Um achado arqueológico do início do século XX, redescoberto e restaurado ao longo de anos de investigação, devolveu ao mundo o som perdido de um órgão medieval da Igreja da Natividade, em Belém. Os tubos de cobre, datados de há mais de mil anos, foram agora instalados, permitindo ouvir, pela primeira vez em séculos, as mesmas melodias que ecoaram nas liturgias dos cruzados.
O projeto “Órgão de Belém”, considerado o mais antigo órgão da cristandade, foi apresentado oficialmente a 9 de setembro na Custódia da Terra Santa. Os especialistas já consideram a descoberta como “um ponto de viragem na organologia”.
“Depois de 800 anos, ouvir o som deste órgão também nos remete à liturgia da Idade Média. (…) Este órgão, em certo sentido, é o protótipo, aquele que nos une a uma tradição que nos precedeu no mundo latino através dos cruzados”, declarou Frei Stéphane Milovitch, presidente do Terra Sancta Museum, citado pela Christian Media Center.
No início do século XX, os franciscanos da Terra Santa realizaram obras junto ao cemitério católico, descobrindo “por acaso” cerca de duzentos e cinquenta tubos de cobre de um órgão antigo, treze sinos e peças metálicas, pertencentes à Basílica da Natividade.

O caráter excecional do instrumento surpreendeu até os maiores especialistas. “Todos esses tubos têm a mesma largura, da nota mais grave à mais aguda, e são feitos de cobre”, explicou o organólogo Koos van de Linde. Parte deles, fabricados há mais de mil anos, funcionam perfeitamente, permitindo recriar uma experiência sonora inédita: o mesmo timbre que ecoava nas liturgias dos cruzados na Igreja da Natividade.
O público presente pôde assistir ao momento histórico em que o diretor do projeto, o musicólogo espanhol David Catalunya, do Instituto Complutense de Ciências Musicais (ICCMU), utilizou os tubos originais do Órgão de Belém para a execução do canto litúrgico do século XI, Benedicamus Domino Flos filius. “Este é um momento verdadeiramente especial para nós. Sonhamos com este dia há meses, desde que começámos a planear a reconstrução da caixa do órgão. Finalmente chegou o dia em que instalaremos os tubos originais do século XI na caixa reconstruída. Isso dá-nos uma impressão visual muito precisa de como era o instrumento, provavelmente nos séculos XI e XII, antes de ser desmontado”, afirmou Catalunya.
Atualmente, o órgão está alojado no Mosteiro de São Salvador, na Cidade Velha de Jerusalém, antes de ser transferido para a sala do claustro musical do Terra Sancta Museum. O musicólogo Álvaro Torrente, também envolvido no projeto, descreveu assim a descoberta: “É como encontrar um dinossauro vivo, porque é algo que sabíamos que existia, mas só conhecíamos por fósseis. Este não é um fóssil, é o objeto real e o som real”.
“É uma porta de entrada para o passado, permitindo-nos ouvir os ecos vivos da história, ainda hoje”, concluiu Frei Stéphane Milovitch, sublinhando o valor cultural e espiritual deste património único da cristandade.
Veja aqui a reportagem em video do Christian Media Center.



























