Mais de 1.600 novos mártires do século XXI reconhecidos pela Comissão do Vaticano

D.R.

Do ano 2000 até hoje, mais de 1.600 mártires e testemunhas da fé foram reconhecidos pela Comissão dos Novos Mártires – Testemunhas da Fé, instituída pelo Papa Francisco a 5 de julho de 2023, no Dicastério para as Causas dos Santos, em preparação para o Jubileu de 2025. A informação foi divulgada esta segunda-feira, 8 de setembro, durante uma conferência de imprensa na Sala de Imprensa da Santa Sé, onde foi também apresentada a celebração ecuménica que terá lugar no próximo domingo, 14 de setembro, na Basílica Papal de São Paulo Fora de Muros, por ocasião da Festa da Exaltação da Santa Cruz.

A Comissão, criada por decisão do Papa Francisco, tem como objetivo elaborar um catálogo com os nomes de todos aqueles que derramaram o seu sangue “para confessar Cristo e dar testemunho do Evangelho” no último quarto de século. Numa carta divulgada pelo Vaticano, Francisco explicou que “não podemos esquecê-los”, sublinhando que esta busca se estende a todas as denominações cristãs e não apenas aos católicos.

Segundo Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e vice-presidente da Comissão, os relatos recolhidos provêm de diferentes partes do mundo e de várias Igrejas e tradições cristãs. Entre os reconhecidos, 304 mártires são provenientes das Américas, 43 da Europa, 110 morreram em missões espalhadas pelo mundo, 277 foram mortos no Médio Oriente e Magrebe, 357 na Ásia e Oceânia e 643 em África, “onde os cristãos mais morrem”, explicou Riccardi.

As histórias estudadas reflectem contextos de perseguição religiosa, violência de organizações criminosas, exploração de recursos naturais, ataques terroristas e conflitos étnicos. “Infelizmente, os cristãos continuam a morrer”, afirmou Andrea Riccardi. “E continuam a morrer porque são testemunhas do Evangelho, porque são apaixonados por Deus, pelos irmãos e irmãs, porque são autênticos servos da humanidade, porque são livres comunicadores da fé. Muitas vezes, a própria presença de um cristão como uma pessoa honesta, cumpridora da lei e dedicada ao bem comum incomoda quem procura promover agendas criminosas.”

A celebração de 14 de setembro será a única cerimónia ecuménica do Ano Jubilar, reunindo 24 delegados de diferentes Igrejas cristãs e grandes comunhões. Presidida pelo Papa Francisco, a liturgia destacará o chamado “ecumenismo do sangue”, expressão usada por São João Paulo II para sublinhar que, “no martírio, a Igreja já está unida”, recordou D. Fabio Fabene, secretário do Dicastério e presidente da Comissão.

O tema central da celebração será o Evangelho das Bem-Aventuranças, proclamado “na carne das Igrejas desses filhos que perderam a vida defendendo a esperança no seu amor pelo Evangelho e pelos pobres”, sublinhou monsenhor Marco Gnavi, secretário da Comissão.

Durante a cerimónia, será feita memória de várias testemunhas, como a irmã Leonella Sgorbati, assassinada na Somália em 2006, e um grupo de cristãos evangélicos mortos por terroristas em Burkina Faso, em 2019.

A Comissão actual dá continuidade ao organismo criado por São João Paulo II para o Jubileu de 2000, que documentou os mártires do século XX e originou o Memorial dos Novos Mártires na Igreja de São Bartolomeu, na Ilha Tiberina, em Roma.

No contexto do Ano Santo da Esperança, os membros da Comissão sublinharam o carácter inspirador destes testemunhos. “Esses irmãos e irmãs fixaram a âncora da esperança não na realidade do mundo, mas no coração de Deus. Eles esperaram em Deus, e a sua recompensa é plena de imortalidade”, afirmou D. Fabene. Monsenhor Gnavi acrescentou que “a esperança foi a razão das suas vidas antes da morte”, porque a viveram “em contextos de conflito étnico, opressão e humilhação dos pobres” e onde “o Mal com M maiúsculo” estava presente.

Para Riccardi, “a esperança cristã não é um estado de espírito ou optimismo, mas a esperança cristã amadurece na memória da fidelidade de Deus e amadurece na memória de mulheres e homens que acreditaram num Deus que lhes foi fiel mesmo em circunstâncias adversas”.