D. Nélio Pita celebrou 25 anos de sacerdócio: “A vida não depende dos bens, mas da qualidade das relações”

Foto: Duarte Gomes

No domingo, 3 de agosto de 2025, a Paróquia do Estreito de Câmara de Lobos, terra natal de D. Nélio Pereira Pita, acolheu uma celebração solene de festa e fé. Às 11h, realizou-se a Eucaristia em ação de graças pelos 25 anos de sacerdócio do agora bispo auxiliar de Braga. A igreja encheu-se de fiéis que quiseram saudar o novo bispo e homenagear o sacerdote que, durante mais de duas décadas, serviu com entrega e humildade.

“Estou profundamente agradecido a Deus por este caminho de 25 anos como padre, agora prolongado no ministério episcopal. Nunca imaginei ser chamado a este serviço, mas acolho-o com espírito de fé e disponibilidade”, afirmou D. Nélio, visivelmente emocionado no início da celebração.

O ambiente era de verdadeira festa. Crianças e adultos lançavam pétalas de flores desde a entrada do adro até à entrada da igreja, onde havia um tapete de flores, o coro interpretava cânticos litúrgicos. 

Concelebraram a missa diversos sacerdotes e bispos, entre os quais o bispo da Lituânia e o Bispo do Funchal, D. Nuno Brás, e vários padres da diocese e da Congregação da Missão. Estiveram ainda presentes representantes das principais autoridades civis do concelho.

Com uma palavra firme, atual e pastoral, o prelado fez, na sua homilia, um apelo à conversão interior, à simplicidade de vida e à fidelidade à missão cristã, especialmente perante a tentação da ganância e da vaidade.

“As viagens proporcionam quase sempre experiências de aprendizagem que deixam marcas ao longo da vida. Algumas dessas viagens podem ter um impacto transformador”, começou por refletir, traçando um paralelo com os milhares de jovens que peregrinaram a Roma para o Jubileu com o Papa Leão XIV.

Inspirando-se no Evangelho de São Lucas, D. Nélio recordou a advertência de Jesus:“Guardai-vos de toda a ganância. A vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens.”

Segundo o bispo, o Mestre da Vida não condena o uso dos bens materiais, mas alerta para “a atitude de avareza que dá à pessoa uma falsa segurança, uma ideia errada de felicidade, tornando-a cruel ou indiferente às legítimas súplicas de um irmão”.

D. Nélio ironizou a linguagem possessiva do ganancioso: “O meu celeiro, o meu trigo, o meu campo, a minha alma… meu, meu, meu. É como uma criança egoísta, incapaz de partilhar.” E questionou cada um dos presentes: “Eu quero ter, ter, ter… ou procuro ser mais honesto, mais autêntico, mais verdadeiro?”

O prelado criticou a cultura atual que idolatra o sucesso económico, alertando: “Vivemos numa sociedade que sobrevaloriza quem tem muito, mesmo que tenha recorrido à corrupção. E quem não tem nada, como os pobres ou os idosos, é visto como peso ou objeto sem valor. Isso é contrário à proposta de Jesus.”

Em tom pastoral, recordou que a ganância é um pecado transversal, que atinge ricos e pobres, leigos e clérigos:“O Papa Francisco dizia: a ganância é uma doença do coração, não da carteira. E aos homens da Igreja costumava repetir: o diabo entra pelos bolsos.”

Com humildade e realismo, D. Nélio reconheceu: “Como bispo, sei que não estou isento à tentação das riquezas e da vaidade. Sei que poderei ser tentado a procurar aplausos, a agradar à maioria só para ser aceite. Mas ser discípulo de Jesus é permanecer fiel, mesmo sendo criticado.”

E reforçou o compromisso assumido há 25 anos: “Foi esse caminho com o Mestre e convosco que assumi na Sé do Funchal, e é esse caminho que quero continuar a fazer.”

A Palavra de Deus, segundo o bispo, é o antídoto contra a doença da ganância e da vaidade: “Ela cura as manias de imortalidade. Perguntemo-nos: por que razão sou padre? Catequista? Presidente de junta? Por vaidade? Por ganância? Se for por isso, pobre de mim.”

Num registo catequético e acessível, dirigiu-se aos jovens e a toda a assembleia: “A vida plena não depende da conta bancária, mas da qualidade das relações com Deus e com os outros.”

E recordou a oração de Santa Teresa de Ávila: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda. Quem tem Deus, nada lhe falta.”

Concluiu com uma referência histórica e simbólica: “Os antigos romanos levavam um escravo ao lado do general triunfante, que lhe sussurrava ao ouvido: lembra-te que és homem, lembra-te que és mortal.”

E associou à primeira leitura da liturgia: “Vaidade das vaidades. O absurdo dos absurdos. Uma vida centrada apenas na aquisição de bens é um erro que exclui Deus e os irmãos.”

Por fim, deixou uma mensagem mariana e ecológica:“Que Nossa Senhora da Graça nos ajude a superar uma visão materialista da existência, motivada por uma ganância desmedida, que mata o outro e esgota os recursos naturais. Que Ela seja o nosso modelo de discípulo.”

No final da celebração, em que não faltou a Banda Recreio Camponês onde o novo bispo foi aluno e depois elemento, o Pe. José Luís, pároco do Estreito de Câmara de Lobos deu os parabéns a D. Nélio pela sua ordenação episcopal. Fê-lo em seu nome pessoal e da comunidade dando conta igualmente da alegria, patente no rosto dos presentes, com que todos receberam a sua nomeação.

Houve ainda lugar para a apresentação de cumprimentos ao novo bispo por parte da comunidade e um convívio no salão paroquial.