Ternos encontros com minha Mãe  

Padre Aires Gameiro | Foto: Duarte Gomes

A minha mãe encontra em si o seu bebé e diz ao pai: já não contava. Ia eu fazer sete, e ela, comigo ao lado, diz à amiga: este rapazito? «é o Aires, o meu mais novo; já não o esperava». «Vai à escola este ano». Mais tarde fiz as contas. Minha mãe sentiu-me em si, aos 44, sem me esperar. Meu primeiro encontro com ela? Quando me deitava no berço, lembro-a a ensinar-me a rezar ao Pai do Céu: «com Deus me deito, com Deus me levanto; em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo». No regaço, acariciava-me a cabeça a ver se tinha piolhos. E antes dos oito, sob carvalhos seculares, na ida à igreja, ensinava como confessar-me para a primeira comunhão.

Na minha primeira ida a Fátima, em 1937, a pé, com ela, e cento e tal da paróquia, encontrámos outra Mãe. Nas comidas, encontros diários, nunca todos os três irmãos e as três irmãs, minha mãe, em tempo de racionamento e guerra, enternecia-nos: «gosto mais de vos ver comer que comer eu mesma». Nunca faltaram víveres da dezena de pequenos campos e dos currais. As vendas permitiam, ainda, ter mercearia e sardinhas (uma ou só meia); e artigos das feiras dos 12 e dos 24. Meu pai era um faz-tudo: molins, cestos, baldes, carros de mão, colheres, serração braçal e carrinhos de brincar. Minha mãe fiava e tecia: lã, linho e mantas de retalhos no tear, “truca-truca”, horas a fio. A lã era das ovelhas do mini-rebanho; trapos reciclados; e linho semeado e preparado por meu pai. Minha mãe era “a mulher virtuosa…”: fiava e tecia lã e linho…dava pão à sua casa… e aos pobres, à porta, a rezar a esmola (cf.Prov.31). E cedo me entregou à Mãe de Nazaré, aos 18 anos; para  encontros, além tempo e espaço, no instante eterno.