“Esperança” – A minha leitura da autobiografia do Papa Francisco

Foto: P. Giselo Andrade

Neste dia do falecimento do Papa Francisco publico o texto sobre o livro “Esperança”, a autobiografia do Papa Francisco – apresentado na reunião do arciprestado do Funchal, na Igreja de São José, no dia 20 de fevereiro de 2025.

Caros amigos, 

O Livro “Esperança” é uma obra imprescindível para conhecer o Papa Francisco, as suas raízes familiares, sociais e espirituais, o seu pensamento e as principais linhas do seu pontificado. Como o próprio Papa Francisco expressa, “O livro da minha vida é o relato de um caminho de esperança que não posso imaginar separado do da minha família, da minha gente, de todo o povo de Deus“. A sua história não é um feito individual, mas parte de um quadro mais amplo, pintado com as cores da fé, da família e do povo de Deus.

1. As migrações como matriz existencial: Uma saga familiar e um apelo à ação

A história do Papa Francisco começa muito antes de seu nascimento, com a saga migratória de seus avós paternos, Giovanni Bergoglio e Rosa Vassallo. A experiência de quase perderem a vida no naufrágio do Principessa Mafalda, em 1927, é um marco indelével na sua história familiar.

A epopeia familiar: De Piemonte a Buenos Aires

Em outubro de 1927, o navio Principessa Mafalda afundou na costa da Bahia, levando consigo a vida de mais de 300 passageiros, na sua maioria migrantes italianos em busca de uma nova vida na Argentina. Os seus avós tinham o bilhete para essa viagem, só não a fizeram devido à impossibilidade de venderem os seus bens em Piemonte a tempo. “Por isso estou aqui agora”,disse o Papa. 

Essa experiência paira sobre a história familiar de Francisco como um lembrete constante da fragilidade da vida e da importância da solidariedade humana. Essa consciência manifesta-se na pergunta: “Também eu poderia ter estado entre os rejeitados de hoje. Porquê eles e não eu?” Essa indagação continua a ecoar nos seus discursos quando denuncia a “globalização da indiferença” e defende os direitos dos migrantes e refugiados em todo o mundo.

Em 1929, os avós finalmente embarcaram rumo a Buenos Aires, após 15 dias de navegação. Chegaram como “migrantes de ultramar”, carregando consigo pouco mais do que a esperança de um futuro melhor. A escassez material desse recomeço forjou em Francisco uma profunda sensibilidade para o drama dos deslocados.

As periferias urbanas

A infância de Jorge Mario Bergoglio no bairro de Flores, em Buenos Aires foi marcada por um mosaico de culturas e realidades sociais. Como ele descreve, Flores era “um caleidoscópio de etnias, religiões e profissões”, onde conviveu com judeus, muçulmanos e cristãos de diversas origens. Essa experiência de pluralismo, permitirá uma visão da Igreja como “hospital de campanha” aberta a todas as feridas humanas.

2. A constelação de afetos e ensinamentos: Os pilares de uma vocação

A autobiografia revela a importância das relações familiares e dos encontros significativos na formação da personalidade e da vocação do Papa Francisco. Entre as figuras que se destacam, estão além dos seus pais, irmãos e avós, também a senhora Concetta, a senhora que ajudava a mãe nas lides domésticas. 

Os avós, os catequistas da fé e consciência social

O avô Giovanni Bergoglio transmitiu ao neto o valor da paz, forjado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Como o Papa relata, “O avô contou-me o horror, o sofrimento, o medo, a absurda e alienante inutilidade da guerra.” Esse relato direto dos horrores bélicos explica a veemência com que o Papa denuncia a “terceira guerra mundial em pedaços” e a corrida armamentista, alertando que “é necessário empenharmo-nos de todas as formas para pôr termo à corrida aos armamentos.”

Rosa Vassallo, a sua avó, por sua vez, emerge como a arquiteta de sua espiritualidade prática. “Foi dela que recebi o primeiro anúncio cristão e foi belíssimo,” recorda Francisco. A sua militância nas obras sociais inspiradas pela Rerum Novarum (1891) – encíclica pioneira na doutrina social da Igreja – antecipa o compromisso do neto com os pobres. Não por acaso, Francisco recorda que os avós “subiram na vida a pão, amor e nada!”, síntese perfeita de sua opção preferencial pelos marginalizados.

Concetta: Uma lição de humildade

A história de Concetta, que alguns dias ia à casa da família Bergoglio, para ajudar na comida e na roupa, ilustra a importância da humildade e do perdão na vida do Papa. Após décadas de separação, Concetta reapareceu, procurando por Jorge Mario:

“Passaram 20 anos e, quando era reitor do Colégio Máximo de São Miguel, em Córdoba, ela e a filha souberam e vieram procurar-me. Porém, eu estava muito atarefado naquele dia e, com ligeireza que a prazo não me perdoaria, mandei dizer que não estava. Quando me apercebi do que tinha feito, chorei. Rezei para encontrá-la, para que me fosse permitido sanar aquela injustiça, uma injustiça que, agora compreendo-o tinha cometido em relação aos pobres. Durante anos”. 

E realmente voltou a encontrá-la, quando era cardeal e nunca mais se deixaram. Alguns dias antes da morrer ofereceu ao Papa uma medalhinha do Sagrado Coração de Jesus: “Todas as noites, tiro-a do pescoço e beijo-a” (p. 82).

Uma vocação revelada na misericórdia

Um momento crucial na vida de Francisco foi o encontro com um sacerdote desconhecido na igreja de San José de Flores, em 1953. Como ele descreve, “Senti como se alguém me chamasse.” Esse episódio, que ocorreu no dia 21 de setembro, início da primavera na Argentina, também o dia do estudante, marcou o início de sua vocação sacerdotal, revelando-lhe a força transformadora da misericórdia divina. Antes de ir ter com os amigos, algo aconteceu: 

“perto da igreja de São José senti como se alguém me chamasse, ou melhor, apercebi-me que alguma coisa me impelia a entrar; algo de forte e nunca sentido (…) Assim entrei e vi vir na minha direção um sacerdote que não conhecia (…) Naquele momento,, senti que devia confessar-me (…) O facto é que saí e já não era o mesmo, e com a consciência de que seria sacerdote” (p. 140). 

Dia 21 de setembro é o dia de São Mateus, e o Papa escolheu como lema episcopal e depois papal “miserando atque eligendo”, a tradução literal seria “misericordiando e escolhendo”. “Sou um pecador a quem o Senhor olhou com misericordia” (p. 145), disse.

O conclave

Quando convocado para o Conclave, o Cardeal Bergoglio não esperava ficar muito tempo em Roma. Tinha já comprado o bilhete de regresso a Buenos Aires para celebrar o Domingo de Ramos e Páscoa. Depois das primeiras votações inconclusivas, conta como num almoço, os cardeais fizeram muitas perguntas: “cheguei a pensar: ‘bem, parece que estou a fazer um exame’” (p. 227). Na  quarta votação teve 69 votos…era preciso 77, em 115. Na sexta votação, quando o seu nome foi lido pela septuagésima sétima vez “surgiu um aplauso, enquanto a leitura dos votos ainda continuava”. Nesse momento o cardeal Hummes “levantou-se e veio abraçar-me: ‘Não te esqueças dos pobres’, disse ele. A sua frase marcou-me, sentia na carne. Foi então que surgiu o nome Francisco” (p. 229). Depois o Papa levantou-se, “fui abraçar o cardeal Scola. Merecia aquele abraço”. 

Na vestidura, não aceitou o anel nem a cruz de ouro, nem os sapatos vermelhos, “Não, os meus são ortopédicos”. Não foi nada pensado antes “era simplesmente o que sentia, com espontaneidade”. Queriam que vestisse umas calças brancas, “Não me agrada fazer de vendedor de gelados”, disse (p. 230). 

Um elemento curioso tem a ver com uma limosina:  “Regressado da varanda depois da bênção, desci com todos os cardeais e, lá em baixo, estava uma limusina toda iluminada que me esperava. Mas disse tranquilamente: ‘Não, não, eu vou com os cardeais’. Apanhámos o pequeno autocarro todos juntos e regressámos a Santa Marta. E nunca mais vi aquela limusina”. 

3. Os pilares de um pontificado: Ecologia integral e reforma da Igreja

A autobiografia oferece elementos valiosos sobre os pilares que sustentam o pontificado de Francisco, incluindo os princípios de uma ecologia integral e o seu compromisso com a reforma da Igreja.

Ecologia integral: Das memórias rurais à Laudato Si’

As férias infantis na propriedade rural dos avós em Portacomaro (Piemonte) forjaram no Papa uma ligação íntima com a obra da criação. Ao recordar esses verões – “raízes que continuam a alimentar-me” –, compreendemos melhor a gênese da ecologia integral proposta na Laudato Si’ (2015). A defesa da “casa comum” aparece assim não como abstração doutrinal, mas como memória encarnada.

Reforma da Igreja, conversão pastoral e o processo sinodal

A experiência de governo como provincial dos jesuítas (1973-1979) e arcebispo de Buenos Aires (1998-2013) é revisitada. Francisco admite erros – “fui demasiado autoritário” –, revelação que ilumina o seu atual empenho em dar à Igreja instrumentos de diálogo e escuta. A insistência na “conversão pastoral” das estruturas eclesiásticas surge também como fruto das suas experiências.

4. A narrativa como método pastoral: A linguagem da proximidade e da Esperança

Francisco é um mestre da narrativa, utilizando histórias e exemplos concretos para transmitir mensagens complexas de forma acessível e envolvente. A sua autobiografia é um exemplo perfeito dessa habilidade, revelando o papel da linguagem enquanto instrumento poderoso de evangelização.

Parábolas modernas: Histórias que curam e inspiram

Reconhecendo-se como “contador de histórias”, Francisco estrutura a autobiografia em dezenas de episódios. Desde o seu gosto por jogar futebol (“chamavam-me ‘pata dura'”), seja recordando as pizzas familiares depois dos jogos do clube San Lorenzo. O Papa demonstra como o quotidiano se torna sacramento da presença de Deus. Ao partilhar até mesmo a “paixão de juventude” por duas companheiras de tango, Francisco sublinha que a santidade não anula a humanidade, mas a transfigura.

Linguagem como território dos afetos

A relação do Papa com o dialeto piemontês – “primeira língua que aprendi” – e a sua alegria em telefonar semanalmente à irmã Maria Elena revelam como a linguagem constitui um espaço de pertença íntima. Essa atenção às raízes linguísticas explica a sua insistência em “falar a língua do povo”, traduzindo complexidades doutrinais em imagens acessíveis  (“Igreja em saída”, “globalização da indiferença”).

5. Conclusão: Um legado de Esperança e Humanidade

Ao concluir este périplo pelas páginas de “Esperança”, quis assinalar as três lições que, a meu ver,  ajudam a ler o tempo atual. Primeiro, que as migrações – sejam geográficas, culturais ou espirituais – constituem motor da história humana, desafiando-nos a substituir fronteiras por pontes. Segundo, que a autêntica liderança nasce da capacidade de aceitar as próprias fragilidades para acolher também as feridas dos outros.  Por fim, que a esperança cristã não é apenas um otimismo, mas coragem de refazer caminhos mesmo após naufrágios existenciais.

Nas palavras do próprio Francisco, esta obra “não fala unicamente do que foi, mas do que será (…) Parece que foi ontem, mas afinal é amanhã.” Ao partilhar a sua história, o Papa convida cada leitor a reescrever a própria biografia como narrativa de conversão permanente – processo onde a memória e a profecia (passado e futuro) se entrelaçam na teia sempre aberta da graça.

No penúltimo capítulo do livro o Papa fala que “os dias melhores ainda estão para vir”: “Se um dia, os temores e as preocupações vos assaltarem, pensai naquele episódio do Evangelho de João, nas bodas de Caná (Jo 2,1-12), e dizei a vós mesmos: o melhor vinho está ainda por servir. É uma imagem que para um bisneto de camponeses como eu é particularmente cara. Estai seguros: a realidade mais profunda, mais feliz, mais bela, para nós mesmos, para quem amamos, está para chegar. Agarrados à âncora da esperança, poderemos dizer com os versos de Hikmet que ‘o mais belo dos mares é aquele que não navegamos; o mais belo dos nossos filhos ainda não cresceu; os mais belos dos nossos dias ainda não os vivemos; e ainda não te disse a coisa mais bela que gostaria de te dizer’. O vento do Espírito não deixou de soprar. Fazei boa viagem” (p. 337).

Ao encerrar esta partilha, convido-vos, se ainda não o fizeram, a mergulhar nas páginas de “Esperança” e a descobrir a riqueza de um testemunho que nos inspira a construir um mundo mais justo, fraterno e solidário.

Pe. Giselo Andrade