O bispo do Funchal defendeu esta manhã que “necessitamos de uma cidade que ajude os cidadãos a serem felizes”. D. Nuno Brás, durante a homilia da Eucaristia Solene do Voto a São Tiago Menor, que teve lugar esta quarta-feira, dia 1 de maio, na Igreja do Socorro, deixou claro que isso é uma tarefa de todos.
“Não nos basta uma cidade eficiente e segura. Necessitamos, todos nós, seres humanos, de uma cidade que ajude os cidadãos a serem felizes. Quer dizer: a realizar todas as potencialidades que trazem consigo, sejam elas inatas ou tenham surgido como fruto da convivência e do diálogo inter-pessoal”, vincou o prelado.
Depois de frisar que a cidade existe “porque nós, seres humanos, não fomos criados para vivermos isolados, cada qual por si, mas para vivermos em comunidade, uns com os outros; para nos entreajudarmos e encontrarmos no outro aquele que nos ajuda a ser mais”, vincou que “só desse modo (com os outros) somos capazes de ser verdadeiramente nós próprios. Somos, neste viver em comunidade, efectiva imagem do próprio Deus: Trindade de pessoas em que o amor constitui a realidade central, o elo que manifesta o ser, que dá razão e consistência a todo o tecido social”.
“Não devemos, portanto, olhar a cidade de um modo simplista como apenas uma realidade útil para o melhor desenrolar do quotidiano. Nem, tão-pouco, apenas para uma melhor defesa contra forças adversas, sejam elas fenómenos naturais, animais ou outros grupos humanos que procuram ocupar o nosso espaço”, constatou, mas tudo isso é mais fácil “quando o quotidiano é vivido como vizinhança; a defesa e a segurança são maiores quando nos organizamos e entreajudamos”.
Mas a cidade tem raízes bem mais profundas e não nos concebemos sem os outros. “O ser humano jamais se bastou com as conquistas que conseguiu alcançar. Em cada um de nós e em todos existe esta necessidade de ir sempre mais longe; de procurar novos e melhores caminhos para a realização das expectativas individuais e comunitárias — e esse é um dos grandes sinais que mostra como Deus (infinito amor, infinita sabedoria, vida eterna) é a meta que, efectivamente, cada ser humano traz dentro de si, que o queira ou não. Somos os eternos insatisfeitos porque apenas Deus pode saciar o nosso desejo de plenitude”.
Por isso, e uma vez mais, nos “deparamos com o grande objectivo da cidade — dos seres humanos que a habitam numa entreajuda vital: a cidade existe de facto (mesmo que muitos não sejam capazes de o afirmar) para ajudar todos no conhecimento de Deus”.
Por fim, o prelado lembrou que “foi o Conselho da nossa cidade que, há 503 anos, teve a iniciativa de encontrar para ela um padroeiro em S. Tiago Menor. Fê-lo na emergência do surto de peste. Mas continuou a prestar à figura do Apóstolo a veneração de quem reconhece nele um intercessor e um exemplo de vida”.
“Na figura sábia do santo primeiro Bispo de Jerusalém, acolhamos também nós, cidadãos do Funchal, neste ano de 2024, o convite de proporcionar a todos os habitantes da nossa cidade aquilo de que necessitam para viver dum modo feliz — que o mesmo é dizer: o convite a mostrarmos a todos o caminho verdadeiro para o conhecimento de Deus”, concluiu.
Durante esta celebração, em que se rezou por toda a diocese, mas de um modo particular pela cidade do Funchal, a presidente da câmara, Cristina Pedra, voltou a depositar a Chave da Cidade aos pés da imagem de São Tiago Menor e a vereação as suas varas junto ao altar, num gesto de agradecimento, mas também de entrega e de confiança em São Tiago Menor.
De referir que ainda que, a anteceder esta Eucaristia, realizou-se a tradicional procissão entre a Sé e o Socorro, que contou a participação dos presidentes das Assembleias Regional e Municipal, do Representante da República e do Governo, além de membros de órgãos regionais e nacionais, civis e militares que depois participaram na Eucaristia.
































Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:
SOLENIDADE DE S. TIAGO MENOR
1 de Maio de 2024
“Encontrarás o conhecimento de Deus” (Prov 2,5b)
1. S. Tiago Menor, primeiro bispo de Jerusalém, personifica o homem sábio, aquele que busca, encontra e mostra Deus. Por isso, a Iª leitura que acabámos de escutar nos propunha o caminho para o conhecimento de Deus.
Não se trata, simplesmente, de conseguir um discurso coerente e cheio de sensatez acerca de Deus. Nem se trata de nos tornarmos a nós mesmos “catecismos ambulantes”, repetidores de fórmulas doutrinais elaboradas por outros; ou mesmo de respostas de manuais científicos, fruto da reflexão de alguém mais sabedor.
Deus não é um objecto passível de ser estudado, analisado, decantado ou escalpelizado como uma qualquer outra realidade do nosso mundo, material ou humano — ainda que a doutrina, o pensamento que expressa a vida da Igreja de todos os tempos seja condição essencial para a comunhão.
Deus é Alguém, um Outro, sempre Além, cujo conhecimento é impossível de resumir plenamente em frases ou discursos. Só o adquirimos o conhecimento de Deus quando somos capazes de, em toda a verdade, O escutarmos, deixando que a sua Palavra nos preencha, para, depois, ousadamente, nos dirigirmos a Ele como “Tu”.
O conhecimento de Deus é um conhecimento de intimidade, que jamais seriamos capazes de conseguir pelas nossas forças, por mais sábias que elas fossem. O conhecimento de Deus é-nos permitido apenas porque Ele próprio, na sua bondade infinita, tomou a iniciativa de se dar a conhecer e de nos abrir o íntimo do seu coração em Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus fez-se homem em Jesus de Nazaré para permitir que O conhecêssemos.
Tiago, “irmão do Senhor” — quer dizer: da sua família de sangue — não apenas conhecia Jesus de uma convivência de 30 anos partilhados em Nazaré, no seio familiar. Conhecia-O porque se fez seu discípulo, aceitando o convite do Mestre a que O seguisse. Conhecia-O porque escutou, bebeu, os seus ensinamentos. Conhecia-O porque viu as suas acções, os seus gestos e atitudes com que salvava homens e mulheres da Galileia e da Judeia. Conhecia-O porque passou com Jesus os dias da Páscoa primeira. Conhecia-O porque, surpreendido, O viu vivo e ressuscitado, e porque acolheu o Espírito Santo. Conhecia-O porque era dele conhecido, e se dispôs a progredir constantemente nesse conhecimento.
Em Tiago Menor (talvez nele mais que nos outros Apóstolos) — na sua vida e nas suas palavras — encontramos a personificação do homem que conhece Deus.
Para isso, dizia-nos a Iª Leitura, é necessário acolher a Palavra de Deus; guardar os seus preceitos; inclinar o coração à inteligência; invocar o entendimento e emprestar-lhe a voz. O conhecimento de Deus exige que deixemos a atitude daquele que, orgulhosamente, tudo pensa saber, que julga e que critica, para assumirmos a atitude de quem procura. Exige a atitude do pobre que nada tem: a atitude de quem se encontra disponível para que o próprio Deus o ensine, em cada dia, em cada momento.
2. A cidade existe para que o ser humano seja feliz. Existe porque nós, seres humanos, não fomos criados para vivermos isolados, cada qual por si, mas para vivermos em comunidade, uns com os outros; para nos entreajudarmos e encontrarmos no outro aquele que nos ajuda a ser mais. Existe porque só desse modo (com os outros) somos capazes de ser verdadeiramente nós próprios. Somos, neste viver em comunidade, efectiva imagem do próprio Deus: Trindade de pessoas em que o amor constitui a realidade central, o elo que manifesta o ser, que dá razão e consistência a todo o tecido social.
Não devemos, portanto, olhar a cidade de um modo simplista como apenas uma realidade útil para o melhor desenrolar do quotidiano. Nem, tão-pouco, apenas para uma melhor defesa contra forças adversas, sejam elas fenómenos naturais, animais ou outros grupos humanos que procuram ocupar o nosso espaço.
Tudo isso é verdade e não podemos ignorar: a vida humana é mais fácil quando o quotidiano é vivido como vizinhança; a defesa e a segurança são maiores quando nos organizamos e entreajudamos. Mas a cidade tem raízes bem mais profundas: não nos concebemos sem os outros. Trata-se de nos ajudarmos a ser mais. Só com os outros podemos ser mais nós mesmos e progredir.
É por isso que não nos basta uma cidade eficiente e segura. Necessitamos, todos nós, seres humanos, de uma cidade que ajude os cidadãos a serem felizes. Quer dizer: a realizar todas as potencialidades que trazem consigo, sejam elas inatas ou tenham surgido como fruto da convivência e do diálogo inter-pessoal.
O ser humano jamais se bastou com as conquistas que conseguiu alcançar. Em cada um de nós e em todos existe esta necessidade de ir sempre mais longe; de procurar novos e melhores caminhos para a realização das expectativas individuais e comunitárias — e esse é um dos grandes sinais que mostra como Deus (infinito amor, infinita sabedoria, vida eterna) é a meta que, efectivamente, cada ser humano traz dentro de si, que o queira ou não. Somos os eternos insatisfeitos porque apenas Deus pode saciar o nosso desejo de plenitude.
Uma vez mais nos deparamos com o grande objectivo da cidade — dos seres humanos que a habitam numa entreajuda vital: a cidade existe de facto (mesmo que muitos não sejam capazes de o afirmar) para ajudar todos no conhecimento de Deus.
3. Foi o Conselho da nossa cidade que, há 503 anos, teve a iniciativa de encontrar para ela um padroeiro em S. Tiago Menor. Fê-lo na emergência do surto de peste. Mas continuou a prestar à figura do Apóstolo a veneração de quem reconhece nele um intercessor e um exemplo de vida.
Na figura sábia do santo primeiro Bispo de Jerusalém, acolhamos também nós, cidadãos do Funchal, neste ano de 2024, o convite de proporcionar a todos os habitantes da nossa cidade aquilo de que necessitam para viver dum modo feliz — que o mesmo é dizer: o convite a mostrarmos a todos o caminho verdadeiro para o conhecimento de Deus.


























