No coração de Roma, a Igreja de Santo André do Vale, recebeu, na quarta-feira, 25 de junho, um encontro especialmente dedicado aos presbíteros de língua portuguesa, no âmbito do Jubileu dos Sacerdotes, que está a decorrer em Roma, entre os dias 25 e 27 deste mês. Vindos de várias partes do mundo, especialmente do Brasil, os sacerdotes reuniram-se para um momento de oração, catequese e partilha. A reflexão foi conduzida pelo Cardeal Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília, que desafiou os presentes a redescobrirem a sua missão com o tema: “Sacerdotes, anunciadores da Esperança”.
Logo no início da sua catequese, o Cardeal alertou para o contexto atual em que o ministério sacerdotal se desenrola: “Vive-se numa época caracterizada pelo subjetivo, onde se valoriza o pessoal e se perdeu o sentido comunitário. Tempo em que a prevalência é do ‘eu’, não ‘do nosso’. Essa realidade afeta a vida dos presbíteros”.
Referindo-se à cultura dominante, acrescentou: “A cultura hoje enfatiza a exterioridade, uma cultura muito voltada para a aparência. Onde o grande desafio se torna aquele de formar a interioridade, aquilo que a mentalidade bíblica chama o coração”.
O Cardeal destacou também fragilidades que hoje atravessam o ministério: “A questão da fragilidade psicológica na vida dos presbíteros, a questão do isolamento, não se sentir parte do presbitério, a falta de investimento da instituição na saúde mental e espiritual do presbítero”.
Recorrendo ao Concílio Vaticano II, citou a Presbyterorum Ordinis, para dizer que os presbíteros do Novo Testamento, em virtude da vocação e ordenação, de um certo modo, são segregados entre o povo de Deus, não para serem separados dele ou de qualquer homem, mas para se consagrarem totalmente à obra para a qual Deus chama”.
“Ao mesmo tempo, o seu próprio ministério exige que não se conformem a este mundo. Mas que vivam neste mundo, entre os homens, e como bons pastores conheçam as suas ovelhas e procurem trazer aquelas que não pertencem a este redil para que também elas ouçam a voz de Cristo”, sublinhou.
Recordando a Pastores Dabo Vobis, o Cardeal afirmou: “O presbítero é o homem que, em virtude da sua consagração, é configurado a Jesus Bom Pastor e chamado a reviver a sua própria caridade pastoral. Essa imagem é profundamente cristológica e eclesiológica”.

Presbítero, peregrino da esperança
Uma das imagens centrais da catequese foi a do peregrino: “Talvez a imagem do peregrino seja a mais adequada para descrever o ser humano de hoje. Revela a nossa condição humana de caminhantes, de seres que estão sempre em busca. Desde as origens, nas grandes religiões e também na Escritura, encontramos a experiência da peregrinação”.
O Cardeal lembrou: “Abraão peregrinou, Moisés peregrinou, Jesus peregrinou a Jerusalém e era um mestre itinerante. Os discípulos foram peregrinos no anúncio do Evangelho. Paulo peregrinou levando o Evangelho até Roma, o centro do mundo político de então”.
A esperança como certeza da presença de Cristo ressuscitado
A ressurreição de Cristo foi apresentada como o alicerce da esperança cristã: “A esperança cristã se fundamenta na fé. Quem tem fé tem esperança para esta vida e para a eternidade, pois a fé nos dá a certeza de que o Senhor caminha conosco nesta vida e abre a nossa existência para a eternidade de Deus”.
Referindo-se a Bento XVI, citou: “O cristianismo não tinha trazido uma mensagem sociorrevolucionária semelhante à de Spartacus (…). Aquilo que Jesus tinha trazido era algo de totalmente distinto: o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro com uma esperança que era mais forte do que os sofrimentos da escravatura”.
Evocando o anúncio pascal, o Cardeal recordou: “O grande anúncio daquele primeiro dia da semana: ‘Ressuscitou, não está mais aqui’. (…) A ressurreição não diz somente respeito a Cristo, mas constitui o início e a antecipação da geral ressurreição dos justos. (…) A ressurreição marca o início da recriação definitiva operada por Deus”.
Cristo presente no hoje da história
A esperança é também alimentada pela certeza da presença atual de Cristo: “Jesus Cristo não é uma pessoa do passado. Ele se dá a nós no hoje da história”. E concretizou: “Pode ser encontrado através da Palavra de Deus, da Eucaristia, da assembleia litúrgica reunida, no irmão necessitado que bate à nossa porta, através da oração e da voz da consciência”.
Citando o Papa Francisco, disse: “É o Espírito Santo, com a sua presença perene no caminho da Igreja, que irradia nos crentes a luz da esperança: mantém-na acesa como uma tocha que nunca se apaga”.
O perfil do presbítero: humano, espiritual e próximo
Concluindo a sua catequese, o Cardeal apresentou três pilares para a vida do presbítero como anunciador da esperança:
- O cuidado humano: “Homens que se humanizam, que cuidam da sua saúde, fazem exercício, tiram férias. Senão, o padre vai adoecendo”. E sublinhou: “A graça supõe a natureza”.
- A vida espiritual: “O padre alimenta a sua espiritualidade, reza. Tem momentos de oração litúrgica e oração pessoal. O ministério não se sustenta sem uma vida espiritual autêntica”.
- A proximidade ao povo: “Homem com o cheiro das ovelhas. Presença nas dores e nas alegrias. Homem da proximidade, que edifica a vida da comunidade”.
Finalizou com um apelo: “Que sejamos homens que alimentam a esperança do nosso povo. Peregrinar é a nossa condição de presbíteros. A nossa peregrinação não é vazia, mas cheia de esperança”.























