D. Nuno Brás apelou à sabedoria e à construção da paz no Dia da Região

Foto: Duarte Gomes

No âmbito das comemorações do Dia da Região e das Comunidades Madeirenses que se assinalou esta terça-feira, dia 1 de julho, o bispo do Funchal, D. Nuno Brás, deixou uma mensagem marcada pela gratidão, pelo reconhecimento da identidade madeirense e por um forte apelo à sabedoria como alicerce da vivência social.

“Hoje damos graças a Deus pelo que somos: por esta Ilha que nos moldou, pela história que herdámos, pelos caminhos que percorremos, com vitórias e derrotas”, afirmou o prelado, sublinhando que “a comunidade em que vivemos nos permite ser muito mais do que seríamos isolados”.

D. Nuno Brás destacou o orgulho de ser madeirense, mas alertou os fiéis e entidades presentes na Sé do Funchal, para os desafios da atualidade: “Como fez Salomão, mais do que riquezas ou vitórias sobre os inimigos, pedimos a sabedoria. Ela é essencial para ver mais longe e mais fundo, para compreender os outros, mesmo os que nos são adversos, e para construir uma sociedade mais justa”.

Segundo o bispo diocesano, a sabedoria cristã “faz esquecer as palavras que ferem, e guarda apenas aquilo que edifica”, defendendo uma visão que ultrapasse as aparências e os limites humanos e materiais.

Na sua homilia, o prelado apelou à sabedoria especialmente no contexto atual, marcado por tensões internacionais e desunião social. “Num mundo, que a passos largos, se encaminha para a guerra, pedir a sabedoria é pedir para os madeirenses a capacidade de serem sempre construtores de paz”. Enum mundo de egoísmos, precisamos da alegria de viver e servir em comunidade”, afirmou.

Também apontou que a sociedade madeirense deve resistir às tendências de divisão: “É fundamental cultivar a capacidade de colaboração entre todos, cada um segundo as suas capacidades, para construirmos juntos uma Madeira mais fraterna”.

Referindo-se às recentes palavras do Papa Leão XIV durante um encontro com líderes de 68 países, o bispo do Funchal destacou três prioridades para a ação política: a defesa do bem comum, a centralidade da fé e da lei natural, e a valorização da vida humana face aos desafios da era digital.

“O Papa recordou que a política deve proteger os mais frágeis e garantir uma justa distribuição de recursos”, citou D. Nuno, acrescentando que “a fé e a lei natural são fontes de valores que constroem a sociedade e ajudam a ultrapassar divisões”.

Sobre a revolução digital, deixou um alerta: “A vida humana vale mais que um algoritmo. As nossas relações sociais precisam de espaços humanos reais, não apenas dos circuitos frios de uma máquina”.

O prelado concluiu apelando à abertura espiritual: “Oxalá todos tenhamos disponibilidade para acolher os dons e as moções do Espírito de Deus, que continuamente nos oferece luz para edificarmos, com sabedoria, o nosso viver madeirense”.

A mensagem do bispo inseriu-se nas celebrações que não apenas recordam a autonomia administrativa da Região, mas também procuram reafirmar os valores que moldam a identidade insular e que compreenderam outras iniciativas para além da Eucaristia na Sé.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:

DIA DA REGIÃO

Sé, 1 de Julho de 2025

Leituras: 1Re 3,11-14 | Sl 126 (127) | Ef 4,30-5,2 | Mt 22,15-21

1. Hoje damos graças a Deus pelo que somos: pela Ilha que nos moldou e continua a moldar; pela história de que somos herdeiros, com os caminhos percorridos, com as vitórias obtidas juntamente com as derrotas e os obstáculos mais ou menos ultrapassados; e damos graças pela comunidade que somos e que diariamente nos enriquece, permitindo a cada um e a todos ser mais, imensamente mais, que se vivêssemos isolados. Damos graças a Deus por sermos madeirenses: nesta Ilha, com esta história, ao lado desta gente, no meio deste povo.

E, como fez Salomão, muito mais que riquezas e vitórias sobre os inimigos, pedimos a sabedoria. Sábio é aquele que, olhando a realidade, é capaz de ver simultaneamente mais longe e mais profundo, e de ser sempre mais porque deixa que tudo quanto é, pensa e deseja tenha a sua origem e a sua força, o seu dinamismo e o seu destino último em Deus.

A sabedoria acolhe a todos, e de todos (amigos ou inimigos) procura entender as razões. A sabedoria faz escutar a palavra que é digna de ser tomada em consideração, guardando-a a fazendo dela um verdadeiro tesouro, tal como faz esquecer o que é dito, o que ofendeu, pronunciado num momento e que, por isso, não merece ser guardado — muito menos como semente de ódio — no nosso coração. 

A sabedoria faz ver mais longe e mais profundamente: para além das aparências e para além dos limites humanos e materiais. A sabedoria convida-nos a saborear e a louvar a Deus pelo gosto bom da vida, e a detestar e procurar ultrapassar o sabor amargo do pecado e da morte.

Sim, precisamos sempre de pedir a sabedoria e de nos dispormos a acolhê-la, pois que ela não brota espontaneamente no nosso coração. E, nos tempos em que vivemos, precisamos de a pedir sobretudo para o nosso viver social, como sociedade madeirense. 

Num mundo, que a passos largos, se encaminha para a guerra, pedir a sabedoria é pedir para os madeirenses a capacidade de serem sempre construtores de paz. Num mundo de interesseiros egoístas, precisamos de pedir para todos a alegria de ser, viver e servir em comunidade. Num mundo que acentua as divisões e distancia os seres humanos uns dos outros, precisamos de pedir para os madeirenses a capacidade de colaborar uns com os outros, cada um segundo as suas capacidades, na construção duma sociedade mais justa e fraterna.

2. No âmbito do Jubileu de 2025, o Papa Leão XIV recebeu, há dias, um grupo de parlamentares e governantes de 68 países. Nas palavras que, nessa ocasião, lhes dirigiu, o Papa chamou a atenção para três questões centrais nas sociedades contemporâneas — e que, por isso, devem ser tidas em conta na actividade política. Quero, também eu, fazer-me eco das palavras do Papa Leão XIV.

Em primeiro lugar, o Santo Padre referiu-se à actividade política como tutela e desenvolvimento do bem da comunidade, tendo em particular atenção a defesa dos mais frágeis e marginalizados. Dizia ele: “Uma boa acção política, favorecendo a equitativa distribuição dos recursos, pode constituir um serviço eficaz à harmonia e à paz, seja a nível social, seja no âmbito internacional”.

Em segundo lugar, o Papa recordou a fé em Deus como fonte de valores positivos e “fonte imensa de bem e de verdade na vida de cada ser humano e das comunidades”, sempre com uma “imprescindível referência à lei natural. Esta, por não ter sido escrita pela mão do homem, é reconhecida como válida, universalmente e em todo o tempo, encontrando na própria natureza a sua forma mais plausível e convincente”. E o Santo Padre referia como exemplo de lei natural a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Por fim, Leão XIV referiu-se à revolução digital por que estão a passar as nossas sociedades. Corremos o risco de centrar a nossa atenção apenas nas realidades digitais, quando “A vida pessoal vale muito mais que um algoritmo, e as relações sociais necessitam de espaços humanos muito superiores aos esquemas limitados que uma qualquer máquina sem alma possa confeccionar”.

A defesa do bem comum; a fé e a lei natural como fonte de valores que constroem a sociedade e como critério para ultrapassar discórdias; a vida humana como valor fundamental, acima de qualquer máquina ou criação do ser humano: eis três dimensões que não deixaremos, também nós, de ter em conta na edificação sábia do nosso viver madeirense. 

Assim tenhamos todos a disponibilidade para acolher os dons e as moções do Espírito de Deus que Ele nos oferece.