Quarta Feira de Cinzas: Bispo desafiou cristãos a viver a Quaresma como “oportunidade de conversão ao Amor”

Aos jornalistas o prelado disse ainda que há que aproveitar este tempo para “sermos mais de Deus”, para “nos convertermos e converter tudo aquilo que está à nossa volta”.

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal desafiou os cristãos da diocese a viver a Quaresma como “mais uma oportunidade de conversão ao Amor. Como exercício, treino, para dilatarmos o coração empedernido, para abrirmos as mãos ao próximo, para jejuarmos de tanto egoísmo”.

D. Nuno Brás falava na homilia da celebração de Cinzas, que teve lugar esta quarta-feira, dia 05 de março, na Sé do Funchal. Uma oportunidade para o bispo diocesano, deixar bem claro que “uma Quaresma vivida no Ano da Graça que é este Jubileu, é, de verdade, ‘tempo favorável’”.

Daí o apelo para que “não percamos o tempo que Deus nos oferece” e para que “não desperdicemos os dias, as horas, os segundos. Conscientes de que o Amor divino é “a chave” de toda a nossa existência e da existência do mundo, não percamos tempo: convertamo-nos a esse Amor”, mas para que nos deixemos “’vencer’ e transformar por Ele” e “proclamemos as suas maravilhas”.

Aliás, vincou o prelado, “o ser humano é, de entre a realidade criada, o único a poder proclamar com consciência, como ‘imagem e semelhança de Deus’, as maravilhas divinas por meio das suas palavras, das suas criações e (sobretudo) por meio das múltiplas relações que nos unem uns aos outros e nos fazem ‘humanidade’. O tempo existe para que cada um de nós e todos possamos proclamar a grandeza, a bondade, a beleza do Deus que é Amor”.

Depois de lembrar que “vivemos momentos decisivos para a história do mundo: os manuais de história dirão que houve um mundo antes e um depois da pandemia; um mundo antes e um depois da guerra na Ucrânia; um mundo antes e um depois da Inteligência Artificial…”, D. Nuno Brás apelou a que “impondo as Cinzas sobre a nossa cabeça, realizando este sinal de penitência que a Igreja nos propõe”, nos  deixemos “marcar pelo sinal do Amor — a cruz com que Ele derramou o Seu sangue por cada um de nós e Por todos”.

E foi precisamente a imposição das Cinzas aos muitos fiéis que enchiam a Catedral do Funchal nesta Eucaristia, concelebrada por vários sacerdotes, que se seguiu à homilia. Isto, claro, depois das mesmas terem sido benzidas por D. Nuno Brás. De lembrar que estas Cinzas são obtidas através da queima dos ramos usados no Domingo de Ramos do ano passado.

Recorde-se ainda que a Quaresma, que se iniciou precisamente neste dia 5 de março, é um tempo litúrgico, de 40 dias (a contagem exclui os domingos), que tem início com a celebração de Cinzas e é marcado por apelos ao jejum, partilha e penitência; serve de preparação para a Páscoa, a principal festa do calendário cristão.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:

QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Catedral, 5 de Março de 2025

“Não percamos tempo!”

1. Ao escutar S. Paulo dizer aos coríntios: “Este é o tempo favorável”, não podemos deixar de pensar como o nosso tempo é, também ele, decisivo — “tempo favorável”! Aliás, neste ano jubilar de 2025, não podemos deixar de repetir, uma e outra vez, com o Profeta e com o Senhor Jesus: este é “o Ano da Graça do Senhor” (Lc 4,19; Is 61,2). Por isso, a Quaresma que hoje iniciamos, vivida no meio deste Jubileu, é, de verdade, um tempo de graça e de salvação.

Vivemos momentos decisivos para a história do mundo: os manuais de história dirão que houve um mundo antes e um depois da pandemia; um mundo antes e um depois da guerra na Ucrânia; um mundo antes e um depois da Inteligência Artificial…

Nem todas as idades tiveram esta percepção. Certamente: em todas existiram mudanças de maior ou menor dimensão; mas nem todas viveram uma “mudança de época”. Como gosta de dizer o Papa Francisco (a quem acompanhamos na sua doença, e por quem rezamos): “não vivemos apenas numa época de mudanças; vivemos numa mudança de época”.

A cada um de nós impõe-se, por isso, a questão sobre o modo como vivemos este tempo que Deus nos dá, não apenas enquanto possibilidade para usufruirmos dele, mas como responsabilidade: que fazemos nós do tempo que Deus nos oferece? Como vivemos os minutos, os dias que se encontram diante de nós? Vão ser tempo desperdiçado ou tempo para acolher a salvação? Tempo centrado em nós ou tempo para os outros e para Deus? Tempo para construir ou tempo para destruir? Tempo de salvação e de graça, ou tempo de perdição e de caminho para a derrota?

2. Tomemos consciência de que não existe uma realidade neutra, objectiva, qual folha em branco que nos fosse oferecida, chamada “tempo”, que depois cada um preencheria, bem ou mal, consoante as suas acções e intenções…

O tempo é antes a oportunidade que Deus nos oferece para podermos responder (para correspondermos!) à Sua iniciativa — mesmo para aqueles que não acreditam na Sua existência. Sem o ser humano e sem a sua resposta a Deus, não existiria tempo. O tempo é a nossa resposta a Deus, resposta que damos no decorrer da nossa existência como seres humanos e como humanidade.

Para que serve o tempo? Deus criou-nos a nós e à realidade que nos rodeia para que possamos manifestar a Sua glória. O mesmo é dizer: para mostrarmos as maravilhas do Seu Amor. Por isso, ao criar, “Deus viu que era bom” (Gen 1,10); e, contemplando a sua obra finalizada, “viu que era muito bom” (Gen 1,31): o infinito amor de Deus expande-se e manifesta-se, revela-se, espelha-se na realidade criada. 

Mas é missão do ser humano proclamar, de num modo particular e excelente, os louvores de Deus. Com efeito, o ser humano é, de entre a realidade criada, o único a poder proclamar com consciência, como “imagem e semelhança de Deus”, as maravilhas divinas por meio das suas palavras, das suas criações e (sobretudo) por meio das múltiplas relações que nos unem uns aos outros e nos fazem “humanidade”. O tempo existe para que cada um de nós e todos possamos proclamar a grandeza, a bondade, a beleza do Deus que é Amor.

Mas cada um de nós tem consciência de que nem sempre isso acontece na nossa vida e na vida desta nossa humanidade. Nem é necessário acedermos às notícias do telejornal ou às redes sociais. Basta deixarmos que o Amor de Deus nos ilumine, para nos darmos conta de como estamos distantes, como tantas vezes o nosso egoísmo leva a melhor sobre a nossa liberdade. 

Sim, somos pecadores: à proclamação do amor de Deus, substituímos a proclamação das nossas pretensas qualidades; à proclamação das maravilhas divinas, substituímos a nossa vontade de domínio, de poder — para com o mundo, para com o próximo e até para com o próprio Deus!

Mas o Amor que Deus é, impede-O de desistir de cada um e de todos — impede-O de desistir desta humanidade transviada. Assim, o tempo passa também a ser oportunidade de acolhimento da misericórdia divina — quer dizer: acolhimento do Amor primeiro, criador, agora distendido pelos dias e pelos anos, pelos séculos. Foi Ele que se manifestou glorioso na Páscoa de Jesus, nesse acontecimento da ressurreição, que (mais fulgurante que o primeiro momento criador) inicia uma nova criação e um homem novo, fruto da Presença do Espírito Santo, criador e renovador de cada um e do mundo.

3. Eis-nos, pois, às portas desta Quaresma — 40 dias de oração, jejum e caridade —, a caminho da celebração da Páscoa. A Quaresma é-nos proposta como “tempo de graça”. Como mais uma oportunidade de conversão ao Amor. Como exercício, treino, para dilatarmos o coração empedernido, para abrirmos as mãos ao próximo, para jejuarmos de tanto egoísmo.

Desde o início, a celebração da Páscoa, vivida como centro aglutinador da vida cristã, trouxe consigo, primeiro a preparação próxima dos catecúmenos que iam ser baptizados na Vigília Pascal; depois, a preparação daqueles que, tendo pecado gravemente, pediam para ser readmitidos na comunhão da Igreja; e, por fim, a peregrinação de todos, a preparação de toda a comunidade para as celebrações pascais: é que a Páscoa traz consigo a exigência de uma nova humanidade, é princípio de uma nova criação, de uma identificação cada vez maior com Cristo ressuscitado em todas as dimensões da nossa vida, de uma transformação gloriosa de toda a realidade criada.

Uma Quaresma vivida no Ano da Graça que é este Jubileu, é, de verdade, “tempo favorável”. Não percamos o tempo que Deus nos oferece. Não desperdicemos os dias, as horas, os segundos. Conscientes de que o Amor divino é “a chave” de toda a nossa existência e da existência do mundo, não percamos tempo: convertamo-nos a esse Amor; deixemo-nos “vencer” e transformar por Ele; proclamemos as suas maravilhas.

Iniciemos, desde já, impondo as cinzas sobre a nossa cabeça, realizando este sinal de penitência que a Igreja nos propõe. Deixemo-nos marcar pelo sinal do Amor — a cruz com que Ele derramou o Seu sangue por cada um de nós e por todos.