Ao iniciar o mês de setembro, depois da pausa das férias, tinha pensado escrever neste espaço sobre recomeços. É o mês em que as nossas comunidades voltam a ganhar o ritmo habitual. As paróquias retomam as suas atividades, preparam o regresso das crianças à catequese e definem a agenda para um novo ano pastoral. Setembro costuma ser sinónimo de esperança e de renovação. No entanto, a notícia do trágico acidente do Elevador da Glória, em Lisboa, mergulhou-nos num profundo sentimento de dor. Um símbolo da cidade, um postal icónico associado ao quotidiano de Lisboa, tornou-se agora cenário de luto.
De um momento para o outro, a vida de tantas famílias ficou suspensa. Dezasseis vidas perderam-se de forma súbita, vinte e uma pessoas ficaram feridas, e com elas ficaram também feridas as suas famílias, os amigos, a cidade e o país inteiro. As imagens que correm o mundo, de uma das maiores tragédias da história recente de Lisboa, abalam-nos por dentro. Quantas histórias e sonhos interrompidos. Perante a dimensão do sofrimento, só nos resta o silêncio solidário e a oração confiante. Rezamos pelos que partiram, pedindo ao Senhor que lhes conceda a paz eterna, e rezamos por todos os que ficaram, para que encontrem força, consolo e esperança.
Esta tragédia também nos desafia a refletir. Obriga-nos a pensar sobre a forma como cui- damos das nossas cidades e do nosso património, pois, em última análise, trata-se do cuidado pelas pessoas, os residentes e aque-les que nos visitam. Falamos de vidas con- cretas, de rostos e projetos que num instante podem ser totalmente arrasados. No meio da pressa dos dias e dos compromissos em catadupa, somos chamados a recuperar a consciência daquilo que verdadeiramente importa: a dignidade da vida, o valor da segurança e o dever sagrado de proteger cada pessoa.
Mesmo na dor, setembro continua a pedir de nós um recomeço. É preciso avaliar o que falhou, aprender com os erros e assumir que a prevenção é uma tarefa contínua, que exige vigilância, investimento e responsabilidade. É tempo de reconstruir vidas, de cuidar melhor uns dos outros e da nossa casa comum. Recomeçar não significa esquecer, mas transformar a memória em atitudes concretas. Que a dor que hoje sentimos nos una mais como comunidade, desperte em nós a solidariedade e nos ajude a construir um futuro onde a vida seja sempre defendida.























