A Sé do Funchal acolheu ao fim da tarde de sexta-feira, 9 de maio, uma Eucaristia de ação de graças pelo centenário da chegada ao Funchal das Irmãs Hospitaleiras.
Concelebrada por vários sacerdotes, esta Missa foi presidida pelo bispo do Funchal que considerou esta data “um Jubileu dentro de um outro”.
De acordo com D. Nuno Brás, foi “Jesus ressuscitado que o grupo de seis Irmãs Hospitaleiras encontrou quando, há 100 anos atrás, chegaram ao Funchal. Cristo estava particularmente presente no então chamado “Manicómio Câmara Pestana”, que lhes tinha sido entregue pela Junta Geral do Distrito, e de que tomaram a direção no dia 9 de maio de 1925, faz precisamente hoje 100 anos.”
Numa homilia em que não foi esquecida a escolha do novo sucessor de S. Pedro, o Papa Leão XIV, por quem também se rezou, o prelado lembrou que na altura que receberam a seu cargo o manicómio, “as irmãs hospitaleiras ficaram chocadas com o estado em que encontraram as doentes e o próprio edifício.”
“Sabemos também, acrescentou o bispo diocesano, “como tiveram que mandar derrubar a golpes de machado portas que não puderam ser abertas de outro modo, e como, logo desde o primeiro dia, assumiram como seu objectivo devolver às doentes o respeito pela sua dignidade. Chamaram-lhes ‘Anjos da Esperança’”, recordou.
Cem anos passados, “aqui estamos nós a agradecer tantos e tantos milagres, tantos e tantos sinais do amor divino para com todos. Nem faltaram, ao longo deste tempo, figuras exemplares de vida cristã, como a Venerável Irmã Maria do Monte, exemplo de oração, de união com Cristo sofredor, de oferta para a salvação do mundo”.
Hoje, vincou D. Nuno Brás, “agradecemos a epopeia escrita e vivida por todas as Irmãs Hospitaleiras que, ao longo destes anos, passaram pela Casa Câmara Pestana, bem como todos os que integraram a comunidade desta instituição: doentes e profissionais dedicados que deles cuidam.”
Ainda assim, continuou, “pedimos de modo especial ao Senhor a assistência do seu Espírito para que, nos tempos vindouros, todos O saibamos reconhecer nos irmãos que mais sofrem no corpo ou no espírito; o saibamos acolher; e nos disponhamos a tratar dele, ajudando a recuperar toda a dignidade que, eventualmente, tenha sido colocada em causa.”
O prelado concluiu a sua reflexão frisando que “pedimos e acompanhamos muito particularmente, neste início do seu ministério como sucessor de Pedro, os dons do Espírito para o Papa Leão XIV. Não esqueçamos as suas palavras de ontem [quinta-feira]: «Deus ama-nos, Deus ama-vos a todos, e o mal não prevalecerá! Estamos todos nas mãos de Deus. Portanto, sem medo, unidos, mãos nas mãos, com Deus e entre nós, continuemos. Somos discípulos de Cristo. Cristo vai à nossa frente. O mundo tem necessidade da sua luz»”, concluiu.
No início desta celebração, em que marcaram presença a presidente da Assembleia Legislativa da Madeira e a Secretária Regional da Saúde, entre representantes de outras entidades civis e militares falou a Irmã Paula Carneiro, provincial geral da congregação.
Fê-lo para lembrar que “durante um século as irmãs testemunharam o amor misericordioso de Cristo através da hospitalidade, no cuidado aos doentes e no serviço generoso aos mais frágeis”. Uma entrega, vincou, “feita de silêncio, oração e trabalho incansável” e que é “sinal vivo do Evangelho entre nós”.
Uma missão atribuída inicialmente a seis irmãs, mas que hoje é continuada por cerca de 350 colaboradores dispostos a prosseguir “este caminho fecundo” realizado durante um século.
“Hoje como ontem a Casa de Saúde de Câmara Pestana continua a ser bálsamo, sanação e reabilitação da pessoa com sofrimento psíquico, na promoção da sua dignidade e autonomia”, frisou ainda a provincial geral.
A Irmã Paula Carneiro terminou a sua intervenção vincando que, “com o coração agradecido, “coloquemos esta história de fé e de serviço nas mãos do Senhor, pedindo que continue a abençoar esta missão com frutos de esperança, compaixão, audácia e inovação”.













Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:
CENTENÁRIO DA CHEGADA AO FUNCHAL
DAS IRMÃS HOSPITALEIRAS
Sexta-feira da Semana III do tempo Pascal
Catedral, 09 maio 2025
1. “Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia” (Jo ).
Estas palavras do Senhor Jesus iluminam providencialmente a nossa celebração mas também a escolha que ontem foi realizada do novo sucessor de S. Pedro, o Papa Leão XIV.
Elas dizem-nos, em primeiro lugar, a entrega que Jesus faz de si próprio, a sua vida — toda a sua vida — colocada ao serviço da salvação do mundo inteiro. Mas dizem-nos, também, a nossa comunhão nesta sua oferta, neste seu sacrifício. Dizem-nos o que significa ser Igreja, à frente da qual está desde ontem o Papa Leão XIV: fazermos um com Cristo para que o mundo seja salvo.
Com efeito, é esta realidade, esta comunhão com Cristo, que salva — que nos salva a nós e ao mundo. Como afirmava ontem o novo Papa: “Somos discípulos de Cristo. Cristo precede-nos. O mundo tem necessidade da sua luz. A humanidade necessita de Cristo como duma ponte para que Deus e o seu amor possam chegar até ela”. Como afirmava Santo Agostinho, no lema que o novo Papa assumiu para si: “No único Cristo somos um” (In Ps 127,4).
Hoje queremos dar graças a Deus pelo Papa Leão, e pedimos que ele seja sempre a presença de Jesus que converte e arrasta o mundo inteiro ao conhecimento de Deus e na construção da paz verdadeira, no respeito da dignidade humana e no estabelecimento de pontes entre países, culturas, civilizações.
2. Mas também não podemos esquecer a acção de graças pela presença entre nós das Irmãs Hospitaleiras. A meio deste ano jubilar que o Papa Francisco quis que fosse todo ele voltado para o futuro — “Peregrinos de esperança”, é o seu lema — eis-nos convocados nesta nossa Catedral para dar graças a Deus pelos 100 anos da presença das Irmãs Hospitaleiras nesta nossa Ilha da Madeira. Um Jubileu dentro de um outro.
Quando Jesus ressuscitado surgiu ao encontro de Saulo no Caminho e Damasco, perguntou-lhe: “Saulo, Saulo, porque me persegues?”. Saulo perseguia os cristãos. Fazia-o mesmo em nome de Deus, julgando que estava a combater quantos se opunham ao único Deus ao proclamarem a ressurreição de Jesus.
Contudo, o Ressuscitado impôs-se com a sua presença: Saulo caiu por terra e, do mesmo modo, caíram as certezas que tinha construído para si; por terra ficou também a cegueira que o impedia de ver a verdade, apesar de os seus olhos estarem abertos. Entrou na cidade, recebeu a visita de Ananias e o baptismo, começando a dar testemunho do Senhor.
No Caminho de Damasco, Jesus ressuscitado identificou-se de um modo todo particular com os cristãos perseguidos. Paulo perseguia os cristãos, é certo. Mas Cristo dizia-lhe que era Ele próprio, o Ressuscitado, quem era perseguido.
Esta identificação do Senhor com os perseguidos não nos deve espantar. Sabemos como Jesus tem uma particular predileção pelos mais mal-tratados de todos os lugares e tempos, pelos “últimos”. Sabemos como Ele se identifica com todos quantos o mundo olha com desdém: “Tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e acolhestes-me; estava nu, e vestistes-me; estava doente, e visitastes-me; estava na prisão, e fostes ter comigo” (Mt 25,35-36). Naqueles que são perseguidos, que têm fome e sede, que não têm que vestir, estão doentes e prisioneiros, encontramos de verdade o próprio Senhor.
Foi este Jesus ressuscitado que o grupo de seis Irmãs Hospitaleiras encontrou quando, há 100 anos atrás, chegaram ao Funchal. Cristo estava particularmente presente no então chamado “Manicómio Câmara Pestana”, que lhes tinha sido entregue pela Junta Geral do Distrito, e de que tomaram a direção no dia 9 de maio de 1925, faz precisamente hoje 100 anos.
Sabemos como, naquela ocasião, as irmãs hospitaleiras ficaram chocadas com o estado em que encontraram as doentes e o próprio edifício. Sabemos como tiveram que mandar derrubar a golpes de machado portas que não puderam ser abertas de outro modo, e como, logo desde o primeiro dia, assumiram como seu objectivo devolver às doentes o respeito pela sua dignidade. Chamaram-lhes “Anjos da Esperança”.
Cem anos passados, aqui estamos nós a agradecer tantos e tantos milagres, tantos e tantos sinais do amor divino para com todos. Nem faltaram, ao longo deste tempo, figuras exemplares de vida cristã, como a Venerável Irmã Maria do Monte, exemplo de oração, de união com Cristo sofredor, de oferta para a salvação do mundo.
Hoje agradecemos a epopeia escrita e vivida por todas as Irmãs Hospitaleiras que, ao longo destes anos, passaram pela Casa Câmara Pestana, bem como todos os que integraram a comunidade desta instituição: doentes e profissionais dedicados que deles cuidam.
Mas pedimos de modo especial ao Senhor a assistência do seu Espírito para que, nos tempos vindouros, todos O saibamos reconhecer nos irmãos que mais sofrem no corpo ou no espírito; o saibamos acolher; e nos disponhamos a tratar dele, ajudando a recuperar toda a dignidade que, eventualmente, tenha sido colocada em causa.
E pedimos e acompanhamos muito particularmente, neste início do seu ministério como sucessor de Pedro, os dons do Espírito para o Papa Leão XIV. Não esqueçamos as suas palavras de ontem: “Deus ama-nos, Deus ama-vos a todos, e o mal não prevalecerá! Estamos todos nas mãos de Deus. Portanto, sem medo, unidos, mãos nas mãos, com Deus e entre nós, continuemos. Somos discípulos de Cristo. Cristo vai à nossa frente. O mundo tem necessidade da sua luz”.




















