Padre Tiago Andrade – “Traduzir o poema de Deus com testemunho humilde”

Foto: G.A.

O  padre Tiago Andrade foi ordenado sacerdote no passado dia 26 de abril na Sé do Funchal e celebrou Missa Nova no Domingo da Misericórdia, 27 de abril, na Igreja da Nazaré. O Jornal da Madeira falou com o novo sacerdote sobre estes momentos significativos da sua vida. Na entrevista, o padre Tiago partilhou a alegria e o sentido espiritual desses dias, refletindo sobre a missão do sacerdote e a importância da misericórdia. Sobre a frase que escolheu para a pagela da Missa Nova, “Congregai o trigo no meu celeiro”, explicou que a Igreja é chamada à “comunhão na alteridade”, em que diversidade não é divisão e a união não é uniformidade.

Jornal da Madeira: No último fim de semana aconteceram momentos importantes na sua vida: a ordenação sacerdotal e Missa Nova. Como viveu esses momentos? 

Padre Tiago Andrade: A ordenação… Bem, com muita alegria, tanto a ordenação como a Missa Nova. E, sobretudo, por sentir à minha volta essa alegria. Eu sinto que esses episódios marcantes – a ordenação e a Missa Nova – são para lá de mim e são para os outros, que se alegram com isso como quem se alegra com um Deus que escuta e que oferece o que as pessoas pedem e esperam. Sentir-me esperado e parte da resposta de Deus é uma grande exigência, porque implica que eu seja o mais transparente possível, para que eu diminua e Ele cresça em mim. Mas, acima de tudo, foi uma grande alegria, uma renovação do chamamento e uma reconfirmação.

Desde a unção das mãos, a ladainha, até à oração de consagração. O rito da eleição é também muito bonito: a Igreja apresenta um filho para o serviço da diocese e da Igreja Universal. Não é apenas expressão ritual, mas reflexo de uma realidade existencial — todo o caminho percorrido, desde a apresentação por meio do meu pároco e da minha família ao seminário menor. Aquele rapaz que entra no pré-seminário torna-se um homem pronto a ser padre para o que Deus quiser. 

ser ministro de palavras que levantam. Como disse o Papa Francisco na JMJ em Lisboa: ‘A única vez que podemos olhar alguém de cima para baixo é para levantá-la'”

Jornal da Madeira: E sobre a Missa Nova, que sentimentos?

Padre Tiago Andrade: Com muita comoção. Celebrar pela primeira vez é muito forte. Dizer “Isto é o meu corpo entregue por vós” é impossível sem nos revermos nessas palavras; isso implica total entrega. Ver a casa cheia – a paróquia da Nazaré e os rostos que foram passando pela minha vida, em fases distintas – foi emocionante. Todos convergiram para aquele momento em que Cristo se oferece por eles, por meio das minhas palavras, poucas e frágeis, por meio da minha vida e das minhas mãos.

Jornal da Madeira: E o que significou celebrar a Missa Nova no Domingo da Misericórdia?

Padre Tiago Andrade: Recebo isso como um apelo sincero de Deus. Como dizia o Papa Francisco: “O nome de Deus é misericórdia”. Sinto que tenho a missão de revelar esse nome às pessoas, com palavras, gestos e a vida — mostrar que Deus é misericórdia, que é fiel e que o seu amor é para sempre. Mesmo numa sociedade ferida e desfocada, Deus permanece fiel. Proclamar essa misericórdia com a minha vida e o meu ministério é um grande desafio e uma grande alegria. É um programa que assumo: ser ministro da reconciliação, ministro de um olhar consolador, ministro de palavras que levantam. Como disse o Papa Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude em Lisboa: “A única vez que podemos olhar alguém de cima para baixo é para levantá-la”.

Jornal da Madeira: Na homilia da Missa Nova afirmou que pretendia “lembrar a cada homem e a cada mulher que o amor de Deus é para sempre”. Como procura tornar isso concreto? 

Padre Tiago Andrade: Tirei esse excerto do Salmo: “Aclamai ao Senhor porque Ele é bom, o Seu amor é para sempre”. Quero que as pessoas sintam essa verdade. Como o posso fazer? Gosto do verbo permanecer — permanecer junto de quem me é confiado, com atenção e amor, para que cada um se sinta olhado e amado por Deus como pessoa única. Mesmo na dor, que ninguém carregue a cruz sozinho.

“Somos também chamados a esta comunhão na alteridade, ou seja, não é uma uniformidade massiva igual para todos, uma forma que se deve impor a todos, não é isso, mas uma comunhão de sentimentos”

Jornal da Madeira: Disse também que ser padre não é realizar um sonho pessoal. Então, o que é ser padre?

Padre Tiago Andrade: No início da formação em Lisboa, disseram-nos: “Vocês não estão aqui para cumprir um sonho, mas porque Deus ama um povo a quem não quer faltar com pastores”. Essa frase marcou-me. Não estamos no seminário apenas para nossa felicidade, mas para servir a quem Deus ama. Entregar a vida para que Deus possa amar um povo através de mim, em todos os momentos, alegres e de cruz.

Jornal da Madeira: Que significado tem para si a frase que consta na pagela oferecida na Missa Nova: “Congregai o trigo no meu celeiro”?

Padre Tiago Andrade: Jesus termina a parábola do joio e do trigo dizendo c. A tradução portuguesa terá traduzido como “reuni o trigo no meu celeiro”. Mas no grego, percebi que foi utilizado o verbo que dá origem à palavra Igreja, “ecclesia”, e que, portanto, teria mais força a partir do verbo “congregar”, o mesmo verbo que aparece, por exemplo, no episódio em que Jesus chora sobre Jerusalém,  querendo congregar os filhos dispersos sem que estes o quisessem, usando ele próprio a imagem da galinha que congrega os filhos sob as suas asas. A unidade é sinal messiânico: um povo ferido, pecador, mas congregado e unido, porque Deus é comunhão. Somos também chamados a esta comunhão na alteridade, ou seja, não é uma uniformidade massiva igual para todos, uma forma que se deve impor a todos, não é isso, mas uma comunhão de sentimentos. Acima de tudo, de vivermos unidos a Cristo e unidos uns aos outros. No fundo, trata-se de sinodalidade, como indicou o Papa Francisco.

“não descartar o diferente só porque é diferente, mas dar uma atenção sincera àquilo que são os sentimentos dos outros, os seus pensamentos e as dores de cada um”.

Jornal da Madeira: De que forma a sinodalidade se liga à comunhão e ao caminho da Igreja de hoje?

Padre Tiago Andrade: O verbo é escutar — não descartar o diferente só porque é diferente, mas dar uma atenção sincera àquilo que são os sentimentos dos outros, os seus pensamentos e as dores de cada um. E podermos juntos, encetar caminhos. Creio que é esse o horizonte, o método da amizade. Antes de propor algo, propor amizade. E que essa amizade seja acolhida como: “Deus interessa-se por mim” — e então responde. A diversidade não tem de ser sinónimo de divisão e união não tem de ser sinónimo de “somos todos iguais”.

Jornal da Madeira: O Papa Francisco insistiu em ir às periferias. Como entende essa proposta pastoral?

Padre Tiago Andrade: De facto, o Papa Francisco insiste em ir às periferias existenciais e geográficas, a alargar as tendas para incluir todos. Ele demonstrou isso em gestos simples e profundos, como telefonar pessoalmente a um pároco de aldeia ou a uma família isolada que enfrentava dificuldades, incentivando-os e transmitindo-lhes conforto. Isso mostra que a Igreja não está confinada ao templo, mas se faz próxima de cada pessoa, sobretudo onde há mais necessidade, porque onde está o coração humano aí está a Igreja.

Jornal da Madeira: Referiu que “todos temos um lugar à mesa, a Sua misericórdia é eterna”. Como transmitir isso aos irmãos no dia a dia?

Padre Tiago Andrade: Cada um tem o seu lugar no banquete de Deus. Se ninguém ocupar, fica vazio. Mas Deus espera. Nunca é tarde para regressar à casa do Pai. Há um “kairos” de Deus para cada um.

Gosto do livro Deus na escuridão, de Valter Hugo Mãe, que compara Deus a uma mãe: “A casa de Deus tem a chave debaixo de um vaso… todo o mundo sabe. É tique de todas as mães que dormem lá dentro, vulneráveis a qualquer ladrão, em troca da oportunidade de, ao menos uma vez, o filho voltar a tomar a chave e entrar. Deus é vulnerável. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera do regresso dos filhos”. Nós sabemos onde está a chave. Que eu possa ser ponte de encontro entre Deus e cada pessoa. 

“Cada um tem o seu lugar no banquete de Deus. Se ninguém ocupar, fica vazio. Mas Deus espera”.

Jornal da Madeira: Há poucos meses defendeu a sua tese de mestrado integrado em Teologia com o título “No princípio era o outro”. Como chegou a essa síntese?

Padre Tiago Andrade: A tese intitulada “No princípio era o outro”, parte da antropologia teológica – com alguns filósofos como Emmanuel Levinas e Martin Buber –  e chega a uma eclesiologia de comunhão inspirada em autores como Ioannis Zizioulas e Hans Urs von Balthasar. Fomos criados à imagem de um Deus que é comunhão de três pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo. Existir é coexistir. Citando von Balthasar, existir é pró- existir: viver em favor dos outros, a exemplo de Cristo e da sua vida dada.

“Essa é também a missão do padre, traduzir o poema de Deus com testemunho humilde, junto aos pés da humanidade”. 

Jornal da Madeira: E como podemos viver essa dimensão relacional? 

Padre Tiago Andrade: Somos seres eclesiais. A Igreja é união na alteridade. Os sacramentos de serviço — matrimónio e ordem — manifestam isso: entregar a vida em favor do outro.

Jornal da Madeira: Em tempo de “sede vacante”, quais os desafios da Igreja hoje?

Padre Tiago Andrade: O Espírito Santo conduz sempre a Igreja. Vivemos uma mudança de era, como definiu Francisco, com grandes desafios como aqueles relacionados com a dignidade humana. É preciso sublinhar que nós valemos pelo que somos, não pelo que fazemos. Vivemos também num tempo caracterizado pelo sociólogo Zygmunt Bauman como “modernidade líquida”. As relações tornaram-se frágeis, descartáveis. As pessoas são muitas vezes tratadas como coisas, avaliadas pelo que produzem e não pelo que são. A missão da Igreja, neste contexto, é recordar que cada ser humano é amado incondicionalmente por Deus e que a sua vida tem valor e dignidade. Recentemente, um apagão mostrou a fragilidade do tecnológico. Somos chamados a apontar o essencial, o invisível aos olhos.

Outro desafio tem a ver com traduzir o mistério com palavras e gestos atuais. Virgínia Woolf, num dos seus romances – “As ondas” – coloca uma personagem a dizer sobre si próprio que compreende a sua vida no sentido de “traduzir o poema de Deus”. Isto é um desafio atual, da Igreja de hoje. Deus é o maior poeta que nós podemos conhecer, mas misteriosamente parece querer precisar de alguém que traduza o Seu poema. Essa é também a missão do padre, traduzir o poema de Deus com testemunho humilde, junto aos pés da humanidade.