Personalidade, algoritmos e manipulação

Padre Aires Gameiro | Foto: Duarte Gomes

Ainda recentemente discorremos sobre as diferenças das pessoas e a sua igual dignidade. Hoje vamos expor algumas ideias simples que nem chegam a ser o a b c da perda inconsciente da liberdade. Será roubo? Vai ser apenas um convite a despertar para o assunto. Para mais, ler o que disse o Papa Francisco na cimeira do G7 (países mais ricos, serão?), sobre a maravilha e os riscos da Inteligência Artificial. Os estudos da personalidade: modos de ser, agir e desvios de caráter, iniciados na antiguidade, desenvolveram-se nos séculos XIX e XX com nomes de (bio) tipologia, caracterologia, a analisar gente diferente e degenerados. Só um autor (Salvator R. Maddi, 5ª ed. 1980) descreve uma vintena de teorias da personalidade. Estas estudam as pessoas em ordem ao melhor conhecimento de tipos e grupos semelhantes nos traços, comportamentos e patologias. Usam métodos de observação e registo de expressões, traços e hábitos; e escalas de questões e respostas em chave por categorias semelhantes. Nem sempre servem só para ajudar as pessoas; também levam a ensombrar a sua dignidade. 

Os algoritmos obtêm-se por cálculos do número de escolhas de interesses e gostos feitos por pessoas concretas, registadas nos servidores da Internet. Esses dados predizem, com probabilidade, as decisões dessas pessoas em situações previstas ou criadas artificialmente em que tenham que escolher uma de várias alternativas. A Internet com métodos estatísticos da Inteligência Artificial, fazem cálculos quase instantâneos a partir dos registos algorítmicos. Podem ser utilizados sem respeitar a dignidade das pessoas e o bem comum, quando influenciam e  manipulam a liberdade de grupos para ficarem dependentes de interesses alheios nas decisões, eleições, compras, consumos, etc.  

A manipulação das interações sociais, políticas e religiosas com as técnicas de Inteligência Artificial, já são ameaça omnipresente, escondida, difícil de prevenir. Misturam-se com as de  publicidade e marketing liberalista para através do inconsciente subliminal levar a pessoa (que não dá por isso) a fazer o que outros mandam. A pessoa faz, mas não sabe que foi levada a fazer por essas mensagens escondidas. Ficam robôs do smartphone, jogos, droga, álcool e outros vícios por processos de alienação, sedução, confusão entre valores e prazeres, pressões conformistas com modas e ideologias. Utilizam mensagens de suborno, ameaça, promessas de compensações semelhantes aos processos de lavagem ao cérebro de forçada conversão religiosa e política; criam ansiedade angustiante e a tensão de que é melhor fazer o que dizem e mudar. A Inteligência Artificial está a tornar-se um desafio ético (algor-ético), diz o Papa) e um busílis de “caixa de pandora” donde saem sempre mais problemas. Importa, porém, não cair no erro de que é um mal. É ferramenta que pode ser usada para o bem e para o mal das pessoas. E sobre isso convém voltar às teorias da personalidade e do caráter.

O núcleo da personalidade vem da biologia inata, do ADN mistério e maravilha, fonte de motivações de vida resistente que irão emergir como tendências e sentido de vida, autorrealização, e de destruição e morte; outros elementos vêm do adquirido das relações com o ambiente físico, mental e social sob a forma de conhecimentos e capacidades (consciência) de decidir, e de fazer o bem e de fazer o mal. Poderíamos dizer que cada pessoa é um ser em desenvolvimento a partir do núcleo de dentro e de muitos tipos de enxertos, vindos de diversos ambientes sem excluir os transcendentes ao espaço e tempo, os da revelação de Deus e de Jesus, e se inserem nela. A personalidade é uma síntese única, viva, consciente de si, mas não de todos os seus elementos. A pessoa e cada personalidade excedem as próprias capacidades e as dos especialistas. Os estudos da pessoa e da personalidade serão sempre um desafio ganho e perdido, infindável. E, mais, ainda, quando se estudam as perturbações da personalidade e os seus comportamentos dominantes ou caráter. Talvez por as pessoas serem realidades criadas à imagem e semelhança de Deus. Por isso é que os abusos da nova ferramenta, a Inteligência Artificial, se tornam um atentado grave que atinge as pessoas, as sociedades organizadas para o bem comum e o respeito religioso devido a cada pessoa e a Deus, presente por Cristo em cada pessoa. A festa do nascimento de S. João Batista (24 de junho), santo popular, bem pode ajudar a refletir e louvar o Criador e reverenciar a maravilha de cada pessoa mesmo antes de nascer.