Na manhã desta terça-feira, 26 de agosto, a Sé do Funchal encheu-se para a celebração das exéquias fúnebres de D. Teodoro de Faria, bispo emérito do Funchal, falecido no passado dia 23, véspera do seu 95.º aniversário.
A Eucaristia foi presidida pelo atual bispo do Funchal. D. Nuno Brás,rodeado pelo clero madeirense, por familiares, amigos, autoridades civis, militares e eclesiásticas locais e nacionais, como o caso de D. António Carrilho, bispo emérito do Funchal, dos cardeais D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa e D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, de D. Nélio Pita, bispo auxiliar de Braga e de D. José Ornelas Carvalho,bispo de Leiria-Fátima e Presidente da CEP e uma multidão de fiéis, conduziu a comunidade diocesana no último adeus ao seu antigo pastor. Ele que foi, nas suas palavras,“sinal tangível da presença de Deus”.
Na homilia, D. Nuno Brás abriu a sua reflexão lembrando que “a celebração das exéquias de um cristão é sempre, antes de mais e acima de tudo, uma proclamação do mistério pascal de Cristo — quer dizer: da Sua vitória sobre a morte”. Sublinhando a esperança que brota da fé, o bispo do Funchal frisou que, diante do fim da vida terrena, “nada mais temos a proclamar senão Jesus Cristo e a sua vitória sobre a morte”.
O prelado citou São Paulo, recordando a primeira Carta aos Coríntios: “A morte foi engolida na vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” Para D. Nuno, estas palavras servem de resposta àquilo que poderia parecer o sem-sentido da existência: “uma vida para a morte”. E acrescentou: “Nós, cristãos, não podemos deixar de proclamar o verdadeiro sentido não apenas da vida de cada um, mas da história inteira: Cristo, alfa e ómega, princípio e fim do universo”.
O bispo evocou ainda uma homilia pascal de D. Teodoro, proferida em 2004, na qual o bispo emérito ensinava: “O cristão pertence já a Cristo ressuscitado. Tendo morrido para o pecado, já participa da condição do ressuscitado. Não se trata de fugir ou abandonar o mundo, mas de pensar e agir de uma forma diferente, rejeitando a avareza, o vício, a violência, e aderindo às novas realidades de pessoas salvas, chamadas à santidade e comunhão com Deus.”
“Estas palavras do Senhor D. Teodoro são hoje para nós uma herança espiritual”, afirmou D. Nuno Brás, acrescentando que “na morte de um bispo, celebramos sempre a Páscoa de Cristo, porque a vida do pastor é inseparável da vida do seu povo e da missão que lhe foi confiada”.
Não fazer juízos de valor
Referindo-se ao longo ministério de D. Teodoro, o bispo do Funchal lembrou que “a cada bispo cabe anunciar, como São Paulo dizia, a insondável riqueza de Cristo. Foi este o lema que D. Teodoro escolheu para o seu episcopado — Evangelizaredivitias Christi — e foi este o horizonte que procurou viver, tanto aqui na Madeira, como junto das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo”.
D. Nuno fez questão de vincar ainda que “cada bispo — como qualquer outro ser humano — tem, obviamente, qualidades e defeitos”e que “não nos compete fazer juízos humanos sobre o que significou o seu pastoreio.
“Não nos toca a nós fazer juízos humanos, ou opinar sobre o que significou para a nossa Igreja Diocesana o ministério episcopal do Senhor D. Teodoro. Deixamos isso não tanto para a história e para quem a há-de escrever, como (sobretudo) para o Senhor da História, juiz misericordioso, Pai de bondade — o único a conhecer os corações, as intenções íntimas, o todo da história, com todas as suas variáveis, e para lá do que possam ser as aparências. O único que, por ser Amor, pode julgar”, frisou.
Queremos isso sim, continuou,“dar graças a Deus pelo facto de, no Senhor D. Teodoro, nos ter dado um Pastor — que o mesmo é dizer: um sinal sacramental da Sua presença, de modo que à nossa Igreja Diocesana não faltassem os dons da graça necessários para que todos caminhemos para o Céu.”
Na parte final da homilia, o prelado dirigiu-se de modo mais pessoal aos presentes: “Cada um de nós tem certamente algo que recebeu de Deus por meio do Senhor D. Teodoro: desde a amizade à sabedoria; desde o batismo ao sacramento da Ordem; desde uma palavra de encorajamento até um gesto pastoral”. E concluiu: “Somos devedores ao Senhor D. Teodoro de tantos dons. O melhor modo de agradecer é permanecermos unidos na oração, junto do altar, pedindo ao Pai que o acolha no Seu Reino e que lhe perdoe as fragilidades próprias da condição humana”.
A celebração das exéquias terminou com a oração de encomendação, marcada por um silêncio profundo e carregado de emoção. Seguiu-se o cortejo fúnebre até ao cemitério de São Martinho, onde D. Teodoro foi sepultado no jazigo da Diocese do Funchal.
Ali ficará sepultado o tempo normal, sendo depois os seus restos mortais trasladados para a Sé, mais precisamente para a Capela de Santo António, onde também repousam os restos mortais de D. Aires de Ornelas e Vasconcelos, o madeirense que foi arcebispo e também bispo do Funchal.
Papa Leão XIV uniu-se à oração
No início da Missa Exequial foi lida uma mensagem, assinada pelo cardeal PietroParolin, secretário de Estado do Vaticano, em nome do Papa Leão XIV.
“O Santo Padre une-se à oração da inteira comunidade diocesana da Madeira, agradecendo o dom da sua vida e ministério e pedindo ao Pai do Céu que olhe para ele com misericórdia e o acolha na glória eterna”, dizia a nota.
O Papa Leão XIV lembrou que “ao longo da sua vida terrena, D. Teodoro foi um assíduo leitor e estudioso da palavra de Deus, nela encontrando luz e auxílio para o desempenho das missões a que foi chamado, em especial no Pontifício Colégio Português em Roma” e na Diocese do Funchal que” pastoreou por mais de um quarto de século, movido por singular amor aos madeirenses e à cultura dessa terra que o viu nascer”.
“Sobre o Senhor D. Nuno e todos aqueles que sentem esta partida, nomeadamente os familiares e quantos o apoiaram na última fase do seu percurso, o Papa Leão XIV invoca o conforto da esperança cristã ao conceder-lhes a bênção apostólica”, referia a mensagem.






























Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:
EXÉQUIAS DO SENHOR D. TEODORO
Sé, 26 de agosto de 2025
Leituras: Ap 21, 1-5a.6b-7 | Salmo 121 (122), 1-2.4-5.6-7.8-9 | Ef 3,3-9 | Jo 14,1-6
1. A celebração das exéquias de um cristão é sempre, antes de mais e acima de tudo, uma proclamação do mistério pascal de Cristo — quer dizer: da Sua vitória sobre a morte. É, por isso mesmo, a celebração da absoluta centralidade histórica e sobrenatural de Nosso Senhor Jesus Cristo que, a tudo quanto se aproxima de Si, faz participar da sua vida — vida eterna, única, vitoriosa sobre o pecado e a morte.
Sim, irmãos: diante da morte de um ser humano, de um cristão e de um bispo, nada mais temos a proclamar senão Jesus Cristo e a sua vitória sobre a morte.
Diante do que poderia parecer o sem-sentido da nossa existência (uma vida para a morte), nós cristãos, não podemos deixar de proclamar o único e verdadeiro sentido, não apenas da existência de cada um, mas da existência de todos e do mundo inteiro: Cristo, alfa e ómega, princípio e fim do universo.
Como afirma o Apóstolo: “Quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e este corpo mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita:A morte foi engolida na vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor 15,54-55).
A Iª Leitura falava-nos desse mundo novo, vindo do Céu, de junto de Deus, e que a vida sacramental nos permite já saborear. É para ele que queremos caminhar cada vez mais, com maior decisão, quais peregrinos da verdadeira Cidade Santa, a nova Jerusalém.
Ou, como ensinava o Senhor D. Teodoro, numa das suas suas homilias de Páscoa: “Eis a nova realidade: o cristão pertence já a Cristo ressuscitado. Tendo morrido para o pecado, já participa da condição do ressuscitado. Por isso, devemos procurar as coisas do alto. Não se trata de fugir ou abandonar o mundo, mas de pensar e agir de uma forma diferente, rejeitando a avareza, o vício, a violência, e aderindo às novas realidades de pessoas salvas, chamadas à santidade e comunhão com Deus” (4 de abril de 2004).
2. Mas hoje celebramos, de modo particular, a Páscoa de um bispo que foi Pastor desta nossa Igreja funchalense.
Santo Ambrósio, admirável bispo de Milão (e um dos arquitectos da cultura ocidental), teve a graça de falecer na noite de 3 para 4 de abril do ano 397, quer dizer: na noite de Sexta para Sábado Santo. Nesse ano, os cristãos de Milão celebraram a Páscoa ao redor do catafalco do seu bispo, ficando assim evidente para todos que a Páscoa do bispo é a Páscoa de Cristo.
Hoje não é Domingo de Páscoa. Contudo, hoje celebramos a Páscoa. E a Páscoa de um bispo que foi nosso Pastor. Celebramo-la à volta dos seus restos mortais, mas é a Páscoa de Cristo que celebramos — Cristo que nele vivia desde o momento do seu baptismo e que o constituiu pastor do seu povo.
Cada bispo — como qualquer outro ser humano — tem, obviamente, qualidades e defeitos. Não nos toca a nós fazer juízos humanos, ou opinar sobre o que significou para a nossa Igreja Diocesana o ministério episcopal do Senhor D. Teodoro. Deixamos isso não tanto para a história e para quem a há-de escrever, como (sobretudo) para o Senhor da História, juiz misericordioso, Pai de bondade — o único a conhecer os corações, as intenções íntimas, o todo da história, com todas as suas variáveis, e para lá do que possam ser as aparências. O único que, por ser Amor, pode julgar.
Mas queremos, isso sim, dar graças a Deus pelo facto de, no Senhor D. Teodoro, nos ter dado um Pastor — que o mesmo é dizer: um sinal sacramental da Sua presença, de modo que à nossa Igreja Diocesana não faltassem os dons da graça necessários para que todos caminhemos para o Céu.
“A mim, foi concedida esta graça de anunciar como boa nova aos gentios a insondável riqueza de Cristo”, dizia-nos o Apóstolo Paulo na IIª Leitura (Ef 3,8) — passagem que o Senhor D. Teodoro tomou como lema do seu ministério episcopal (Evangelizaredivitias Christi), vivido não apenas aqui na nossa Ilha, como também um pouco por todo o mundo, ao serviço das comunidades portuguesas na diáspora.
Foi precisamente Santo Ambrósio quem, num escrito dirigido aos recém-baptizados, advertia: “[Quando foste baptizado] viste o levita, o sacerdote, o sumo-sacerdote. Não penses no seu aspecto exterior, mas na graça do seu ministério. […] É o mensageiro que anuncia o Reino de Cristo e a vida eterna. Não deves apreciá-lo pela sua aparência, mas pelo seu ministério. Considera o que ele te deu, aprecia a sua função e reconhece a sua dignidade” (Sobre os Mistérios, 6).
Queremos por isso, e acima de tudo, agradecer ao Pai o ministério sacerdotal e episcopal do Senhor D. Teodoro, portador da graça da salvação, das insondáveis riquezas de Cristo, que ele quis sempre anunciar.
3. No entanto, cada um de nós que aqui se encontra tem, certamente, algo que, tendo origem em Deus, foi recebido por meio do Senhor D. Teodoro: desde a amizade à sabedoria; desde o baptismo ao sacramento da Ordem; e tantos outros dons.
E a nós, seres humanos, convém-nos ser agradecidos. Os dons de Deus não nos chegam directamente vindos do céu, ou por um passo de magia. Chegam-nos por meio da fragilidade humana — precisamente: a carne que o Verbo de Deus assumiu para se nos mostrar com toda a sua glória; a fragilidade que, também connosco, se torna portadora dos dons divinos.
Sim: somos devedores ao Senhor D. Teodoro de tantos e tantos dons. E o modo melhor de agradecer é permanecermos unidos na oração, à volta do altar. Como pedia Santa Mónica, cuja memória celebraremos amanhã, ao aproximar-se a hora da passagem para o Pai: “Enterrai este corpo em qualquer parte e não vos preocupeis com ele. Só vos peço que vos lembreis de mim junto do altar do Senhor, onde quer que estejais” (Confissões, IX,11).
Também nós, junto do altar do Senhor, pedimos ao Pai misericordioso que perdoe ao Senhor D. Teodoro as faltas que, por fragilidade, tiver cometido. E pedimos, também, que o acolha no seu Reino. Mas, ao mesmo tempo, agradecemos todos aqueles momentos em que este nosso bispo foi, para cada um, sinal tangível da presença de Deus.





















