D. Nuno Brás aos crismandos: “A fé dá-nos o olhar de Deus sobre a vida”

Crismas no Porto da Cruz | Foto: Duarte Gomes

Nos dias 9 e 10 de agosto, o bispo do Funchal, D. Nuno Brás, visitou três paróquias da diocese — Porto da Cruz (19), Sagrada Família (21) e Ribeira Brava (57) — para ministrar o Sacramento do Crisma a um total de 97 jovens e adultos. 

Foram celebrações intensas e participadas, marcadas pela alegria das comunidades e pelo apelo do prelado a viver a fé como um olhar renovado sobre a vida e o mundo.

D. Nuno Brás recorreu a uma imagem do seu quotidiano. Da janela do seu quarto, no Funchal, vê o Forte de São João Batista. Visto de perto, a construção parece imponente, erguida para proteger a cidade e impressionar qualquer inimigo. “Mas, quando subimos ao Terreiro da Luta e olhamos lá de cima, o Forte parece uma coisinha pequena, sem importância”, descreveu. A diferença de perspetiva serviu-lhe para introduzir a mensagem central: “Nós olhamos para os acontecimentos como se fossem montanhas intransponíveis, mas Deus vê a história inteira, do princípio ao fim”.

Nas suas homilias, o bispo diocesano explicou ainda aos crismandos que a lógica divina não é a mesma que a lógica humana. Nós vivemos limitados ao tempo e ao espaço que nos é dado, condicionados pelas emoções e pelas circunstâncias presentes. 

Deus, pelo contrário, contempla tudo com amplitude, abarcando passado, presente e futuro. É dessa visão que nasce a verdadeira fé. “A fé não é imaginação ou fantasia; é certeza e confiança no olhar de Deus sobre a nossa vida”, vincou o prelado, recordando as palavras da Carta aos Hebreus: “A fé é a garantia dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se veem”.

Segundo D. Nuno Brás, esta fé transforma radicalmente a forma como encaramos as dificuldades do dia a dia. “Quem tem fé sabe que Deus fará as contas finais — e por isso o amor vence o ódio, a vida vence a morte, a verdade vence a mentira”, afirmou. Por mais duras que sejam as provas, o cristão sabe que “o mal não é tudo” e que “Deus está a olhar por nós”.

Com simplicidade e humor, o prelado falou da tendência humana para dramatizar. Comparou-a à reação de um adolescente que vive a primeira desilusão amorosa e sente que “o mundo vai acabar” — mas que, pouco tempo depois, encontra novas razões para sorrir. “A fé diz-nos: não vai nada acabar. Deus está contigo e ajuda-te a superar, a viver”, afirmou, lembrando que o tempo e a perspetiva de Deus são diferentes das nossas medidas humanas.

O bispo diocesano destacou ainda que este olhar divino não se alcança apenas por esforço pessoal. É dom do Espírito Santo, que habita no crente e o transforma desde dentro. “O Espírito Santo é Deus connosco e em nós; é Ele que nos dá força e discernimento para viver com o olhar de Deus”, explicou. 

Dirigindo-se diretamente aos jovens que iam receber o Crisma, acrescentou: “Hoje, o Espírito Santo vos é dado para transformar a vossa forma de ver, da lógica humana para a lógica de Deus”.

Para D. Nuno Brás, viver segundo a lógica divina é libertar-se da visão limitada do “aqui e agora” e aprender a interpretar a realidade com esperança e confiança. “Crescer na fé é deixar a nossa lógica humana para abraçar a lógica de Deus”, resumiu. 

Essa transformação, acrescentou, implica conversão diária, escuta da Palavra, oração e disponibilidade para seguir a vontade de Deus, mesmo quando ela nos desconcerta ou não coincide com os nossos planos imediatos.

No final das celebrações, o Bispo convidou todos a um momento de silêncio, pedindo que se rezasse para receber este dom: “Peçamos ao Senhor que nos dê a sua lógica — que é a fé — para vivermos sempre com o seu olhar de amor e de misericórdia, mas também de exigência. Que Ele nos ajude a não olhar a vida apenas de baixo para cima, mas a partir do alto, como Ele nos vê”.

Com este apelo, o prelado procurou deixar gravada nos corações dos novos crismados a convicção de que a vida só ganha o seu verdadeiro sentido quando é iluminada pela fé e vivida em comunhão com Deus. Porque, como sublinhou, “Deus está no princípio e no fim de tudo, conduz a história com amor e justiça, e por isso vale a pena apostar Nele e viver com Ele todos os dias”.

Como é habitual nestas ocasiões, em cada paróquia os respetivos párocos, neste caso o Pe. Fábio Ferreira, o Pe. Nélio Mendonça (O.F.M.) e o Pe. Bernardino Trindade, agradeceram a todos quantos tornaram possíveis estas cerimónias, nomeadamente catequistas e pais e também ao bispo do Funchal pela sua disponibilidade para a elas presidir.