Foi convidado para orientar mais um retiro do clero na Diocese do Funchal, convite que aceitou “com boa vontade”. Mas foi mais além. Num momento de profunda reflexão sobre a sociedade contemporânea, a Igreja, e o papel do ser humano face aos grandes desafios, D. Manuel Clemente oferece-nos uma conversa plena de humanidade, lucidez e espírito evangélico. Com simplicidade e profundidade, falou ao Jornal da Madeira sobre a sua experiência a presidir retiros, a escolha de temas espirituais fundamentais, os desafios éticos da vida e da morte, o drama das guerras, a pobreza e o futuro das sociedades.
Numa sociedade com tantos desafios, D. Manuel Clemente lembra-nos que é no coração humano que tudo se decide. Que cada gesto de cuidado, cada palavra de esperança e cada ato de solidariedade são sinais vivos de uma humanidade renovada. E que o papel da Igreja é continuar a ser farol, guia e voz ativa num mundo sedento de sentido.
Como acolheu o convite da Diocese do Funchal para presidir ao recente retiro do Clero?
Não foi propriamente uma novidade. Já venho à Madeira desde o final dos anos 60 e já tive oportunidade de orientar outro retiro aqui há mais ou menos de 20 anos. Até já aqui conhecia o sítio, mais ou menos fresquinho e aceitei o convite de boa-vontade. Também conheço muito clero, todo aquele que passou pelo Seminário dos Olivais e depois as pessoas daqui fui conhecendo cá ou lá, de maneira que me sinto em casa. Quando passei a emérito, há dois anos, os pedidos para orientar este e outro tipo de iniciativas começaram a suceder-se a ponto de eu dizer que estou emérito, mas não estou reformado.É outra forma de eu exercer o meu ministério que me agrada bastante.
“Recordo o caso dos jovens que, durante a pandemia, se ofereceram para cuidar de idosos quando os funcionários adoeceram. Prepararam-se, equiparam-se, serviram. E ficaram felizes. O bem faz bem”.
Qual foi o tema escolhido para este retiro, se é que houve um em específico?
Ora bem, regressei a um tema que considero essencial: as parábolas da misericórdia, do capítulo 15 do Evangelho de São Lucas. A ovelha perdida, a dracma perdida e sobretudo a parábola do filho pródigo, ou melhor, da bondade do pai. Jesus não quer falar do filho, mas sim da bondade de Deus, da bondade do Pai. Este é o eixo da nossa relação com Deus: o modo como Ele nos acolhe e a forma como respondemos a esse amor.
“O Papa João XXIII já o dizia: se continuarmos a investir mais em armas do que no desenvolvimento humano, preparamo-nos para um desastre do qual ninguém sairá. Hiroshima e Nagasaki mostram-nos isso”.
Estas parábolas têm impacto ainda hoje?
Sim, profundamente. As parábolas têm a virtude de deixar em aberto a resposta de quem as escuta. Por exemplo, não sabemos se Jonas respondeu a Deus, nem se o irmão mais velho entrou na festa. A escolha fica connosco. E isso remete para a nossa consciência: estamos do lado de Deus, que quer recuperar todos, ou do lado da indiferença e do julgamento?
A pedagogia de Jesus tem algo a ensinar ainda hoje?
Sem dúvida. Jesus falava de forma concreta, com histórias reais ou plausíveis. Não recorria a conceitos abstratos. Falava de pais e filhos, de samaritanos que ajudam, de gente comum. É o céu na terra. Esta pedagogia estimula a ação, a empatia, o cuidado com o outro.
Mas nem sempre nos preocupamos com o outro como devíamos. Essa preocupação devia existir desde o início até ao fim da vida e o que vemos são, por exemplo, os números do aborto a subir e a Eutanásia a querer ganhar terreno…
Hoje temos uma compreensão científica clara do desenvolvimento da vida humana desde a sua concepção. Vemos famílias com ecografias em casa: “Este é o Zézinho que vai nascer.” Já é uma pessoa. A atitude certa é apoiar a vida em todas as suas fases. Quando há gravidezes inesperadas ou fruto de violência, não devemos somar problema a outro problema. Devemos sim apoiar a mulher, estar com ela, oferecer-lhe caminhos e apoios reais. O mesmo se aplica aos idosos: muitos sentem-se um fardo. Mas também há instituições que promovem uma relação humanizada, com a família presente. Isso muda tudo.
“Há recursos para resolver a fome e as necessidades humanas. Por que não se resolve?”
Outro tema de que não podemos fugir é o da guerra…
A guerra é hoje um risco global. O potencial destrutivo é enorme, e o medo é o que evita a catástrofe. Mas não pode ser o medo a garantir a paz. O Papa João XXIII já o dizia: se continuarmos a investir mais em armas do que no desenvolvimento humano, preparamo-nos para um desastre do qual ninguém sairá. Hiroshima e Nagasaki mostram-nos isso. E mesmo assim, os arsenais continuam a crescer. A paz exige investimento em desenvolvimento humano.
E a pobreza, como entra em todo este panorama?
A pobreza é um problema grave e crescente. Tanto a nível nacional como global. Há recursos para resolver a fome e as necessidades humanas. Por que não se resolve? As migrações mostram isso: as pessoas fogem da falta de condições básicas. O Papa Paulo VI dizia: “O desenvolvimento é o novo nome da paz”. E esse desenvolvimento é integral: educação, saúde, condições dignas de vida.
Como a Igreja pode intervir mais?
A Igreja deve continuar a alertar e a sensibilizar consciências. Todos os Papas recentes têm feito isso com coragem. Bento XVI, João Paulo II, Francisco e agora Leão XIV. Mas o Papa Francisco foi exemplar na forma como abordava os novos desafios, como a ecologia, a pobreza e a exclusão. E mesmo a nível local, as comunidades e instituições devem promover iniciativas concretas. Recordo o caso dos jovens que, durante a pandemia, se ofereceram para cuidar de idosos quando os funcionários adoeceram. Prepararam-se, equiparam-se, serviram. E ficaram felizes. O bem faz bem.


























