Quinta-feira da Ascensão

Foto: P. Giselo Andrade

As pétalas de rosas que esvoaçavam do camarim da igreja da Ponta do Sol caíam em cascata na zona do altar-mor, sob o olhar atento dos fiéis, cumprindo a tradição de “Quinta-feira da Ascensão”. 

O momento é acompanhado pelo coro que entoa o salmo 8, “Senhor, nosso Deus, como é admirável o vosso nome em toda a terra!”. A este cântico o povo chama de “Noa”, indicando que, em tempos remotos, o lançamento das pétalas ocorria durante a oração das 15 horas da Liturgia das Horas, correspondente à Hora Intermédia de Noa.

O etnólogo português, Ernesto Veiga de Oliveira, ao falar sobre “A Quinta-feira de Ascensão em Portugal” (1957), relata diferentes práticas tradicionais desse dia. Por exemplo, no sul do país, a data é comemorada como o “dia da espiga”, em que as pessoas recolhiam dos campos um pequeno ramo composto por espigas (trigo, mas também centeio, cevada e aveia), ramos de oliveira e diversas flores tais como rosas, papoilas, malmequeres, margaridas, etc. Esse ramo era pendurado dentro de casa e mantido até o ano seguinte, quando era substituído por um novo. Essa prática era associada à ideia de “virtude benfazeja”. Em Elvas, o ramo era apanhado do meio-dia à uma hora, na chamada “reza da hora” (Hora Intermédia de Sexta). A recolha das plantas era acompanhada com cinco Pai-Nossos, Avé-Marias e Glórias ao Pai “para que se não acabe em casa, nesse ano, o trigo, o azeite, o ouro e a prata”. Diz o cancioneiro alentejano que “Tudo vai colher ao campo/ Quinta-feira d’Ascensão,/ trigo, papoila, oliveira./p’ra que Deus dê paz e pão”. 

Escreve o mesmo etnólogo que “na região de Elvas, finda, na igreja, a reza da hora (…) soltam-se, do coro e das tribunas, passarinhos, ao mesmo tempo que sobre os fiéis se espalham flores desfolhadas”. Também em Branca (Albergaria-a-Velha), depois da missa “os mordomos andam com açafates de pétalas de flores, atirando-as ao povo, que as apanha e leva para casa, para as enterrarem nos batatais, a fim de os preservar do ‘arejo’”. 

A celebração da Quinta-feira da Ascensão na paróquia da Ponta do Sol não só revela a ligação de tradições entre o Continente e a Madeira, como também algumas particularidades madeirenses, uma delas é a presença de saloias na missa, que no momento do “levantar a Deus” lançam pétalas de rosas ao Santíssimo Sacramento, colorindo o altar.