Jubileu: Bispo do Funchal apelou aos cristãos da diocese que não tenham medo de “escancarar” as portas a Cristo

“Deixemos que Ele apareça e se mostre a todos, e modifique, converta, a vida interior de cada um de nós, mas também a vida pública (social, económica, política) da nossa Ilha”, pediu o prelado.

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal pediu hoje aos cristãos da diocese que não tenham medo de “escancarar” as portas a Cristo, apelando ainda para que “ajudemos [o Papa e] todos aqueles que querem servir a Cristo e, com o poder de Cristo, servir o homem e a humanidade inteira!”.

“Não, não tenhais medo! Abri — ou melhor, escancarai — as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador, abri os confins dos Estados, os sistemas económicos bem como os [sistemas] políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem o que está dentro do homem. Somente Ele o sabe!”, apelou D. Nuno Brás que, seguindo o estipulado na bula ‘Spes non confundit’ (A esperança não desilude), celebrou, neste dia 29 de dezembro, a abertura solene do ano Jubilar, segundo o ritual preparado para esta Eucaristia.

Hoje em dia, com muita frequência, explicou depois o prelado, “o homem não sabe o que traz no interior de si mesmo, no profundo do seu ânimo, do seu coração”. Com frequência, prosseguiu “vê-se inseguro sobre o sentido da sua vida sobre esta terra. É invadido pela dúvida que se transforma em desespero. Permiti, pois — peço-vos, imploro-vos com humildade e confiança — permiti que Cristo fale ao homem. Somente Ele tem palavras de vida; sim, de vida eterna!”.

E daí novo apelo para que “deixemo-nos, também nós, encontrar por este Jesus. Deixemos que Ele viva a nossa vida e a transforme. Deixemos que Ele apareça e se mostre a todos, e modifique, converta, a vida interior de cada um de nós, mas também a vida pública (social, económica, política) da nossa Ilha”.

Recorde-se que um Jubileu é celebrado na Igreja Católica de 25 em 25 anos e quer significar um Ano especial para celebrar o Aniversário do Nascimento de Jesus e, por isso, um Ano de graça, de reconciliação, de caridade, de perdão e misericórdia. 

Este Ano Santo terá como tema principal a Esperança. Jesus é a nossa Esperança e quanto o mundo precisa d’Ele. A Igreja católica não precisa apenas de reformas; precisa é de cristãos animados e entusiasmados pela força do Espírito Santo.

Peregrinação entre S. Pedro e a Sé

Na nossa diocese toda esta vivência do Jubileu começou com uma concentração dos fiéis na Igreja de São Pedro, às 16:30 horas, seguindo-se uma caminhada até à igreja da Sé onde se celebrou, pelas 18 horas a Eucaristia.

A peregrinação foi encabeçada pela imagem do Senhor dos Milagres de Machico que, depois de 211 anos, veio ao Funchal juntamente com alguns dos seus devotos pescadores, abrir o Ano Santo. Seguiram-lhe os tocadores de búzios os grupos de Folclore de Machico e do Caniçal, o prelado, cónegos, sacerdotes e acólitos. 

Não faltaram as entidades oficiais e os Irmãos do Santíssimo Sacramento, porta estandartes de várias entidades nomeadamente os escuteiros,  o muito povo intercalado por vários grupos de Folclore que se juntaram a esta manifestação de alegria e júbilo, que nem a chuva fez esmorecer, nomeadamente Monte Verde, Porto Moniz, São Martinho,  Santana, São Roque do Faial, Traga (Gaula), Água de Pena, Ponta do Sol, Ribeira Brava, Romarias Antigas do Rochão, Casa do Povo de São Martinho e ainda os Grupos Corais do Paul do Mar e do Imaculado e o Grupo de Violas da Casa do Povo de Santa Cruz.

De referir que na Sé as celebrações foram solenizadas por um coro formado por elementos de diversos coros paroquiais e tantos outros fiéis que se juntaram para cantar juntos sob a orientação do organista André Ribeiro, neste dia que é também dedicado à Sagrada Família.

A conclusão solene do Jubileu da esperança, com o encerramento da porta santa da Basílica de São Pedro, no Vaticano, acontece na solenidade da Epifania do Senhor, a 6 de janeiro de 2026.

A bula ‘Spes non confundit’ (A esperança não desilude) proclamou solenemente o início e fim das celebrações deste Ano Santo, entre 28 de dezembro de 2024 e 6 de janeiro de 2026, naquele que será o 27.º jubileu ordinário da história da Igreja.

Na noite da véspera de Natal, dia 24 de dezembro, Francisco presidiu à Missa, com abertura da Porta Santa do Jubileu 2025, na Basílica de São Pedro, e, esta quinta-feira, dia 26, o Papa abriu uma porta santa na prisão de Rebibbia, em Roma, num gesto inédito na história dos Jubileus, e presidiu à Missa.

O Papa Bonifácio VIII instituiu, em 1300, o primeiro Ano Santo – com recorrência centenária, passando depois, segundo o modelo bíblico, cinquentenária e finalmente fixado de 25 em 25 anos.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:

ABERTURA DO JUBILEU 2025

Sé do Funchal, 29 de dezembro de 2024
Domingo da Sagrada Família

Regressar, procurando Deus 

1. “Não O encontrando, voltaram a Jerusalém à sua procura. Passados três dias, encontraram-no no Templo”: deste modo S. Lucas resumia um dos momentos de maior aflição da Sagrada Família: tinham, “simplesmente”, perdido Deus! O Deus Menino que se encontrava ao seu cuidado, à sua guarda, tinha desaparecido. 

A existência daquela família tinha uma razão de ser: o cuidado do Deus Menino, concebido pelo poder do Espírito Santo no seio de Maria. Mas as circunstâncias humanas pareciam conjugar-se em sentido contrário: primeiro, a necessidade da deslocação a Belém; depois, a falta de lugar para eles na hospedaria; logo a seguir, a perseguição de Herodes e a fuga para o Egipto… Mas tudo isso parecia menor, frente à perda do Menino. Maria e José fizeram, de imediato, o caminho inverso. Regressaram a Jerusalém para O procurar.

Foram necessários três dias, povoados por momentos em que o desespero parecia ganhar: três dias de procuras sem sucesso, certamente entre os conhecidos, entre os becos e ruelas da cidade de Jerusalém. Finalmente, puseram a hipótese do Templo: talvez ali O pudessem encontrar! 

Até aquele momento, tinham, apenas, pensado como homem e mulher que procuram um filho desaparecido. Ao encontrá-lo no Templo, não encontraram apenas o filho (“Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura”): Jesus, quase em tom de correcção, fê-los tomar consciência de terem encontrado o próprio Deus (Porque me procuráveis [noutros lugares]? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de Meu Pai?”). Jesus que ensinava os doutores, faz com que Maria e José tomem consciência de terem encontrado o verdadeiro “Templo de Deus”, aquele que une céu e terra; a história e a eternidade; o divino e o humano.

Maria “guardava todos estes acontecimentos no seu coração”. Claro que aqueles dias ficariam para sempre na sua memória de Mãe; mas, “no seu coração” (o lugar onde o nosso ser se encontra com Deus), Maria ia mais longe e “guardava todos os acontecimentos”, fazendo com eles “história de salvação”. 

Ao encontrar o Deus feito Homem, encontraram, também, o sentido da história — da sua história, da história de Israel e da história do mundo: o encontro com o Menino no Templo descobria, um pouco mais, o sentido de tudo: Jesus não era, apenas, um menino — “o seu menino” — era Deus, o “Templo de Deus”. Aquele Jesus era o lugar de encontro entre Deus e toda a humanidade: Deus para todos, que a todos procura e de todos se quer fazer encontrado.

2. Procuramos, também nós, o Senhor. Como Maria e José, começamos por procurá-Lo de um modo muito humano, nos lugares humanos onde vivemos e por onde passamos. Aliás, a nossa vida — a vida de todos os seres humanos — é, toda ela, a procura do rosto de Deus. Com efeito, é o rosto de Deus que procuramos, ainda que alguns lhe chamem “realização profissional” ou “pessoal”, “felicidade”, ou até “prazer”. Procuramos o rosto de Deus, queremos encontrar-nos com Ele, em tudo o que fazemos e em tudo o que somos, mesmo de um modo inadvertido. 

Fazemo-lo, tantas vezes, com a mesma aflição de Maria e José, porque tantas vezes o perdemos na nossa vida… Não damos por Ele quando está ao nosso lado, mas sentimos-Lhe a falta quando O perdemos. Só que, ao contrário de Maria e José, temos tantas vezes medo de “regressar” ou de arriscar a procura onde Ele de verdade se encontra.

3. E onde o podemos encontrar? Ele vem até nós, como há 2024 anos, em Jesus, esse Deus feito homem — esse Deus que nos procura e não desiste de ninguém (de nós e de qualquer ser humano).

Olhando para o que somos, olhando para o modo como vivemos, podemos ter medo deste encontro com Deus, porque somos tão pecadores. Ou (como Adão) podemos ter vergonha, por Ele nos conhecer tão profunda e interiormente. Ou podemos, ainda, ter vontade de nos escondermos porque somos tão cobardes e O negamos tantas vezes. Podemos pensar que Ele se faz apenas encontrado na nossa intimidade e não na vida pública, na vida que aparece diante de todos. Podemos julgar que somos indignos deste encontro, e que a nossa vida está definitiva desgraçada. Temos “pudor” em nos mostrarmos dele; “medo” que nos apontem publicamente como cristãos; “preguiça” porque esta procura e este encontro nos dá fadiga…

Por isso mesmo, deixai que, no início deste Jubileu de 2025 — este tempo de graça e misericórdia, oferecido à Igreja e ao mundo —, vos recorde e faça minhas aquelas palavras de S. João Paulo II, ao iniciar o seu ministério como Sucessor de Pedro:

“Irmãos e Irmãs: não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder! E ajudai [o Papa e] todos aqueles que querem servir a Cristo e, com o poder de Cristo, servir o homem e a humanidade inteira! Não, não tenhais medo! Abri — ou melhor, escancarai — as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador, abri os confins dos Estados, os sistemas económicos bem como os [sistemas] políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem o que está dentro do homem. Somente Ele o sabe!

Hoje em dia, com muita frequência, o homem não sabe o que traz no interior de si mesmo, no profundo do seu ânimo, do seu coração. Com frequência vê-se inseguro sobre o sentido da sua vida sobre esta terra. É invadido pela dúvida que se transforma em desespero. Permiti, pois — peço-vos, imploro-vos com humildade e confiança — permiti que Cristo fale ao homem. Somente Ele tem palavras de vida; sim, de vida eterna!”.

Deixemo-nos, também nós, encontrar por este Jesus. Deixemos que Ele viva a nossa vida e a transforme. Deixemos que Ele apareça e se mostre a todos, e modifique, converta, a vida interior de cada um de nós, mas também a vida pública (social, económica, política) da nossa Ilha.