O bispo do Funchal presidiu na manhã deste sábado, na Sé do Funchal, a uma Eucaristia, concelebrada por vários cónegos e sacerdotes da diocese e integrada nas comemorações do centenário da chegada das Irmãs da Apresentação de Maria ao Funchal.
Uma oportunidade para D. Nuno Brás desejar que as Irmãs da Apresentação de Maria possam continuar a ser presença na Diocese do Funchal. Uma presença “inconformada”, conforme disse o prelado e “inconformada porque o conhecimento (e, sobretudo, o conhecimento de Deus) nos conduz sempre a ir mais além, a procurar viver o infinito do amor; inconformada porque, se é verdade que na nossa Ilha já não nos encontramos na emergência educativa de há cem anos atrás, em tantos (demasiados) existe ainda o desconhecimento de Deus”.
Mas inconformada também porque, “mergulhando no oceano infinito que é Deus, jamais deixaremos de procurar entender quem Ele é e o seu amor; inconformada porque, cercados e invadidos pelo Amor divino, jamais deixaremos de olhar para o próximo e de o procurar perceber; inconformada porque o havemos também de conduzir ao louvor divino e, desse modo, de cuidar dele em todas as dimensões da sua existência, ajudando-o a ser mais, a viver melhor, a jamais esquecer o Amor como a razão do nosso viver e do nosso ser”.
“Que a dedicação, o entusiasmo, a fé daquelas primeiras irmãs que, há cem anos atrás, vieram para a nossa Ilha, continuem ainda hoje. Possa Santa Marie Rivier interceder por todos nós e animar os nossos corações de modo a deixarem-se moldar na atitude daquele que escuta e acolhe o Amor”, concluíu.


História de amor e fé
No início da celebração a Madre Superiora da Congregação, Maria dos Anjos, sublinhou que “celebrar estes 100 anos da chegada da Irmã Trindade e das suas companheiras à Madeira é vivenciar em alto grau uma história de amor e de fé, a visão alargada da Esperança e de compromissos que ultrapassaram o espaço e o tempo”.
Por isso, “fazer memória desta data, tão significativa para nós, é colocar em evidência o amor incondicional de Deus pela humanidade, a criatividade do Seu coração aberto em perfusão, a sua mão invencível e constante a conduzir os acontecimentos, nas encruzilhadas da vida e da história”.
Esta etapa, disse ainda a religiosa, “abriu caminhos de esperança, marcada por respostas audazes e criativas”, ainda que feita de “passos humildes e gigantes imersos no imenso amor eterno de Deus que se derrama no coração daquelas e daqueles que deixam tudo para seguir o mestre, para seguir o Deus da paz e da vida”.
“Queremos continuar a abrir caminhos de luz e a lançar sementes de fraternidade, de paz e de esperança”, disse ainda a religiosa, para logo acrescentar que estas sementes “nascem do encontro pessoal com a pessoa de Jesus”.
Depois de contar a história da congregação na Madeira e da sua fundadora, disse que a mesma quer continuar a seguir os passos desses tempos, mas sem medo de enfrentar os novos desafios sempre com os olhos postos em Nossa Senhora que “continua hoje a conduzir a barca” e a ser missionária da esperança” e a “fazer-nos avançar ainda mais”.
De referir que, como não podia deixar de ser, esta celebração contou com a presença de muitas irmãs da Apresentação de Maria, entre elas a Superiora Provincial da Província Portuguesa, Irmã Fernanda Pereira, que disse não poder ficar de fora destas celebrações tão importantes para as Irmãs da Apresentação, cujo trabalho se centra sobretudo na área da Educação, possuindo as religiosas vários estabelecimentos de ensino, nomeadamente no Funchal, em Santa Cruz e na Calheta.
Terminada a Eucaristia realizou-se um almoço comemorativo deste centenário, evento que contou com a presença do bispo diocesano.


















Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:
100 ANOS DA APRESENTAÇÃO DE MARIA NA DIOCESE
Sábado da Semana VII do TC (ímpar)
Catedral do Funchal, 1 de Março de 2025
“Acolher o reino como uma criança: educar ou ser educado?”
1. Há cem anos, as Irmãs da Apresentação de Maria chegavam ao Funchal. A Irmã Trindade (Leontina de Ornelas e Vasconcelos), acompanhada por três outras irmãs madeirenses, trazia consigo a fé, a sua consagração religiosa e o seu carisma, bem como a vontade de servir o povo madeirense, naquilo que, ao tempo, era a área pioneira da educação.
“Ensino-as e digo-lhes para te amarem muito”: foi deste modo que Santa Anne-Marie Rivier pediu, insistiu e convenceu Nossa Senhora — aquela Senhora da Piedade que, durante quatro longos anos, olhou por ela e a guardou, enquanto sua mãe a deixava sozinha para ir trabalhar. Santa Rivier convenceu a Virgem a dar-lhe a cura para poder ensinar a amar aqueles em quem a imagem do Homem novo ainda não tinha começado a ser esboçada (1Cor 15,44-49).
E, desde aquele dia 15 de agosto de 1777 (quando definitivamente obteve a graça da cura e se ergueu nas suas pequenas e doentes pernas), nem por isso abrandou a sua persistência: entregou-se primeiro a uma escola na sua aldeia e, depois, em Thueyts. E, de seguida, em muitas e muitas outras escolas — paixão sempre acompanhada diariamente pela consagração total a Deus e por inúmeros gestos de caridade.
2. “Ensino-as e digo-lhes para te amarem muito”. Em Santa Marie Rivier o ensino caminha sempre de mãos dadas com o conhecimento da fé. Nunca são duas realidades paralelas. Com efeito, o conhecimento de Deus traz consigo um novo horizonte de vida que facilmente conduz a querer conhecer mais e mais profundamente as obras de Deus na realidade da criação; mas, ao mesmo tempo, o conhecimento da realidade da natureza, criada por Deus, aponta sempre para o Seu Autor, o Deus que é a sua lógica, a sua razão de ser.
“Deu aos homens discernimento, língua, olhos e ouvidos, e mente para pensar. Dotou-os de razão e inteligência, e deu-lhes a conhecer o bem e o mal. Acendeu-lhes nos corações a sua própria luz e manifestou-lhes a grandeza das suas obras, para que louvem o seu santo nome e O glorifiquem pelas suas maravilhas, proclamando a magnificência das suas obras. Concedeu-lhes o dom do entendimento e deu-lhes como herança a lei da vida”: assim falava Ben-Sira (Sir 17, 1-13).
Educar é fazer surgir na mente e no coração de outros esta capacidade de conhecer sempre e cada vez mais a realidade que nos cerca e que somos, de modo a podermos subir do conhecimento da natureza — no meio dele e por seu intermédio — ao conhecimento de Deus. A inteligência com que Deus dotou o ser humano conduz à vida, e tem por finalidade conduzir-nos ao louvor de Deus, à glorificação das suas maravilhas. A que obra melhor poderá alguém consagrar a sua vida?
3. Mas o evangelho de S. Marcos convida-nos a completar esta atitude de quem conhece cada vez mais e melhor. O Senhor Jesus dizia: “Quem não acolher o reino de Deus como uma criança, não entrará nele” (Mc 10,15). Quer dizer: precisamos de aprender com as crianças para entrar no Reino.
Afinal: educamos ou somos educados? Creio que a resposta de Santa Maria Rivier seria sempre esta: educamos e somos educados. Educamos, conduzimos outros, ajudamos os mais jovens a conhecer a realidade — a realidade criada e o Criador que a criou — mas jamais poderemos deixar aquela atitude da criança que sabe depender constantemente do Pai e que, por isso, se encontra sempre aberta à novidade, disponível para ser ensinada, curiosa para ir mais além.
Talvez por isso mesmo aquela “pequenez”, também física, de Santa Maria Rivier: “A sua pequena estatura — disse um dia o antigo Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins — a sua pequena estatura aconteceu, só para que pudéssemos descobrir melhor a sua grandeza espiritual, só para que aparecesse no mundo como sinal do amor de Deus, só para que tivesse mais facilidade de correr, saltar e estar perto dos que andavam longe, dos que se tinham distanciado ou daqueles a quem alguém tinha afastado do caminho… que é Jesus”.
4. “Educar e ser educado”: eis aqui delineado, queridos irmãos, um programa de vida que é para todos, mas que se aplica de um modo muito particular às filhas de Santa Maria Rivier, as Irmãs da Apresentação de Maria, e a quantos estudam nas suas escolas.
Conhecer. Como Anne-Marie Rivier afirmou um dia: “Não há nada de mais consolador do que trabalhar para fazer conhecer e amar Jesus Cristo”. Ou, como dizia Ben-Sirá: “Os olhos dos homens viram a grandeza da sua glória e os ouvidos ouviram a majestade da sua voz. E disse-lhes: «Guardai-vos de toda a injustiça» e a cada um impôs deveres para com o seu próximo. Os caminhos dos homens estão sempre diante do Senhor e não podem esconder-se aos seus olhos”.
Possa a Apresentação de Maria continuar a ser esta presença assim inconformada. Inconformada porque o conhecimento (e, sobretudo, o conhecimento de Deus) nos conduz sempre a ir mais além, a procurar viver o infinito do amor; inconformada porque, se é verdade que na nossa Ilha já não nos encontramos na emergência educativa de há cem anos atrás, em tantos (demasiados) existe ainda o desconhecimento de Deus. Mas inconformada porque, mergulhando no oceano infinito que é Deus, jamais deixaremos de procurar entender quem Ele é e o seu amor; inconformada porque, cercados e invadidos pelo Amor divino, jamais deixaremos de olhar para o próximo e de o procurar perceber; inconformada porque o havemos também de conduzir ao louvor divino e, desse modo, de cuidar dele em todas as dimensões da sua existência, ajudando-o a ser mais, a viver melhor, a jamais esquecer o Amor como a razão do nosso viver e do nosso ser.
Que a dedicação, o entusiasmo, a fé daquelas primeiras irmãs que, há cem anos atrás, vieram para a nossa Ilha, continuem ainda hoje. Possa Santa Marie Rivier interceder por todos nós e animar os nossos corações de modo a deixarem-se moldar na atitude daquele que escuta e acolhe o Amor.























