Bispo do Funchal apresenta Programa Pastoral 2025/2026 centrado na formação dos leigos

Foto: Duarte Gomes

A Diocese do Funchal apresentou este sábado, dia 19 de julho, no Seminário do Funchal, o seu Programa Pastoral para 2025/2026, sob o mote “Formar Cristãos Leigos para a Missão na Igreja e no Mundo”. 

A cerimónia decorreu com a presença de D. Nuno Brás, bispo do Funchal, que sublinhou a importância deste novo ciclo como um passo fundamental para o crescimento espiritual e comunitário da diocese.

“Trata-se de fazer a apresentação do programa de forma a que as comunidades possam ter acesso à versão definitiva, já a partir de agora, para depois poderem também programar definitivamente as suas vidas”, começou por explicar o prelado madeirense.

O documento, debatido desde o mês de maio em várias instâncias da diocese, procura responder a um desafio pastoral cada vez mais urgente: a preparação dos leigos para viverem a fé de forma ativa e comprometida no seio da Igreja e da sociedade.

Não moldar, mas formar

Ao desenvolver o tema da formação cristã, D. Nuno Brás recorreu a uma metáfora: a do vidro que é soprado pelo artesão.

“Formar cristãos não é enfiá-los numa forma, como quem molda uma peça e a fecha num molde. É, antes, dar forma. Como o vidro quente que é soprado pelo artífice e ganha forma de dentro para fora, também o cristão vai adquirindo a forma de Cristo a partir de dentro, pelo Espírito”.

Esta ideia de formação como caminho interior acompanha todo o programa pastoral, que pretende levar os fiéis a confirmar a própria vida com a vida de Jesus Cristo.

“O que é que Jesus Cristo diria se estivesse no meu lugar? O que é que Ele faria, como decidiria?”, interroga o bispo. Estas perguntas são a chave para tomar decisões com fé e discernimento.

Superar a superficialidade da fé

D. Nuno Brás alertou ainda para uma prática cristã que se pode tornar meramente formal e sem profundidade, reduzida ao cumprimento de obrigações religiosas.

“Cumprir as regras, ir à missa ao domingo, não pecar, não roubar… está tudo certo. Mas é pouco. Precisamos de ir mais longe. Precisamos de viver a fé com autenticidade, como quem reconhece que Deus está vivo e presente no dia a dia”, vincou.

O bispo do Funchal lamentou que muitos crentes vivam “como se Deus não existisse”, ou como se a fé fosse um ritual exterior e não uma forma de ver, pensar e decidir.

“A fé cristã é um olhar: ver com os olhos de Deus. O olhar de Deus é o único que coincide plenamente com o real, porque não está desfigurado pelo pecado. E se ganharmos esse olhar, veremos a realidade como ela é — com amor, justiça e verdade”, alertou.

Ainda em contexto do Jubileu

O ano pastoral agora apresentado, e que arranca oficialmente em setembro, insere-se ainda no contexto do Jubileu 2025, que celebra os 2025 anos do nascimento de Jesus. Este ambiente jubilar prolonga-se até ao dia 28 de dezembro de 2025, data definida pelo Papa Francisco para o encerramento oficial.

Inspirando-se no capítulo 21 do Evangelho segundo São João, D. Nuno Brás evocou o episódio da Pesca Milagrosa, sublinhando a atitude do “discípulo amado” que reconhece Jesus ressuscitado à beira-mar.

“O olhar do discípulo que diz ‘É o Senhor!’ é o olhar da fé. Os outros apenas viam um homem na margem. Mas João viu mais. Também nós precisamos deste olhar: de reconhecer o Senhor na vida, nos acontecimentos, nas pessoas ao nosso lado.”

A importância da escuta, da resposta e da missão

O programa pastoral identifica quatro grandes eixos de formação conforme enumerou o prelado: escutar, responder, caminhar em Igreja e anunciar.

  1. Escutar: escutar Deus, através da Sagrada Escritura, da liturgia, dos irmãos. A fé começa sempre pela escuta, salientou o bispo.
  2. Responder: aderir pessoalmente à fé da Igreja, vivida na comunidade e confirmada pelos pastores. “A fé que vivemos deve ser a fé dos Apóstolos.”
  3. Caminhar juntos: a vida cristã é “uma peregrinação com Cristo e com a Igreja”, tal como os discípulos de Emaús.
  4. Anunciar: o cristão cresce na fé anunciando, não apenas recebendo. “Somos chamados a testemunhar, e é esse testemunho que nos forma e fortalece.”

De consumidores a protagonistas

Um dos focos mais insistentes do programa é a valorização da presença dos leigos nas comunidades.

“Não pode ser o senhor padre a decidir tudo e os outros apenas a obedecer. Todos devem ser escutados e corresponsáveis na vida da comunidade”, defendeu D. Nuno Brás.

Para isso, o programa incentiva a criação e dinamização dos Conselhos Pastorais e Económicos, instrumentos fundamentais para a governação participada das paróquias. Muitos deles, recorda o bispo, são obrigatórios desde 1992, mas continuam por implementar.

“Cada cristão é um membro ativo da comunidade. O que posso eu dar à minha paróquia? Que contributo único trago à Igreja? Ninguém é indispensável — mas todos somos insubstituíveis.”

Ações concretas previstas

O plano pastoral, adiantou D. Nuno Brás, prevê igualmente uma série de ações a desenvolver nas paróquias e a nível diocesano, incluindo:

  • Criação de grupos de leitura e meditação bíblica
  • Retoma da Semana Bíblica
  • Promoção de uma Escola da Palavra
  • Ações de formação para catequistas, leitores, ministros da comunhão, membros de confrarias
  • Encontros de oração e espiritualidade laical
  • Formação de leigos em vista ao Diaconado Permanente
  • Revisão de estatutos de confrarias
  • Promoção da Escola Teológica da Diocese

A preocupação com a integração dos jovens crismados e a dinamização dos movimentos existentes também mereceu destaque.

“Não podemos deixar os jovens à margem depois do Crisma. Precisamos de os integrar na vida ativa da comunidade”, apontou o bispo.

Leigos no mundo, mas não fora da Igreja

Por fim, D. Nuno Brás lembrou que a missão dos leigos não se limita ao interior da Igreja, mas estende-se à presença ativa na sociedade — na política, no trabalho, na cultura e na economia.

“O mundo precisa de cristãos formados, com fé adulta, capazes de transformar as estruturas sociais com justiça e fraternidade. Gente santa torna os outros mais santos, e santifica também a sociedade.”

Com este programa, a Diocese do Funchal assume o compromisso de reforçar a sua dimensão evangelizadora e participativa, apoiando-se na riqueza das comunidades e na generosidade dos seus membros.

“Não vai ficar tudo feito”, concluiu D. Nuno Brás, “mas será mais um passo para nos conformarmos com Cristo e darmos a essa forma tudo quanto nos envolve”, concluiu.

Depois desta apresentação os participantes foram convidados a fazer uma análise SWOT, isto é, a identificar Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças, aplicada ao Programa Pastoral 2025/2026 da Diocese do Funchal, com base na intervenção de D. Nuno Brás e no conteúdo do plano.