Salvador Pinto: O jovem sineiro da Assomada

Foto: Duarte Gomes

São sete os lances de 10 degraus que nos separam do nosso objetivo: chegar ao campanário da Igreja da Assomada, onde Salvador Pinto, o sineiro, toca manualmente os sinos. Com 15 anos o jovem seminarista diz que aprendeu a tocar de ouvido e a ver vídeos no Youtube. Quando ele está na torre sineira, toda a paróquia sabe que é por ele que os sinos tocam.

Seculares os sinos começaram por ser colocados para chamar paroquianos às atividades, mas tinham funções de “vigilância e de chamar a população em momentos de crise”.

Existe um sem número de toques e funções. Desde o toque de finados, para que os cristãos juntassem as preces pela alma do defunto, ao sinal de alarme, da súplica ou do parto difícil.

Antes do advento do rádio, da televisão e dos onipresentes smartphones, eram eles que traziam as notícias.

Em Braga foi mesmo criada uma associação que visa preservar este património imaterial que está cada vez mais ameaçado, uma vez que a maioria dos sinos está automatizada.

Entre outras coisas, esta associação quer que uma vez por mês os sinos sejam tocados manualmente em cada paróquia.

Quando é que começaste a tocar os sinos aqui da Paróquia da Assomada e porquê?

Eu comecei a gostar de sinos num funeral, quando eu tinha 5 anos, depois comecei a ver no Youtube muitos toques manuais de sinos e interessei-me por aquilo.  Então há uns dois, três anos tomei a iniciativa de perguntar ao Pe. António Paulo, que era o pároco da Assomada nessa altura, se podia subir e experimentar. Ele autorizou

Tinhas quantos anos e estás com quantos agora?

Devia ter uns 13 anos e agora tenho 15. Na altura comecei só com um toque e depois os outros fui ouvindo e testando até dar certo.

“Cada toque tem um significado. Num dia de festa ao meio-dia toco todos os toques festivos. Também toco as Ave Marias, um repique festivo”

Portanto, ninguém te ensinou?

Não, ninguém. Foi tudo de ouvido.  A primeira vez que toquei aqui, por exemplo, não sabia as notas, mas depois já fiquei a saber e foi mais fácil.

Mais fácil é como quem diz…

Sim não é fácil, porque os badalos são pesados e é preciso controlar cada um deles. Fazê-los começar a tocar e parar na hora certa.

Foto: Duarte Gomes

O ideal é ter duas pessoas, mas tu tocas sozinho…

Sim é verdade. O ideal é duas pessoas para que, quando eu não puder, essa outra pessoa toque em meu lugar. Mas eu toco só que exige mais de mim, mas gosto de o fazer. É um desafio… Tanto que já criei novos toques. Além disso a dificuldade está nos toques, há uns mais fáceis, outros que exigem mais rapidez…

Cada toque tem um significado…

Sim. Cada toque tem um significado. Num dia de festa ao meio-dia toco todos os toques festivos. Também toco as Ave Marias, um repique festivo que, lá está, já exige mais de mim, nomeadamente uma maior rapidez de movimentos, mas não é nada que eu não consiga fazer e vale a pena. Depois há outros toques. Por exemplo se está a sair um funeral e o defunto é homem, é um toque, mas se for mulher já é outro. Também há o toque que se toca antes das celebrações, para chamar as pessoas para a Missa e o toque de finados.

E depois há o bailinho…

Isso é só uma brincadeira, que não convém tocar muito. Mas mostra a versatilidade dos sinos. Pode-se tocar várias coisas com eles.

Tocar os sinos é uma forma de louvar a Deus…

Sim, acho que sim… É mais uma forma…

“o ofício de sineiro já está a se perder e temos que manter a tradição. Aliás, na Assomada, são tocados os sinos manualmente todos os domingos 30 minutos antes da missa”.

Tu estás no Seminário. Em que ano?

Estou no 9º ano na escola e no Seminário já é o meu terceiro ano.

É para continuar…

Sim é para continuar. A tocar os sinos e a frequentar o Seminário. É mesmo isso que eu quero para a minha vida.

É preciso ter algum conhecimento de música para tocar os sinos?

Sim. É preciso ter assim um certo conhecimento das escalas musicais. Os nossos sinos aqui da Assomada estão organizados segundo uma escala: o sino maior é Dó, o grande é Ré, o médio é Mi e o pequeno é Fá. É a partir desse conhecimento e de ouvir que toco.

Então e se mais alguém quiser aprender contigo esta arte?

Não há problema. Se alguém manifestar interesse eu falo com o pároco e pergunto se posso ensinar. Eu estou disposto a ensinar, porque isto é um ofício que já se está a perder. 

O ofício de sineiro…

Sim. É assim que se chama. E se não me engano, aqui na Madeira, devemos ser por volta de uns cinco ou seis. De maneira que é sempre bom mais alguém aprender. Claro que os sinos já são quase todos automáticos, aliás há pouco ouvimos eles tocarem e não estava lá ninguém, mas o toque manual tem sempre outro valor.

Em Braga foi criada uma associação de sineiros que visa preservar este património e que até quer que, ao menos uma vez por mês, os sinos sejam tocados manualmente em cada paróquia. O que pensas sobre isto? 

Acho uma ótima ideia, porque o ofício de sineiro já está a se perder e temos que manter a tradição. Aliás, na Assomada, são tocados os sinos manualmente todos os domingos 30 minutos antes da missa.