Histórias de homilias em ano de Centenário

Padre Aires Gameiro | Foto: Duarte Gomes

Pano de fundo destas histórias: profeta Ezequiel, S. Marcos e S. Bento. Há dias, o Papa Francisco deu mais um alerta sobre as homilias nas missas. O Papa deseja que os batizados participem nas missas e não abandonem a prática religiosa devido a homilias arrastadas e mal preparadas. Pobre de mim, e de tantos sacerdotes, que não falam como Jesus falou na sinagoga da sua terra, que levou os ouvintes a exclamarem que sabedoria é esta!?

Ocorreu-me uma história. A igrejinha inundada de flores comportava mais de 600 pessoas, bem apertadas, para uma missa nova cantada; e o povo cristão da grande paróquia acorreu até encher a igreja para a festa, tanto mais que pregava, não a homilia, mas o sermão, um pregador famoso e sabia-se que muitos iam ficar fora por não caberem. A missa começou pelas 9 horas. Chegou o momento do sermão no púlpito. O pregador falou, gesticulou, levantava a voz, e os que ficaram fora ouviam nos altifalantes ou conversavam. Desenvolveu os temas preparados durante meia hora; e entusiasmou e estendeu-se como se esperava e o povo não arredou pé. E passou uma hora e ele continuava. E pregou, pregou, com frases em latim, exemplos e exortações. Tinham passado quase duas horas e ele passou à peroração. A missa continuou e a comunidade cristã, ainda em jejum, ouviu os cânticos da missa e o Te Deum e ofertas preciosas, assistiu a toda missa e comungou, talvez, em número de 800 pessoas ou mais e, por fim, veio o beija-mão do sacerdote. Quando acabou a festa eram 14 horas e ninguém estava cansado. E, finalmente, puderam comer. Histórias, pensará alguém. Esperem. Esta festa celebrou-se no dia 29 de junho de 1940 na capela da Casa de Saúde S. João de Deus, freguesia de Santo António, Funchal, que está agora em festa de Centenário. O sacerdote era das Courelas e tem parentes por aí. Celebrou o Pe. David Freitas Capelo, acompanhado de mais três padres. O pregador foi o Pe. Pombo, vice-reitor do seminário. Os pais eram Dona Clara Amélia Capelo e Francisco de Freitas Capelo, que desde que o filho iniciou os estudos no seminário de Angra do Heroísmo, foi guardando o vinho da sua colheita para o almoço da festa e ofereceu bordados, paramentos, cálice, etc. (cf. A. G., História da Casa…vol. I, pp.301-303).

Ai de mim e de muitos sacerdotes! Será que as homilias suscitam a fé nos batizados? Será que adormecem os ouvintes e os levam a sair da igreja durante a homilia, talvez para fumar um cigarrito? Ou os adormecem? No meu tempo de criança, eram bem-vindos os pregadores das missões que, já de noite, não deixavam dormir: gritavam lá do púlpito, contavam histórias e anedotas com muitos gestos até fazer rir. 

E o profeta Ezequiel ia ter ouvintes, sim, mas rebeldes, revoltados, de cabeça dura e coração teimoso. Escutassem ou não, saberiam que algum profeta dizia a palavra do Senhor e não dele (cf.Ez.2, 2-2-5). Iam crescer na fé? Alguns. E os ouvintes de Jesus em Nazaré? Eram muitos e até se admiraram da homilia de Jesus e da sua sabedoria. Com muita fé e conversão? Nem por isso. É o próprio Jesus que o diz: desprezaram o melhor pregador de sempre, apesar da sua sabedoria. Era gente de pouca fé. Mesmo assim ainda obtiveram de Jesus algumas graças de cura de doentes (cf. Mc.6,1-6). Ai dos pregadores e ai dos ouvintes! Será que os frutos de uma homilia dependem da sua duração? Oito minutos estimulam mais fé que quinze ou dois minutos podem preparar para uma graça maior?

S. Paulo ouviu uma homilia de apenas uma pergunta e uma resposta: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” “Eu sou aquele que tu persegues”. E agora sente a picada do espinho e Satanás a esbofeteá-lo para não se ensoberbecer por tão altas revelações. E escuta outra homilia do Senhor, em resposta à sua oração para ser libertado dos sofrimentos. Apenas quatro palavras:” Basta-te a minha graça” (cf. 2 Cor. 12,7-10). Parece que o Papa Francisco tem razão: os frutos não dependem de muitas palavras, nem dos padres, nem da chusma de comentadores dos meios de comunicação, secularistas, e dos da Igreja. Para S. Bento, Patrono da Europa, a celebrar no dia 11 de julho, bastam duas: “Ora et Labora”, reza ao Pai do Céu a pedir o que não depende de ti, e trabalha para o bem de todos.