O bispo do Funchal presidiu esta quinta-feira, dia 19 de junho, na Praça do Município à Missa campal da Solenidade do Corpo de Deus. Uma festa que é celebrada 60 dias após o Pentecostes e que este ano voltou a contar com a presença de centenas de madeirenses, mas também de muitos estrangeiros e que em, ano Jubilar, foi dedicada aos vários grupos que formam as paróquias.
Um momento para o prelado apelar a que deixemos que “a Eucaristia nos alimente”, a nós que somos Peregrinos de Esperança. Numa homilia em que procurou responder às perguntas de onde vimos, para onde vamos, o prelado fez ainda questão de referir que durante este nosso percurso devemos deixar-nos invadir pela felicidade de podermos “Comungar Jesus Eucaristia”. O mesmo é dizer de “provar, saborear, viver o definitivo”.
“Em cada Missa, ao comungarmos, devidamente preparados, estamos a unir-nos ao Senhor ressuscitado, e a quantos já gozam desta sua visão, os santos”, explicou o bispo diocesano, para logo acrescentar que “a Eucaristia é um verdadeiro alimento de peregrinos: unindo-nos ao Céu”.
A Eucaristia não é por isso e “apenas um rito”. É “o alimento do Céu que nos permite caminhar com ânimo, com fé e com coragem, apesar das dificuldades. Une-nos ao Céu, dá-nos os olhos de Deus, o coração de Deus e a força para vivermos como irmãos, como Igreja em caminho”, afirmou o Bispo do Funchal.
Numa sociedade marcada por conflitos e divisões, D. Nuno Brás foi claro: “Jamais o amor pactua com o ódio, com a inveja, com o egoísmo, com a guerra.” E acrescentou: “Ou nos convertemos, ou mudamos o nosso modo de viver e de pensar egoísta, ou ficaremos de fora.” Para o Bispo, o juízo de Deus será sempre feito à luz do amor, mas nunca à custa da verdade.
De acordo com D. Nuno Brás a Eucaristia “dá-nos forças divinas, sobre-humanas, que, transformando o nosso coração, nos fazem ir adquirindo a forma de Cristo, em amor, entrega, cuidado pelo próximo, sacrifício, obediência ao Pai, caminho em direção ao Céu.”
Por outro lado, prosseguiu, a Eucaristia “cria em nós um novo modo de escutar. Ela alarga o nosso coração que, desse modo, faz daquilo que escutam os ouvidos um tesouro que nos vai conduzindo: que nos ajuda a conhecer o próximo e a realidade que nos cerca; que nos ajuda, sobretudo, a acolher e guardar a palavra divina, tomando-a como ela é e merece — Palavra de Deus dirigida à nossa existência.”
Além disso, a Eucaristia “dá-nos os olhos de Deus para vermos com os olhos da fé, para percebermos, discernirmos o caminho a percorrer: que fazer com o dom da vida que Deus nos oferece em cada dia; que direção tomar; que forças empregar no caminho. A Eucaristia dá-nos os olhos de Deus para vermos o próximo com o olhar divino: e o outro, de inimigo transforma-se em irmão; de concorrente, em companheiro de jornada; de obstáculo torna-se suporte (“Suportai-vos uns aos outros”, convidava S. Paulo — Cf. Col 3,13).”
A Eucaristia dá-nos mesmo “um novo olhar para nos entendermos a nós, e para percebermos como as nossas dificuldades interiores, os nossos desalentos e as nossas derrotas podem constituir momentos de fortalecimento e de nova energia para o caminho com Deus e até Deus, frisou o prelado.
E dá-nos ainda “um novo vigor”. Aos jovens, acrescentou, “a Eucaristia impede-os de desistir, oferece-lhes resiliência e perseverança, tolhe o desânimo e abre os horizontes. E a nós que, por sermos mais velhos na idade, nos parecem faltar as forças para o caminho, dá-nos o ânimo para continuarmos a mudar e transformar — nós e o mundo à nossa volta — oferecendo a tudo a forma de Deus, semeando sementes de esperança em tudo o que encontramos. A Eucaristia dá-nos a todos o vigor do mundo novo.”
Daí o apelo para que “deixemos que a Eucaristia nos alimente, a nós que somos “peregrinos de esperança”. E sem quaisquer respeitos humanos, levemos o Senhor em procissão pelas ruas da nossa cidade. É uma verdadeira imagem do que somos: peregrinos da cidade de Deus, conduzidos por Ele, unidos e caminhando com os irmãos. Peçamos-Lhe que, à Sua passagem, muitos sejam interpelados e convidados à fé. Caminhemos com Deus, que Ele mesmo tem apenas um desejo: caminhar connosco, salvar-nos!”
Uma graça ser bispo
A esta celebração, que contou com a presença de representantes das principais autoridades civis, militares e ainda de representantes das Confrarias do Santíssimo Sacramento e outras, dos Institutos Religiosos de vida Consagrada, Secular, Sociedades de Vida Apostólica, Secretariados e Movimentos e Obras laicais e muito povo, seguiu-se a habitual procissão.
Uma caminhada de fé até à igreja da Sé, que teve o seguinte percurso: Largo do Colégio – Rua Câmara Pestana – Largo da Igrejinha – Avenida de Zarco (descendente) – Avenida Arriaga (faixa norte oeste) – Rua Conselheiro José Silvestre Ribeiro – Avenida do Mar (Faixa norte) – Avenida de Zarco (ascendente) – Avenida Arriaga (faixa norte leste) – Sé do Funchal.
Todas estas artérias estavam ornamentadas com habituais tapetes de flores, este ano realizados por mais de 400 pessoas, incluindo muitas crianças, das paróquias do Santo da Serra, Bom Caminho e João Ferino; São Vicente, Seixal e Ribeira da Janela; Arco de São Jorge e São Jorge; Arco da Calheta e Loreto; Porto Moniz; Santa e Achadas da Cruz.
Uma vez na Sé, coube ao vigário geral, cónego Marcos Gonçalves agradecer a todas as entidades e a todas as pessoas individuais que deram o seu contributo para que esta solenidade fosse um louvor verdadeiro a Jesus Sacramentado. Agradeceu aos párocos e às comunidades envolvidas. Terminou agradecendo ainda às bandas e ao coro diocesano e ao maestro André Ribeiro.
Já o bispo do Funchal aproveitou os momentos finais desta celebração para afirmar ser “verdadeiramente uma graça ser bispo desta diocese, uma diocese que sabe deste modo louvar o Senhor, que sabe viver com Ele”, ainda que tenha frisado que “precisamos crescer na fé”.
Apelou ainda a que todos continuem a rezar pela paz no mundo e a todos que “continuem a crescer em amor ao Senhor e ao próximo” e de viver “na certeza de que o Senhor nos ama, nos quer e nos espera ao seu lado”.
Encontro de confrarias
Refira-se ainda que, antes desta celebração religiosa houve, na Igreja Jubilar da Sé do Funchal um encontro de irmãos e irmãs das Confrarias do Santíssimo e outras.
Um momento de formação e oração que decorreu entre as 15 e as 17 horas. Neste tempo foram intervenientes, Graça Alves que falou sobre “a vivência do Jubileu 2025”, o Pe. Pedro Nóbrega que abordou o tema “a missão das confrarias na vida paroquial” e o bispo do Funchal com o tema a “Espiritualidade das Confrarias”.
A primeira oradora, lembrou que “somos Peregrinos de Esperança todos os dias” e que não fazemos este caminho sós, mas “sempre como Igreja e tentando reconhecer Cristo naqueles que seguem connosco ou se cruzam no nosso caminho”.
Num encontro de confrades, Graça Alves disse que estes têm “de ser um exemplo de gente que caminha junto, que tem de ser capaz de ser luz e guia dos seus irmãos”.
Já o Pe. Pedro lembrou que fazer parte de uma confraria não se limita a pagar uma quota por ano e a sair na procissão. “Tem de ser mais do que isso”, disse o sacerdote, para logo acrescentar que “não podemos fazer parte de uma coisa para inglês ver”, mas temos de ser presença de Cristo na comunidade paroquial, sendo uns com os outros e “ajudando que a comunidade cresça”.
Quanto ao bispo do Funchal, falou das confrarias ao longo dos tempos, e por explicar o que é uma confraria, qual o seu papel dentro da Igreja apontando o que as distingue das confrarias civis.
“As confrarias são compostas por fiéis, portanto por batizados, sobretudo leigos”, que nascem com o propósito de ajudar os leigos a cuidar uns dos outros. São “a forma dos leigos de uma paróquia, de uma diocese se entre ajudarem a viverem melhor a vida da fé”.
Daí a importância das mesmas, daí o papel que as mesmas têm nas comunidades e que vai muito para além de um grupo de pessoas que se reúnem, mas alguém que se reúne para “realizar boas obras, para o louvor de Deus ou para a caridade”.
Esta iniciativa terminou com 30 minutos de Adoração ao Santíssimo Sacramento. Adoração ao Santíssimo que se realizou também, durante a tarde, na Igreja de São Pedro.


















































Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:
SOLENIDADE DO CORPO DE DEUS (C)
Largo do Colégio, 19 de Junho de 2025
Eucaristia: alimento do peregrino
“Peregrinos de esperança” — assim nos é proposto vivermos, sobretudo neste Ano Santo de 2025. Nesta peregrinação, levamos connosco o Pão da Eucaristia como verdadeiro alimento que sacia e que, ao mesmo tempo, permite e anima o nosso caminhar.
1. De onde vimos?
Neste peregrinar, de onde vimos? O nosso caminhar nesta realidade da história, da vida — da vida de cada um de nós e toda a humanidade — inicia porque nos interrogamos sobre a realidade do que somos, e percebemos que fomos criados para algo de maior, infinitamente maior.
Olhamo-nos ao espelho e questionamos: porque sou como sou? Porque não sou diferente? Como posso ser melhor? E percebemos, também, que juntos, em sociedade, somos capazes de ser mais e de ser melhor. Somos uns com os outros.
Mas a cada um de nós e a todos (desde os primeiros momentos, também à nossa sociedade madeirense) foi anunciado que Deus se fez homem, há 2025 anos, e que, há quase dois mil anos (passarão em 2033), morreu e ressuscitou para salvar: para me salvar, para te salvar, para nos salvar — para salvar o mundo! Sendo embora um acontecimento da história, do passado, encontra-nos e envolve-nos, 2 mil anos depois, porque é um acontecimento de Deus!
É esse acontecimento de Deus connosco, da morte e da ressurreição de Jesus, que nos reúne em Igreja; que oferece a cada um de nós um modo diferente de viver; que nos oferece a força e a energia de um Deus que caminha ao nosso lado e em nós; que nos reúne naquela nova realidade que vai muito além que uma qualquer instituição humana: a Igreja.
Nesse acontecimento de Deus que, em Jesus de Nazaré, vive a morte dos abandonados e que ressuscita para partilhar connosco a sua vida, todos nós nascemos como “nova criatura”, homens novos, que trazem consigo, no seu coração, a imagem de Jesus.
2. Para onde vamos?
Para onde caminhamos? A própria ciência reconhece que o universo não é eterno. Teve um início e terá um fim. Mas a presença de Deus connosco diz-nos que esse fim (do universo e o nosso) é encontro com o Deus que é Amor. Seremos julgados, iluminados pelo amor. Nesse momento, ficarão a nu os nossos pecados, as nossas faltas de amor. Seremos julgados com amor porque Deus não sabe ser de outro modo. Mas não nos iludamos porque jamais o amor pactua com o ódio, com a inveja, com o egoísmo, com a guerra. O amor não sabe ser de outro modo: ou nos convertemos, ou mudamos o nosso modo de viver e de pensar egoísta, ou ficaremos de fora.
Caminhamos, pois, com o olhar fito no Céu. Essa é a nossa meta: esperam-nos Deus, Trindade Santíssima, e todos os seus amigos — Nossa Senhora, os Apóstolos e os mártires, os Santos, todos quantos partilham e comungam a vida de Deus. Vida feliz, bem-aventurada. Vida Eterna, infinita. Vida que preenche todas as nossas aspirações e todos os nossos desejos. Vida que é Vida acolhida e partilhada, multiplicada. É para lá que nos dirigimos!
3. O pão dos peregrinos
Felicidade demasiada para cada um de nós? Felicidade que não merecemos — ou graça que nos é concedida? Sim: nessa vida de Deus em nós e connosco consiste aquilo a que chamamos “graça divina”.
Mas eis que o “Pão dos Anjos”, o “Pão do Céu”, o experimentamos já aqui, durante esta nossa peregrinação terrena. Comungar Jesus Eucaristia é já provar, saborear, viver o definitivo. Em cada Missa, ao comungarmos, devidamente preparados, estamos a unir-nos ao Senhor ressuscitado, e a quantos já gozam desta sua visão, os santos.
É por isso, também, que a Eucaristia é um verdadeiro alimento de peregrinos: unindo-nos ao Céu, saboreando as suas delícias, como não ganharmos coragem para ultrapassar os sofrimentos e as dificuldades deste nosso mundo? Perceberam-no bem os nossos antepassados madeirenses, quando fizeram gravar nas paredes da nossa Catedral e de outras das nossas igrejas: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”!
A Eucaristia dá-nos forças divinas, sobre-humanas, que, transformando o nosso coração, nos fazem ir adquirindo a forma de Cristo, em amor, entrega, cuidado pelo próximo, sacrifício, obediência ao Pai, caminho em direção ao Céu.
A Eucaristia cria em nós um novo modo de escutar. Ela alarga o nosso coração que, desse modo, faz daquilo que escutam os ouvidos um tesouro que nos vai conduzindo: que nos ajuda a conhecer o próximo e a realidade que nos cerca; que nos ajuda, sobretudo, a acolher e guardar a palavra divina, tomando-a como ela é e merece — Palavra de Deus dirigida à nossa existência.
A Eucaristia dá-nos os olhos de Deus para vermos com os olhos da fé, para percebermos, discernirmos o caminho a percorrer: que fazer com o dom da vida que Deus nos oferece em cada dia; que direção tomar; que forças empregar no caminho. A Eucaristia dá-nos os olhos de Deus para vermos o próximo com o olhar divino: e o outro, de inimigo transforma-se em irmão; de concorrente, em companheiro de jornada; de obstáculo torna-se suporte (“Suportai-vos uns aos outros”, convidava S. Paulo — Cf. Col 3,13). A Eucaristia dá-nos mesmo um novo olhar para nos entendermos a nós, e para percebermos como as nossas dificuldades interiores, os nossos desalentos e as nossas derrotas podem constituir momentos de fortalecimento e de nova energia para o caminho com Deus e até Deus.
A Eucaristia dá-nos um novo vigor. Aos jovens, a Eucaristia impede-os de desistir, oferece-lhes resiliência e perseverança, tolhe o desânimo e abre os horizontes. E a nós que, por sermos mais velhos na idade, nos parecem faltar as forças para o caminho, dá-nos o ânimo para continuarmos a mudar e transformar — nós e o mundo à nossa volta — oferecendo a tudo a forma de Deus, semeando sementes de esperança em tudo o que encontramos. A Eucaristia dá-nos a todos o vigor do mundo novo.
Deixemos que a Eucaristia nos alimente, a nós que somos “peregrinos de esperança”. E sem quaisquer respeitos humanos, levemos o Senhor em procissão pelas ruas da nossa cidade. É uma verdadeira imagem do que somos: peregrinos da cidade de Deus, conduzidos por Ele, unidos e caminhando com os irmãos. Peçamos-Lhe que, à Sua passagem, muitos sejam interpelados e convidados à fé. Caminhemos com Deus, que Ele mesmo tem apenas um desejo: caminhar connosco, salvar-nos!























