O céu cinzento que se foi carregando a partir do meio dia e que acabou por “desabar” afastou muitos fiéis, mas não impediu a Ponta Delgada de se encher de cor, devoção e fé no domingo, 7 de setembro.
Na pequena vila, as ruas acordaram cedo ao som da música dos altifalantes e do movimento dos romeiros, muitos deles vindos a pé durante a noite, cumprindo promessas antigas ou simplesmente seguindo a tradição herdada dos pais e avós.
O mar, logo ali ao lado, agitava-se com a mesma intensidade do coração de quem chegava cansado, mas feliz, com flores nas mãos e o terço no bolso.
A Festa do Festa do Santíssimo Sacramento— também conhecida como Festa do Senhor Bom Jesus —voltou, de facto, a reunir muitos fiéis e romeiros vindos de vários pontos da ilha.
No entanto, neste domingo, a verdade é que a chuva fez muitos desses romeiros voltarem a casa mais cedo do que o previsto. Dos que ficaram, muitos participaram na Eucaristia da festa, celebração que foi presidida pelo Bispo do Funchal, D. Nuno Brás, que, na homilia, lembrou aos presentes que “todos nós precisamos de Deus”.
Com um tom próximo e direto, o bispo falou da necessidade de reconhecer a nossa própria fragilidade.
“Todos nós somos diferentes. Mas todos nós somos fracos. Todos nós somos pecadores. E aquele que acha que não precisa de ninguém, que se basta a si mesmo, ainda não percebeu nada. Precisamos uns dos outros. Mas sobretudo, irmãos, precisamos de Deus. Precisamos de Deus que nos salve, que nos dê a vida.”
O prelado recorreu a imagens simples do quotidiano para tornar a mensagem clara: os bancos onde todos estavam sentados — fruto do trabalho de carpinteiros, serradores, transportadores e cuidadores — serviram-lhe de exemplo para mostrar como ninguém vive sozinho.

O alimento que transforma
O ponto alto da homilia chegou quando o bispo falou da Eucaristia como centro da vida cristã:
“Alguém que se alimenta de Deus na Eucaristia torna-se santo, torna-se presença de Deus. A Eucaristia é a nossa auto estrada para o céu, é a nossa auto estrada para a felicidade. Não precisamos de procurar a felicidade em outras coisas, porque é em Deus, e neste Deus connosco, que está verdadeiramente a nossa felicidade.”
A multidão, atenta apesar da chuva que caia lá fora e que não deixava adivinhar se ia haver procissão ou não, ouviu ainda D. Nuno Brás falar de dois novos santos canonizados em Roma pelo Papa, nesse mesmo domingo: Pier Giorgio Frassati, jovem italiano do início do século XX, estudante de engenharia e membro da Conferência de São Vicente de Paulo; e Carlo Acutis, adolescente falecido em 2006, conhecido pela sua paixão pela Eucaristia.
O bispo não escondeu a admiração pela figura de Carlo, “um rapaz como tantos outros, que jogava futebol, gostava de mergulhar e de dançar ao som da música, mas que se apaixonou profundamente pela presença de Jesus”. E citou uma das frases mais conhecidas do jovem santo:“A Eucaristia é a minha auto estrada para o céu.”


Procissão que desafia o tempo
Depois da missa, e apesar da chuva continuar a cair, a procissão sempre percorreu a rua da igreja até acima das piscinas da vila, com o adro a estar, como sempre, adornado com um belíssimo tapete de flores. O cheiro da terra molhada misturava-se com o cheiro a maresia vindo do mar.
Apesar do tempo, muitos foram os que acompanharam o Senhor nesta sua caminhada. Para uns, era o cumprimento de uma promessa; para outros, a oportunidade de reforçar a fé; para todos, a certeza de que, mais uma vez, o Senhor Bom Jesus reuniu a comunidade em torno daquilo que verdadeiramente importa.
Entre guarda-chuvas abertos, cânticos emocionados e o mar a rugir como testemunha, Ponta Delgada mostrou que, mais do que uma tradição, esta festa é um encontro de fé, esperança e comunhão.
No final da celebração, que contou com a presença do Secretário Regional da Agricultura e Pescas, Nuno Maciel, em representação do presidente do governo, do Presidente da Autarquia entre outras individualidades locais, o Pe. Duarte Gomes, pároco da Ponta Delgada agradeceu a disponibilidade do bispo diocesano para presidir a esta festa uma das principais do calendário religioso madeirense.









































