Dia do Clero: D. Nuno Brás lembra que sacerdotes são sentinelas de Deus neste mundo

Foto: Duarte Gomes

A Igreja celebra no dia do Sagrado Coração de Jesus, 7 de junho, o Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes, dia em que na Diocese do Funchal é celebrado o Dia do Clero.

O momento alto do dia foi a celebração da Eucaristia, no Mosteiro da Caldeira, em Câmara de Lobos. A mesma foi presidida por D. Nuno Brás que, numa homilia centrada na paternidade de Deus, lembrou aos sacerdotes presentes que eles são “sentinelas de Deus neste mundo que tende a esquecer-se dele”.

“Somos aqueles que, constantemente, chamam a atenção dos nossos contemporâneos para a presença, para o amor, para a paternidade divina. Não deixemos nunca de o ser, de exercer essa missão essencial para a qual o próprio Deus nos chamou e nos consagrou”, apelou o prelado. 

Neste contexto, o bispo diocesano pediu aos sacerdotes da diocese, que têm a Missão de ser “presença do Pai e do seu amor”, que a todos convidem a “experimentar e a viver o amor paterno de Deus”.

“A nossa paternidade é declinada de um modo diferente da paternidade biológica ou humana, mas não é uma paternidade menor” e deve servir para “ensinar a caminhar, ajudando uns a dar os primeiros passos na fé, erguendo outros que um qualquer acontecimento fez cair, ajudando-os a não desistir da busca de Deus, fazendo-os ganhar sempre novo alento. E àqueles que nunca desistiram, havemos de os ajudar a não ficarem satisfeitos com o caminho percorrido”.

Por outras palavras, há que estar pronto para inquietar o nosso mundo, acordar aqueles que parecem dormir por entre os ritmos alucinantes da sua vida. E “inquietarmo-nos também uns aos outros”. 

Neste sentido o prelado fez um apelo para que “não deixemos nunca de oferecer, em cada momento, este sinal da presença e do amor, da paternidade divina. Que a graça de Deus sempre nos assista nesta tarefa, da qual depende a salvação de todos”.

No final da Eucaristia, concelebrada pelo bispo emérito D. António Carrilho pelo vigário geral cónego Fiel de Sousa, coube ao Pe. Pedro Nóbrega, pároco de Câmara de Lobos, agradecer a presença dos bispos e sacerdotes e às Irmãs do Mosteiro por o terem disponibilizado para este encontro que, mais do que as diferenças, mostra que os sacerdotes “partilham muitos dons e que bom que é quando esses dons são valorizados e partilhados” e que o sejam sempre “sem medo de sermos padres”. 

O sacerdote agradeceu também aos “colegas de arciprestado” pelo empenho colocado na organização deste dia e a todas as demais entidades que colaboraram.

Também as Irmãs, que tanto rezam pelos sacerdotes, quiseram agradecer “este momento celebrativo”, para “dar graças a Deus pelo sacramento da ordem” e neste ano da oração “queremos reafirmar a certeza de vos acompanhar nas vossas alegrias e tristezas” bem como aos seminaristas e a todos aqueles que estão em processo de discernimento vocacional.

Por último usou da palavra o vigário geral. Fê-lo para agradecer a quem teve a ideia de realizar o Dia do Clero no Mosteiro da Caldeira, sublinhando que ser esta uma maneira de mostrar às Irmãs que se elas rezam pelos sacerdotes, também “amam e estimam muito as irmãs e queremos a continuar a cooperar”, principalmente para que não nos faltem vocações.

Homilia de D. Nuno Brás:

SOLENIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
Dia do Clero
Mosteiro da Caldeira, 7 de Junho de 2024

“Dobro os joelhos diante do Pai, de quem recebe o nome toda a paternidade nos céus e na terra” (Ef 3)

Jesus não quis nunca ser Pai. Ele é o Filho por antonomásia. E, no entanto, as leituras de hoje convidam-nos a dar atenção ao amor paterno, certamente porque é ele que brilha no rosto de Jesus, que faz bater o Seu coração. Tudo em Jesus nos fala do Pai e do seu Amor. Olhando para o coração de Jesus, descobrimos o amor do Pai e perdemo-nos no seu oceano infinito, somos por ele atraídos, alimentados, convertidos. 

Assim, esta Solenidade do Sagrado Coração de Jesus constitui um convite a meditarmos na paternidade de Deus. Detenhamo-nos, por isso, ainda que brevemente, a contemplar este divino amor paterno, tal como o Profeta Oseias no-lo apresentava na Iª Leitura, para aprendermos um pouco dessa paternidade divina que havemos de tornar presente em cada momento, em cada palavra, em cada gesto.

Com efeito, na paternidade (espiritual mas real) se resume grande parte da nossa missão de sacerdotes. O povo de Deus olha-nos como pais na ordem da fé”, espera de nós uma paternidade que não lhe poderemos negar. Quer e espera encontrar em cada padre a presença do amor paterno de Deus.

1. Comecemos por tomar consciência de que a paternidade não é algo de secundário. Trata-se de gerar vida, e de gerar para a vida. A paternidade de Deus é a fonte de toda a realidade — fonte eterna de onde brota todo o eterno amor trinitário, fonte de tudo quanto vemos e de tudo quanto somos — nós e qualquer outro ser humano. 

Toda a paternidade humana encontra pois a sua origem na paternidade de Deus, como recordava S. Paulo. A paternidade (mesmo naqueles pais que não têm fé) traz pois consigo sempre qualquer coisa de divino, de sagrado. Por isso, em tempos não muito distantes, era habitual nas culturas marcadas pela fé (como era a nossa cultura madeirense), os filhos pedirem a benção ao Pai. Tal gesto era o reconhecimento de um verdadeiro ministério sagrado, desempenhado pelos pais, essencial na formação de todos os seres humanos. A paternidade (ao lado da maternidade) dá forma a um ser humano completo.

Também na vida espiritual a paternidade divina há-de constituir o ambiente, o oceano em que somos convidados a viver. Com efeito, a vida espiritual consiste em nos deixarmos encontrar por este amor divino; em nos deixarmos vencer por Ele, de tal modo que Ele possa tomar conta de nós.

Também a nossa missão de sacerdotes, de padres. Somos a presença do Pai e do seu amor. O seu objectivo é o de convidar todos a experimentar e a viver o amor paterno de Deus. A nossa paternidade é declinada de um modo diferente da paternidade biológica ou humana, mas não é uma paternidade menor.

“Ensinava Efraim a andar”

Na Iª Leitura, o Profeta refere que, depois de dar a existência ao povo, Deus tem para com Israel uma primeira atitude paterna: a de ensinar a andar”. 

A paternidade ensina. Ensina a caminhar. Longe de ser como o mestre que debita conhecimentos de uma cátedra, indiferente às capacidades e aos resultados dos discípulos, o pai ensina trazendo nos braços”. É um ensino feito todo ele de experiência de vida, de paciência, de vontade de transmitir aquilo que o Pai sabe (“Já não vos chamo servos mas amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai”, não hesita Jesus em dizer – Jo 15,15).

O Pai começa por ajudar a criança a erguer-se e a dar os primeiros paços; ampara-a; ajuda-a a adoptar aquela atitude que nos caracteriza a nós, seres humanos. Depois dos primeiros pequenos passos vem o caminhar firme e, finalmente, a capacidade de correr. E o Pai, na sua sabedoria, continuará sempre a convidar o filho a ir mais longe, a percorrer novos caminhos.

s, padres, somos convidados a ensinar as nossas comunidades a caminhar, e a caminhar com elas na vida da fé. Esse é também um dos principais, senão o principal ponto da nossa missão: ensinar a caminhar, ajudando uns a dar os primeiros passos na fé, erguendo outros que um qualquer acontecimento fez cair, ajudando-os a não desistir da busca de Deus, fazendo-os ganhar sempre novo alento. E àqueles que nunca desistiram, havemos de os ajudar a não ficarem satisfeitos com o caminho percorrido. Pelo contrário: o nosso Pai é um oceano infinito de amor que jamais alguém conseguirá esgotar. Haverá sempre caminho a percorrer, como cristãos e como comunidade.

Atraía-os com laços humanos, com vínculos de amor

A atractividade encontra-se hoje na moda. Parece que, para que algo aconteça, tem que ser atractivo. A profissão deve ser atractiva, a vida familiar deve ser atractiva, o lazer deve ser atractivo… Certamente, tudo isso é fruto deste nosso mundo que olha o eu e a satisfação dos seus desejos presentes como medida de todas as coisas.

Mas isso não significa (bem pelo contrário) que o desejo seja em si algo de negativo. Deus atrai-nos. O Profeta não hesita em dizê-lo. Aliás, todo e qualquer desejo é sempre sinal desse desejo primeiro  que todos e cada um sentimos de Deus. O desejo mostra como cada um de nós é incompleto, inacabado — os próprios vícios, enquanto desejos que sentimos de algo que não nos consegue saciar, mostram-nos que apenas Deus constitui Aquele que pode resolver esse nosso impulso instintivo. Deus atrai-nos. Atrai-nos, mesmo com laços humanos, com vínculos de amor.

O nosso ministério, a nossa pastoral não podem, por isso, deixar de ter em conta esta dimensão. Sim: precisamos de atrair, de mostrar como é bom, como é feliz ser cristão, como isso nos ajuda a ser melhores; como, sem a vida da fé, não existe ninguém completo, acabado. Não se trata, certamente, de vender a graça a preço de saldo, de baixar a exigência do amor. O amor verdadeiro é exigente mas é, igualmente, atraente, belo. A nossa vida pastoral há-de, necessariamente, ser marcada por esta dimensão da paternidade divina.

“Inclinava-me para lhes dar de comer”

Uma outra nota que o Profeta Oseias oferece da paternidade divina é a de o próprio Deus se inclinar sobre o seu povo para lhe dar de comer. O hino da Carta aos Filipenses dirá que Jesus “que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se até à morte e morte de cruz” (Filp 2). Sim: sabemos com que realismo aquele inclinar-se divino para alimentar o seu povo foi vivido em Jesus de Nazaré. Foi um descer à condição de escravo, de mortal; foi e é um descer à quotidiana condição de pão para que os filhos sejam alimentados com o Pão do Céu.

Como poderíamos nós, sacerdotes, padres, presença da paternidade divina, viver de outro modo que não assim, inclinados, vergados, servos disponíveis para oferecer o Pão que é Jesus àqueles que se encontram ao nosso cuidado?

Caros Padres, somos sentinelas de Deus neste mundo que tende a esquecer-se dele. Somos aqueles que, constantemente, chamam a atenção dos nossos contemporâneos para a presença, para o amor, para a paternidade divina. Não deixemos nunca de o ser, de exercer essa missão essencial para a qual o próprio Deus nos chamou e nos consagrou. Inquietemos o nosso mundo, acordemos aqueles que parecem dormir por entre os ritmos alucinantes da sua vida. E inquietemo-nos também uns aos outros. 

Não deixemos nunca de oferecer, em cada momento, este sinal da presença e do amor, da paternidade divina. Que a graça de Deus sempre nos assista nesta tarefa, da qual depende a salvação de todos.