D. Nuno Brás destaca atenção do Papa Leão XIV aos desafios da Europa

Foto: Vatican Media

O Papa Leão XIV recebeu na sexta-feira, 23 de maio, a presidência da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia (COMECE), numa audiência marcada pela reflexão sobre os desafios atuais da Europa e da Igreja. O encontro decorreu no Vaticano e contou com a participação do bispo do Funchal, D. Nuno Brás, que é vice-presidente da COMECE.

Em declarações ao Vatican News, D. Nuno Brás sublinhou a importância simbólica e pastoral do encontro, realçando a sensibilidade do novo Papa para com os problemas europeus, apesar das suas origens americanas. “Em primeiro lugar, creio que é importante dizer que esta audiência logo na primeira semana do Pontificado, mostra como o Papa tem também o coração na Europa, ele que é americano e que foi pastor na América Latina, mas a quem preocupa muito a Europa”, afirmou o prelado.

A audiência decorreu num ambiente de simplicidade e escuta. Segundo D. Nuno Brás, Leão XIV mostrou-se atento e disponível para conhecer melhor as atividades da COMECE junto das instituições europeias: “Foi um encontro muito simples. Fomos muito bem acolhidos. O Santo Padre começou por dizer que não tinha muitas respostas. Mas que estava interessado em ouvir tudo e, portanto, em conhecer as várias atividades da COMECE que acompanha a atividade da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu”.

A paz foi o tema central do encontro, com especial destaque para o conflito na Ucrânia. O arcebispo Antoine Hérouard, também vice-presidente da COMECE, afirmou que “todos concordámos na necessidade de alcançar rapidamente uma paz que seja justa. O equilíbrio entre paz e justiça é fundamental.” O Papa manifestou a sua preocupação com o impacto económico e social da guerra, sobretudo sobre os mais frágeis: “Mais fundos para reforçar os sistemas de defesa e segurança não podem significar menos apoio para quem sofre ou vive em dificuldade”, sublinhou o arcebispo.

Neste sentido, o Papa Leão XIV expressou o receio de que o aumento dos gastos militares desvie recursos essenciais que deveriam ser canalizados para os mais necessitados. O bispo lituano Rimantas Norvila acrescentou que “embora ainda não se vejam soluções concretas, todos os países europeus devem sentir-se envolvidos no objectivo de pôr fim à guerra o quanto antes”.

Outro tema em destaque foi o fenómeno migratório. D. Nuno Brás alertou para “a necessidade, por parte da Europa, de acolher migrantes, também para contrariar o declínio demográfico”, reconhecendo, contudo, “uma certa incapacidade de integrar aqueles que chegam às nossas fronteiras”. Para o prelado, trata-se de uma questão de “respeito pela pessoa humana na sua dignidade integral” e que exige uma reflexão sobre “as raízes cristãs da Europa”.

Durante a audiência, Leão XIV manifestou ainda a preocupação com a transmissão da fé às novas gerações. O bispo Czeslaw Kozon, de Copenhaga, alertou para o aumento do número de pedidos de cancelamento dos registos de baptismo em países como a Bélgica e os Países Baixos: “Para além da questão dos filhos que acusam os pais de lhes terem imposto uma escolha de fé, há também o problema da ingerência dos Estados na vida da Igreja e na organização das suas estruturas”. Tal realidade, advertiu, pode pôr em causa a liberdade religiosa e o “direito e dever dos pais de educar os filhos”.

Por fim, foi abordado o tema da inteligência artificial, ao qual Leão XIV tem dedicado especial atenção. Os bispos presentes referiram que o Papa destacou as múltiplas implicações desta nova realidade, nomeadamente no que toca à desinformação, à dignidade humana, à privacidade, à identidade, à liberdade pessoal e ao mundo do trabalho.

D. Nuno Brás concluiu sublinhando a atitude de escuta e determinação do Papa: “O Santo Padre ouviu com muito interesse, de vez em quando fazia questões, e também um olhar muito interessado, um olhar de quem está à espera de perceber os dinamismos da União Europeia. Mas também um olhar firme de quem está seguro de que é necessário manter a União Europeia por causa da paz e por causa das suas raízes cristãs”.