Autobiografia do Papa Francisco

Foto: P. Giselo Andrade

A história começa com uma das maiores tragédias da navegação marítima: o naufrágio do navio “Principessa Mafalda”.  A embarcação, que habitualmente viajava entre Itália e Argentina, afundou no litoral da Bahia, no Brasil, provocando centenas de mortos, muitos deles imigrantes. “Os meus avós e o seu único filho, Mario, o jovem que viria a ser meu pai, haviam comprado o bilhete para aquela longa travessia” com destino a Buenos Aires, mas foram obrigados a adiar a viagem por não terem conseguido vender os seus bens a tempo. “Por isso, estou aqui agora”, escreveu o Papa Francisco no prólogo da autobiografia, lançada na terça-feira, dia 14 de janeiro, em mais de 100 países. 

Este episódio, o Papa escutou-o diversas vezes em criança, juntamente com muitos outros desastres ocorridos nessas viagens, onde a morte estava sempre à espreita. “Mesmo assim, partia-se. Sobretudo por pobreza, por vezes por raiva, para mudar a sorte”. 

Os seus avós, deixando a região de Piemonte no Norte de Itália, finalmente embarcaram no porto de Génova e chegaram a Buenos Aires, após duas semanas de navegação. “No porto de chegada, foram os três registados como migrantes ultramar”, referiu o Papa, acrescentando, “uma multidão havia partilhado com eles aquela longa viagem de esperança”.

“Também eu nascera numa família de migrantes, o meu pai, o meu avô, a minha avó, tal como tantos outros italianos, haviam partido para a Argentina e tinham conhecido a sorte de quem fica sem nada. Também eu poderia ter estado entre os rejeitados de hoje, de tal modo que no meu coração reside sempre uma pergunta: porquê eles e não eu?”, revelou Francisco.  

Por tudo isso, o Papa quis dirigir-se na sua primeira viagem fora do Vaticano à pequena ilha de Lampedusa, símbolo do drama dos migrantes no Mediterrâneo.

Compreende-se, assim, o que Francisco escreveu na introdução do livro, a autobiografia “não fala unicamente do que foi, mas do que será (…) Parece que foi ontem, mas afinal é amanhã”. 

Na verdade, a autobiografia do Papa Francisco é um convite a entrar no santuário da sua história pessoal e familiar e folhear o álbum das suas memórias. Com esta partilha o Papa dá-nos a chave de leitura para uma compreensão mais profunda do seu pontificado, onde também nós estamos incluídos. 

“O livro da minha vida é o relato de um caminho de esperança que não posso imaginar separado do da minha família, da minha gente, de todo o povo de Deus”, diz o pontífice, nas primeiras linhas da introdução.