“Se voltasse atrás, fazia tudo de novo.” É com esta convicção serena e emocionada que o cónego Toni Sousa resume um percurso de 25 anos– que celebra no próximo dia 29 de julho–de entrega, desafios e profundas transformações. Uma vida dedicada à Igreja, à pastoral, à escuta e ao coração de todos os que se cruzaram consigo. Nesta entrevista ao Jornal da Madeira, revisita momentos marcantes da sua vocação, do seu serviço, das suas angústias, das suas paixões e dos seus amores: a fé, a comunidade, a juventude e a esperança.
Com 50 anos de vida, o Cónego Toni Sousa, nascido na cidade do Cabo e um dos quatro filhos de uma família a quem nada faltava, continua a inspirar pela autenticidade, pela entrega e pela alegria com que vive a sua missão. Entre o altar e o ginásio segue firme, com a mesma paixão de sempre: servir. A sua história mostra-nos que é possível ser moderno sem perder as raízes, estar no mundo sem se afastar do essencial. Um testemunho de fé viva e verdadeira.
Como descreve estes 25 anos de vida sacerdotal?
São 25 anos muito belos que me fizeram a pessoa que eu sou hoje, como padre, como ser humano que sou, como homem. 25 anos que começaram com muitos sonhos, muitas perspetivas, em que foram realizadas muitas etapas, onde encontrei muitas alegrias, mas também onde encontrei muitas dificuldades, não só na minha vida, mas também comecei a conhecer a realidade de outras vidas que eu desconhecia e comecei a ver que nem tudo são rosas e que só com a ajuda uns dos outros é que podemos avançar. A perceber que é bom estar a viver momentos de alegria com algumas pessoas, mas que depois há que viver também os momentos de dor. Não é fácil e fez-me também superar, ver a vida de uma outra forma e perceber que há muita gente que precisa de mim e eu também preciso deles e como padre que sou.
“Mas hoje, 25 anos depois, se me perguntasse se eu faria a mesma coisa se pudesse voltar para trás, responderia que voltaria a fazer o mesmo”
Quais foram os maiores desafios desta caminhada?
Fui enviado para o meio dos lobos… não foi fácil. Vivi num contexto pastoral duro, que me obrigou a crescer muito rapidamente. Mas hoje agradeço. Agradeço o percurso que foi feito, com o auxílio de grandes amigos e de padres que me ajudaram também a perceber um bocadinho melhor tudo isto, a ultrapassar algumas dificuldades e alguns desânimos. Mas hoje, 25 anos depois, se me perguntasse se eu faria a mesma coisa se pudesse voltar para trás, responderia que voltaria a fazer o mesmo. Eu amo imenso a Igreja, acredito nisto e às vezes quero meter isto na cabeça ou no coração das pessoas quero dizer acredite porque isto não é brincadeira, porque eu era uma pessoa que questionava muito todas estas coisas e hoje acredito e sei perfeitamente aquilo que estou a anunciar e acredito que aquilo que Jesus Cristo anunciou tem de continuar a ser levado a mais pessoas. Eu como missionário, juntamente com todos os cristãos, temos de continuar aquela missão de Jesus, que é anunciar de facto o Reino de Deus, este Reino que é de amor, mas isso está cada vez mais difícil nos tempos de hoje.
Mas houve tantas mudanças, surgiram novas formas de chegar às pessoas…
É verdade. As coisas evoluíram muito. Foi a internet que entrou, toda esta tecnologia que entrou na vida também da igreja e das pessoas, mas depois há todas estas questões da redução das vocações sacerdotais e religiosas, o afastamento de muitos jovens e de famílias da igreja… não se percebe. Há pessoas que só procuram a igreja quando precisam…E nós, os padres temos que aproveitar esses momentos, de facto, para a evangelização, para chegar ao coração. Para fazê-los perceber que ser cristão é ir à missa, sim, a missa é central, mas há tantas outras coisas que fazem de nós cristãos. Agora eu digo sempre, atenção, porque ser uma boa pessoa é uma coisa, ser um bom cristão é outra. E é bom quando as duas estão juntas e se caminha de mãos dadas com as duas.
“A Igreja tem de cuidar das famílias e das famílias de todo o tipo. Hoje em dia, há vários tipos de família…”
E a igreja já evoluiu muito, apesar de tudo o que se possa dizer e do que ainda haja para mudar…
A igreja tem de estar preparada para tudo isto, para a forma de responder a estes novos desafios. Mas responder com fé, com clareza, não vale a pena estarmos sempre com rodeios e rodeios, é com clareza. E as pessoas depois têm de entender que há coisas que não podem mudar na igreja, mas outras sim. E já tantas mudaram. Algumas pessoas dizem que demora muito tempo… Eu acho que a igreja evoluiu em tantas coisas, em 25 anos já vi tanta coisa mudar. Só a atitude do Papa Francisco, por causa das questões dos abusos sexuais, dos abusos das crianças, foi um passo enorme para procurar no próprio seio aquilo que é o pecado da igreja, porque a igreja é feita de homens e mulheres que são humanos e que erram, e então descobrir tudo isto para ajudar tanto as vítimas que precisam de ajuda, como aqueles que cometeram os atos, e evitar que isso volte a acontecer, só isso foi um passo muito grande na igreja. Depois a preocupação cada vez maior com o mundo, com a natureza, que estamos cada vez mais a estragar, ela vai evoluindo e a gente vai estragando cada vez mais, não pensando no cuidado que temos de ter com a nossa casa; o olhar, como dizia o Papa Francisco para as periferias, para as pessoas que têm necessidade. Por outro lado, nós vivemos um mundo cada vez mais individualista, consumista, com certeza, andamos sempre preocupados connosco e é pena que isso aconteça…É preciso começar a pensar que sim, que há muita instituição para ajudar, mas ainda há muito a fazer e isso passa por cada um de nós. Eu costumo dizer, estamos a tirar Deus da vida das crianças e dos jovens, porque agora, não tendo Deus, não tendo a fé em nós, começam a acontecer todas estas coisas, situações de violência, mata-se sem qualquer problema, são os conflitos dentro da família, são os pais que vão dizer aos filhos olha se ele bateu, bate-lhe também, são os pais que partem logo para a violência porque não se pode chamar a atenção dos filhos. Tudo isto também resulta em jovens ansiosos, jovens que debaixo de uma dificuldade não sabem o que fazer, muitos respondem sempre com violência e temos alguns a se suicidarem. Porquê? Porque os pais já não estão, ou porque os pais sempre fizeram de tudo e eles agora não têm a capacidade de ultrapassar dificuldades e matam-se, e isto é grave.

Há que repensar a forma como olha para as famílias…
A Igreja tem de cuidar das famílias e das famílias de todo o tipo. Hoje em dia, há vários tipos de família, claro, a família tradicional, o pai, a mãe, os filhos, a família e Nazaré, que é essa que a Igreja vai sempre ter em vista como modelo.
Mas depois temos tantos outros tipos de famílias. Tu tens a mãe só com os filhos, ou ao pai só com os filhos encontramos dois pais ou duas mães, pronto, quer dizer, toda esta modificação tem de merecer atenção por parte da Igreja. Nisso e o Papa Francisco, e eu acredito que o Leão XIV vai continuar, tinha razão ao dizer que é preciso acolher a todos. Mesmo que haja situações que não possam acontecer dentro da Igreja, a Igreja não deve afastar essas pessoas, mas acolhê-las. É como o Papa dizia, é a Igreja de todos, todos, todos. E esse acolher deve ser feito com o coração aberto, a saber escutar, porque eu acho que cada vez mais se critica às vezes a Igreja sem conhecer aquilo que a Igreja defende, e o porquê que a Igreja está a defender, porque a Igreja não vai defender as coisas porque lhe deu na cabeça, ou por maldade, ou por castrar qualquer coisa, não, a Igreja faz pensando no bem, primeiro na doutrina, partindo da Sagrada Escritura, com certeza, aquilo que Jesus nos disse, e pensando no bem da comunidade, no bem das famílias.
“Se um jovem não se vê refletido num padre feliz e realizado, dificilmente vai sentir-se chamado”.
Sente então que a Igreja até tem sabido acompanhar os tempos?
Sim e não, como já se disse anteriormente. A doutrina é a mesma, mas temos de adaptar a forma de evangelizar. As redes sociais, os novos meios, são instrumentos poderosíssimos. A Igreja está a abrir-se cada vez mais, com o Papa Francisco à frente deste movimento e espero que o Papa Leão XIV a segui-lo. Temos de ser ousados, sair das quatro paredes da igreja e ir ao encontro das pessoas. A linguagem muda, os meios mudam, mas a mensagem continua a mesma. É preciso coragem para mudar sem perder a identidade.
Qual é a sua opinião sobre os padres poderem casar?
Sou a favor da reflexão. Conheci homens casados que dariam excelentes padres. Para mim, a vida celibatária faz sentido. Mas não se pode excluir outras possibilidades. A Igreja deve estar aberta a discernir esse caminho, mas sem imposições. Importa ter presente que a vocação é um chamamento único e deve ser vivido em liberdade e verdade. Não é o estado civil que define o coração pastoral de uma pessoa. O importante é garantir que a entrega e o compromisso se mantêm.
Como olha para o futuro da Igreja e das vocações?
Ao contrário do que se diz não acho que os padres casarem vá aumentar as vocações. Precisamos é de trabalhar bem a pastoral das vocações. Precisamos é de estar com os jovens, de os ouvir, de ir ao encontro. Esperar que venham ter connosco não resulta. Devemos mostrar-lhes que a vida sacerdotal é bela, mas precisa de testemunhos credíveis. É urgente aproximarmo-nos mais, dar tempo, estar disponíveis. Se um jovem não se vê refletido num padre feliz e realizado, dificilmente vai sentir-se chamado. E também é preciso desafiar. Como eu, há muitos que só precisam de um empurrão para perceberem o seu caminho.
Voltando ao seu percurso, que já nos estamos a desviar dele, o que mais o marcou?
Estar com as pessoas nos seus momentos de alegria e dor. Foi também no acompanhamento de presos, durante 16 anos – tantos quantos vou também celebrar aqui na paróquia –que percebi a força do perdão e da dignidade humana. Ali, Deus revela-se de forma muito especial. Num lugar negativo Deus é presença positiva. A presença da fé naquele espaço fechado é intensa. Ali não se julga, acolhe-se. E muitas vezes, é esse acolhimento que transforma. A missão foi, sem dúvida, das mais desafiantes e ao mesmo tempo das mais gratificantes da minha vida. Ali compreendi que o Evangelho é para todos, mesmo para quem errou. Foi também uma escola de humanidade.
“O ginásio tornou-se também uma extensão da minha pastoral. É um espaço onde encontro pessoas afastadas da fé e onde, com naturalidade, a conversa vai dar a Deus. Ali percebi que o testemunho pode surgir nos lugares mais inesperados”.
Como surgiu a vocação? Foi sempre um caminho claro para si?
Desde pequeno, sentia uma atração quando via o padre no altar. Algo naquela figura me cativava. Mas os meus pais eram contra. Eram católicos, iam à missa, mas achavam que com as boas notas que eu tinha devia fazer outra coisa. Aos 12 anos, ganhei coragem, contei o que me ia na alma ao Pe. Gouveia, Vicentino, e entrei para o seminário. Eles pensavam que eu ia desistir na primeira semana. Mas fiquei. E nunca me arrependi.
Foi um caminho fácil?
Foi um caminho de persistência, de luta contra dúvidas e expectativas. Mas também de confirmação interior. Nunca me senti tão certo de uma escolha como dessa. E hoje, olhando para trás, sei que era este o meu caminho. E os meus pais acabaram muito orgulhosos com a minha ordenação a 29 de julho de 2000. Eu vinha de um certo conforto que eles me podiam proporcionar e eles preocupavam-se muito comigo, afinal no seminário eram nove num quarto. Preocupava-se o pai e a mãe…O pai agora já não está, mas a mãe preocupava-se muito se estava tudo bem, somos muito unidos como família, e nos ajudamos muito. De resto a minha mãe é a pessoa que me acalma. É ainda hoje o meu porto seguro. E há um padre que para mim foi fundamental em toda esta minha caminhada, que tem sido um grande amigo, tem sido um pai, que é o cónego Manuel Martins. Devo muito daquilo que sou como padre a ele, embora sejamos diferentes um bocadinho, na forma de pensar, mas ainda hoje, muitas coisas que eu escrevo, eu envio para ele, para ele ver, as homilias, e ele envia para mim. Ele foi sempre uma companhia amiga dentro desta pastoral de igreja. Aliás, ele é da família. É um pai que sempre esteve ali para me ajudar. Muito brigamos os dois, porque algumas coisas não coincidem, mas é normal, eu também já sou muito mais novo do que ele. Também devo muito a outros padres que foram passando pela minha vida e às irmãs vitorianas. Na minha vida de seminário aqui na Madeira elas tiveram um papel fundamental, porque elas no seminário ajudaram-me imenso, eram umas mães que eu tinha no seminário, e eu agradeço muito a elas que dedicaram o seu serviço ao seminário e aos seminaristas. Muitas estão esquecidas, muitas já partiram, mas deram tudo, e eu não deixo de rezar por elas.

E conciliar a vocação com a juventude foi fácil?
Nem sempre. Houve alturas em que arrumei as malas para me vir embora do seminário. Mas havia sempre algo mais forte que me fazia ficar. A fé e o apoio dos padres foram decisivos. Durante a juventude, as tentações e os questionamentos aparecem, mas o acompanhamento certo ajuda-nos a manter o foco. Foi essencial ter ao meu lado pessoas que me escutaram e acreditaram em mim.
Sabemos que tem uma paixão pouco comum para um sacerdote: o ginásio. Como começou isso?
Foi por aconselhamento médico, para combater o stress. Entrei no ginásio com reservas, mas encontrei ali um espaço de bem-estar e de evangelização. Fiz formação de Body Combat e acabei a dar aulas. Durante anos, dei aulas em três ginásios. Hoje, mantenho uma aula por semana. O ginásio tornou-se também uma extensão da minha pastoral. É um espaço onde encontro pessoas afastadas da fé e onde, com naturalidade, a conversa vai dar a Deus. Ali percebi que o testemunho pode surgir nos lugares mais inesperados.
“Continuo a dizer como na minha pagela: ‘Eis-me aqui, Senhor. Envia-me.'”
E o que dizem as pessoas quando descobrem que o “instrutor” é padre?
Ficam surpreendidas. Primeiro não acreditaram. Depois estava ali o Pe. das Missas do Parto, era assim que as pessoas me conheciam. Mas na verdade esse espaço torna-se um ponto de partida para conversas profundas. Muitos nunca iam à missa, mas através do ginásio criaram uma relação com a Igreja. Já tive quem me dissesse que voltou a rezar por causa de um desabafo comigo. São esses sinais que mostram que Deus age em todos os contextos. E é bonito ver como a fé pode florescer mesmo fora dos espaços habituais. Por isso é que muita gente diz que os padres se deviam dedicar a uma coisa de que gostassem, para se distraírem.
Para terminar como começamos, que balanço faz destes 25 anos?
Um balanço profundamente positivo. Agradeço a Deus por tudo. Mesmo nos momentos mais duros, senti que Ele me guiava. Continuo a dizer como na minha pagela: “Eis-me aqui, Senhor. Envia-me.” Foram anos que me ensinaram o valor da entrega e da escuta. Hoje, com mais maturidade, olho para trás com orgulho e para o futuro com esperança. Depois de capelão em Paris, muito com a ajuda do Cónego Martins e dos meus pais, de pároco de São Gonçalo, com o seu bairro onde ainda hoje tenho muitos amigos, de formador no Seminário de que depois fui reitor, hoje pároco do Sagrado Coração de Jesus, do Bom Sucesso e Choupana, capelão do EPF e mais recentemente capelão dos bombeiros a missão continua. E vai continuar. Na verdade, enquanto Deus quiser, estarei aqui, sempre disponível.





















