Na tarde do Domingo de Pentecostes, o adro da igreja do Estreito de Câmara de Lobos estava repleto de gente para a arrematação das charolas. O responsável, erguendo o braço, iniciou o leilão, apresentando uma das iguarias mais cobiçadas do dia: bacalhau assado e vinho. Depois seguiram-se os numerosos produtos que compunham as charolas: feijão, cebolas, abóboras, bolos variados, vasos com plantas, frutas diversas, toalhas bordadas, e até um galo vivo.
As charolas do Estreito de Câmara de Lobos são muito particulares. Não possuem aquela configuração em forma de pinha que habitualmente encontramos noutras paróquias, mas têm o formato de um barco, feito numa estrutura em madeira. No mastro é colocado uma placa com o nome do sítio. Dessa extremidade, amarram-se barbantes até à proa e à popa, onde são presas por alfinetes, as notas de dinheiro oferecidas.
Antigamente, as charolas eram trazidas aos ombros e por isso têm as varas de madeira, como encontramos nos andores dos santos. Na verdade, esse é o significado comum da palavra charola, “espécie de andor ou padiola que se usa para transportar imagens religiosas em procissões” (Dicionário de Língua Portuguesa, Academia das Ciências de Lisboa). Essa aceção está presente num alvará régio que em 1579 determinou que nas procissões da cidade do Funchal os leigos não deveriam ir com tochas ou círios “junto da charola ou do pálio”.
Em português, charola pode significar também o nicho onde se colocam as imagens de santos e a nave que rodeia o coro e o altar-mor de uma igreja. Além desse uso comum, a palavra possui diversos significados regionais: procissão, carga de lenha (Trás-os-Montes); presépio, grupo que canta as janeiras (Algarve); enfeite floral colocado na parte mais elevada dos mastros das festas dos Santos Populares (Alentejo e Algarve); patranha, buraco feito na parede onde se guardava o sal (Açores); grande chama ou labareda (Alentejo). Os “charolas” são ainda, a alcunha das gentes de Vilar, freguesia de Ferral, Montalegre.
Na Madeira, o Padre Fernando Augusto da Silva explicou que charola é uma “pequena armação de madeira ou vimes coberta com frutos e diversos produtos da terra destinada a despesas em festas religiosas” (Vocabulário Madeirense, 1950). O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa acrescenta também que na Madeira “as pessoas mais abastadas” ofereciam charolas “aos abades, na época do Natal”.






































