o nosso tempo”.

Foto: Duarte Gomes

O Bispo do Funchal, D. Nuno Brás, presidiu este domingo, 28 de setembro, à Eucaristia de abertura do novo Ano Pastoral, celebrada na Sé do Funchal. Na homilia, o prelado sublinhou a atualidade da parábola do rico e do pobre, lembrando que a divisão entre abastados e necessitados continua a marcar a humanidade. “Parece que o mundo está condenado a esta histórica divisão entre ricos e pobres, mais profunda do que qualquer outra. Ricos que exibem tranquilamente as suas posses diante de novos e antigos Lázaros, que persistimos em ignorar”, afirmou.

Segundo o bispo diocesano, essa desigualdade assume rostos bem concretos: “Lázaros que, apesar do seu trabalho, não conseguem sustentar dignamente a sua família; Lázaros obrigados a mendigar a sobrevivência; pobres de pão, de sabedoria, de humanidade e, sobretudo, pobres de Deus”. Embora reconheça que “não poucas desigualdades foram esbatidas” e que “alguns, felizmente, deixaram para trás a condição de pobreza”, o prelado advertiu: “Essas pequenas conquistas não nos podem desviar dos abismos de pobreza que permanecem perante o olhar passivo da maioria, que não apenas assume esta divisão como normal, mas até sonha simplesmente com passar para o outro lado”.

D. Nuno Brás alertou ainda contra ideologias que, ao longo da história, pretenderam eliminar a pobreza sem referência a Deus. “Foram tentativas que, apesar da generosidade inicial, descambaram em novas desigualdades, em ditaduras onde o humano quase desapareceu. Quem elimina Deus do coração humano e o coloca como adversário, está condenado ao fracasso”.

Para o bispo do Funchal, a Palavra de Deus convida a um olhar diferente e comprometido. De resto, “jamais resolveremos esta divisão sem a ajuda de Deus e da sua graça, sem coragem e trabalho. Pobres sempre os tereis, disse Jesus, mas isso não significa que devamos cruzar os braços. A questão não é utopicamente querer eliminar toda a pobreza, mas criar condições para que os pobres não estejam condenados a essa situação”. E recordou a resposta simples e incisiva de Santa Teresa de Calcutá: “Não sei como eliminar a pobreza; eu ajudo os pobres”.

O prelado reforçou que este é um combate que não pode ser adiado nem delegado apenas nas instituições. “Não é uma luta perdida. É uma luta que precisa de ser travada constantemente, como a luta contra o pecado, porque nele se encontra a raiz da pobreza. É responsabilidade dos poderes públicos, da sociedade, da Igreja, mas também de cada ser humano, de cada cristão”.

Ao apresentar o tema que marcará o novo ano pastoral — “Formação dos Leigos” — D. Nuno Brás explicou que “formar significa dar forma, e formar um cristão é ajudá-lo a assumir a forma de Cristo. Significa moldar a vida interior e exterior para que Cristo continue a estar presente e a dar a sua vida ao mundo”.

O bispo frisou que a Diocese do Funchal é herdeira de muitos testemunhos silenciosos de fé: “Homens e mulheres anónimos que cuidavam dos seus filhos, que liam a vida com os olhos de Deus, que mantinham os pés assentes na sua terra e o olhar fixo no Céu. É essa herança que nos inspira”.

O objetivo, segundo o prelado, é que cada cristão viva de forma consciente a sua fé: “Queremos ajudar os nossos leigos a assumirem os critérios de Deus no quotidiano, a dizer conscientemente a sua fé e a participarem de modo mais ativo na vida da comunidade. Não basta ter fé; é preciso saber testemunhá-la e fundamentá-la”.

Foi neste contexto que D. Nuno Brás recuperou a expressão popular da “fé do carvoeiro”, tantas vezes usada de forma depreciativa. “Quem sorri dessa fé ingénua esquece que a fé nasce de um encontro surpreendente e desarmado com Cristo. É verdade que depois a fé exige pensamento e decisão, mas não podemos desvalorizar a confiança simples que brota do encontro com Deus”.

Por isso, o bispo convidou os fiéis a crescerem numa fé adulta, capaz de dar razões a quem pergunta: “Queremos ajudar os nossos cristãos a fazer a apologia da fé, a explicá-la com palavras e sobretudo com a vida. Precisamos de comunidades vivas, que deem testemunho de Cristo no meio de um mundo tão rico em bens materiais, mas tão pobre em humanidade e fé”.

A Eucaristia na Sé, que foi concelebrada por vários membros do Cabido e outros elementos do clero diocesano e membros dos movimentos da igreja, marcou, assim, o início de um caminho comunitário. D. Nuno Brás concluiu: “Ao longo deste ano pastoral, disponhamo-nos todos a crescer na fé e na entreajuda. Que cada um se deixe formar por Cristo, para que a Igreja diocesana seja verdadeiramente sinal de esperança e de vida para o nosso tempo”.

Leia na íntegra a homilia do bispo do Funchal:

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM (C)

Abertura do Ano Pastoral 

28 setembro 2025

1. Um rico e um pobre: parece fixado o destino do mundo, a sua história desde o inicio até ao final, de tal forma que a parábola que acabamos de escutar, proferida por Jesus há dois mil anos, a vemos ainda bem presente neste nosso mundo e nesta nossa sociedade: ricos que tranquilamente ostentam as suas posses, diante da pobreza de outros — diante de novos e antigos Lázaros cujos nomes continuamos a conhecer, mas cuja situação persistimos em ignorar: Lázaros que, apesar do seu trabalho, não são capazes de sustentar dignamente a sua família; Lázaros que se vêem obrigados a mendigar a sobrevivência; Lázaros, pobres de pão, mas também pobres de sabedoria, pobres de humanidade, e (sobretudo) Lázaros pobres de Deus.

Parece que o nosso mundo está condenado a esta histórica divisão entre ricos e pobres, mais profunda que qualquer outra divisão: os continentes são ricos ou pobres; e assim também os países e as pessoas. Parecem condenados ainda antes de nascer; condenados ainda antes de poderem trabalhar, crescer, lutar…

Temos consciência de que não poucas desigualdades têm sido esbatidas e ultrapassadas nestes nossos tempos. Não ignoramos como alguns têm — felizmente — deixado a condição de pobreza, a que pareciam condenados. Sim, é algum o caminho que já percorremos — pequenas conquistas desta civilização a que o cristianismo deu alguma forma. Mas essas poucas conquistas não nos podem fazer desviar os olhos das muito maiores e abissais pobrezas que persistem, perante o olhar passivo da maioria, que não apenas assume essa divisão como normal, como até aspira, simplesmente, a passar para “o outro lado”: a ser rica, esquecendo a sua anterior condição.

E também não ignoramos tantas tentativas ideológicas de resolver esta grande questão. Tentativas que, apesar da generosidade de alguns, facilmente descambaram em maiores desigualdades e em novas formas de pobreza, em regimes de ditaduras onde o humano se viu quase aniquilado. Tentativas que, por ignorarem Deus e se colocarem mesmo como seus antagonistas, assumindo como objectivo o desaparecimento de Deus do coração e da vida humana, estavam, à partida, condenadas ao fracasso.

2. Mas o apelo da Palavra de Deus acaba de ressoar, uma vez mais, desinstalando o nosso pensar e agir, pondo em questão os nossos critérios, convidando a não desviarmos o olhar da realidade do pobre, e reconhecendo que jamais resolveremos esta divisão, presente na vida humana devido ao pecado, sem a ajuda de Deus e da sua graça, e sem nos colocarmos, com mais sinceridade, ao trabalho, à iniciativa corajosa.

Certamente: sendo verdadeira a afirmação de Jesus: “Pobres sempre os tereis” (Mc14,7), a questão não é a de, utopicamente, querer eliminar a pobreza, qualquer que ela seja, mas a de criar condições para que os pobres não se vejam condenados a essa situação. Isso mesmo quis dizer Santa Teresa de Calcutá, quando a questionaram sobre como eliminar a pobreza: “Não sei como eliminar a pobreza; eu ajudo os pobres”, respondeu.

Claro que isso não pode significar (bem pelo contrário) a demissão da meta que tomámos para a nossa vida: no Céu, junto de Deus, sabemos que não haverá pobreza. Como também não pode significar a demissão dos poderes públicos, que facilmente se conformam com a presente situação. Esta não é uma luta perdida: é antes uma luta que precisamos de travar constantemente, tal como travamos aquela outra contra o pecado — sendo que uma e outra acabam por coincidir, pois, se virmos bem, no pecado se encontra a origem daquela pobreza. Não pode significar a demissão dos poderes públicos, nem a demissão de qualquer outro tipo de poder que possa influenciar a nossa sociedade — e, assim, também a Igreja. É antes uma luta que a todos deve congregar e unir. E, por isso, é uma tarefa de cada ser humano, de cada um de nós, de cada cristão. São Paulo, exortando os cristãos de Corinto à generosidade, recorda-lhes: “Conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se tornou pobre por vossa causa, para que fosseis enriquecidos pela sua pobreza” (2Cor 8,9). Desta pobreza de Cristo, plenamente manifestada na Cruz, queremos, todos nós, ser presença e testemunho, procurando, assim, enriquecer este nosso mundo, tão opulento de bens materiais mas tão pobre de humanidade e de fé.

3. Nem esta luta é estranha à “Formação dos Leigos”, tema que nos propomos viver dum modo mais intenso neste ano pastoral que iniciamos com a presente celebração. Com efeito, “formar” significa “dar forma”. Formar um cristão, qualquer que ele seja, significa ajudá-lo a assumir a forma de Cristo — forma que molda simultaneamente a sua vida interior e o modo como ela se manifesta perante todos, se mostra e anuncia as maravilhas de Deus.

Formar alguém significa, pois, fazer com que Cristo dê, cada vez mais, forma à sua vida; significa fazer com que os nossos sentimentos e as nossas atitudes sejam cada vez mais as de Cristo, de modo que Ele continue hoje a estar presente e a dar a sua vida ao mundo.

Insistimos, no entanto, nos leigos. Não que tenham desaparecido os testemunhos de santidade que desde sempre enriqueceram a nossa Igreja diocesana e moldaram a face do que significa ser madeirense — histórias de homens e mulheres anónimos que cuidavam dos seus filhos; testemunhos de gigantes na fé, que liam com os olhos de Deus a difícil realidade em que viviam; cristãos que colocavam os olhos no Céu e os pés nesta terra onde tinham nascido.

Trata-se, antes, de ajudar os nossos leigos a assumirem cada vez mais conscientemente, no seu quotidiano, os critérios de Deus, e a assumirem o próprio Deus como critério de existência. Tal como se trata de, ao mesmo tempo, os ajudar a dizer conscientemente a sua fé e a participar de um modo cada vez mais activo na vida da comunidade cristã.

A expressão “fé do carvoeiro” foi muitas vezes usada para ridicularizar a atitude existencial do cristão que se confia à fé da Igreja e a faz sua. Diz-se que tem a origem no encontro entre um grande teólogo que se teria perdido numa floresta e que, tendo encontrado um carvoeiro, se pôs a dialogar com ele acerca de Deus. E o carvoeiro respondeu: “Eu acredito como a Igreja acredita”. “E o que acredita a Igreja?”, terá questionado o teólogo. “Acredita no que eu acredito”, respondeu o carvoeiro. E dali não saiu.

Quem sorri, qual superior juiz, dessa fé de carvoeiro, esquece que a fé tem a sua origem num encontro com Jesus Cristo — encontro surpreendente e, de verdade, simples, ingénuo, desarmado. Esquece que a fé não começa por se perguntar sobre as razões de tal atitude confiante. E esquece também que, logo depois, essa atitude confiante dá lugar a um pensar e a um querer. E não são inúteis esses pensamentos acerca da fé. São a mais genuína expressão do humano, que procura razões de viver e de acreditar.

Queremos ajudar os nossos cristãos a serem capazes de “fazer a apologia da fé”, a dar as suas razões a quem os interrogue, e a, com a sua vida, participarem activa e conscientemente na construção da sua comunidade cristã e humana.

Assim todos, ao longo deste ano pastoral, nos disponibilizemos para crescer na fé e na entreajuda e, desse modo, nos ajudemos todos a crescer como comunidade.