ENS celebraram 60 anos na Madeira com o desafio de serem mais e mais jovens

Foto: Duarte Gomes

As Equipas de Nossa Senhora (ENS) celebraram 60 anos na Madeira com um evento que decorreu na sala de Congressos do Casino da Madeira e que incluiu, conferências, animação musical e Eucaristia presidida por D. Nuno Brás. 

Na sessão de abertura o bispo do Funchal, conselheiro espiritual, disse que “as equipas são muito importantes para a Igreja porque “reafirmam, provam e demonstram que é possível viver a família, viver o amor, de uma forma bem diferente daquilo que habitualmente nos é apresentado”.

Além disso, disse o prelado, as equipas existem para “nos inquietar, porque nós temos qualquer coisa a dizer à nossa sociedade e de uma forma muito particular à sociedade madeirense”.

Desde logo, “temos de afirmar os critérios do Evangelho, temos que afirmar os critérios em que pessoa e sociedade não se opõem, mas dialogam e se complementam, temos que afirmar que viver em comum é muito mais importante do que aquilo que habitualmente é olhado e é apresentado”.

Daí o desafio para que as equipas “continuem a dar testemunho de Cristo neste viver o matrimónio cristão como cristãos, neste crescer na espiritualidade conjugal, neste mostrar que uma sociedade não é um conjunto de egoístas que andam a tropeçar uns nos outros, mas sim uma sociedade de família de famílias”.

E isso faz-se “agradecendo estes 60 anos das Equipas de Nossa Senhora “, mas esperando que surjam “mais equipas, casais mais jovens”.

Neste momento, segundo dados divulgados na mesma sessão de abertura por Sotero Gomes que conjuntamente com a esposa formam o casal responsável da Região Madeira, as equipas estão “divididas por quatro sectores – Câmara de Lobos, Funchal, Leste e Oeste, com 129 casais e oito Viúvas(os), distribuídos por 30 equipas e acompanhadas por 25 conselheiros espirituais”.

Também este casal se diz “ciente da importância das ENS na nossa vida”, tendo como objetivo dar a conhecer a experiência das ENS a casais mais jovens que querem construir um projeto de vida a dois com a certeza da presença de Deus no Seu matrimónio”.

De resto, “o sacramento que receberam é um dom de Deus, e as ENS, com a sua metodologia, pode ajudá-los a tomar consciência que não estão sozinhos na sua vida de casal e na sua Caminhada de fé”

Ser aquilo que o Senhor quer

Quanto ao conferencista convidado, o prof. João César das Neves, também ele equipista, abordou o tema “A família na sociedade: realidade desafios”. 

Em declarações do Jornal da Madeira, César das Neves começou por falar dos desafios que, conforme explicou são, na sua maioria “externos”. 

“A sociedade está a mudar, a família está a mudar, mas o problema não me parece estar a esse nível”. Na verdade, “o grande desafio da família é ser aquilo que o Senhor quer que seja: ser a presença de Cristo na sociedade, tornar-se aquilo que é, como dizia São João Paulo II ‘Família torna-te o que és”. E essa verdade, explicou, que “cada tempo faz à sua maneira e o nosso tempo tem uns termos um bocadinho estranhos comparados com os anteriores, embora não seja isso que faz a diferença”.

“Agora a presença de Cristo, a realidade de Cristo em cada uma das famílias, sabermos que não podemos ganhar a vida, mas perdê-la estarmos disponíveis para amar os inimigos, que às vezes estão dentro da Família são todos esses desafios, que são os desafios da vida cristã, os desafios que a Páscoa agora nos traz e nos lembra mais uma vez são os grandes desafios”, constatou o orador, para logo acrescentar que “o resto é só política e sociologia”. 

Depois de intervalo, antecedido da apresentação de um vídeo sobre a história das equipas da responsabilidade de Luís Mendes Gomes, seguiram-se outras pequenas conferências em, que se abordou, por exemplo, a vocação e a missão das ENS. Como é que estas podem ajudar a responder aos desafios das famílias, pelo casal Fátima e António Carioca (CR Supra Região); a vocação matrimonial e como pode esta inspirar a missão das famílias cristãs das ENS, pelo Pe. Jorge Magalhães.

Houve ainda lugar a um testemunho de um casal equipista, a Delisa e o Fernando Rodrigues de Freitas.

Dar graças por todos quantos elas ajudaram e ajudam

Depois de um momento musical, com a presença de Vânia Fernandes, seguiu-se a cerimónia de encerramento e uma Eucaristia, no decorrer da qual D. Nuno Brás voltou a evidenciar a missão das Equipas de Nossa Senhora, vincando que a mesma “é a de ajudar os casais cristãos a viver a partir de Deus como casais cristãos. Porque o sacramento do matrimónio faz com que, sem perder a singularidade de cada cônjuge, nasça uma realidade nova: uma família cristã que, a partir desse momento, define a vida daquele homem e daquela mulher”.  

“Viver como família cristã; perceber que a relação de amor entre aquele homem e aquela mulher não é apenas algo humano, mas é reflexo do amor de Deus e caminho para Ele; retirar as consequências de ser não apenas uma família constituída por cristãos, mas uma família cristã — eis uma tarefa imensa, que seria impossível de cumprir, não fora a graça de Deus”, frisou. 

«A caminhada para a santidade à qual são chamados os casais é uma caminhada para um amor mais intenso e de outra qualidade: amarem-se mais é amarem-se em Cristo», escreveu o P. Caffarel (As Equipas, 19), citado pelo prelado.

E ainda: «Conhecer o pensamento de Deus sobre o amor e o casamento e, por outro lado, a sua aplicação na existência quotidiana do casal. […] Tinha-nos passado despercebido que esta procura não se dirigia apenas à santificação e plena realização dos nossos casais, mas também a esse testemunho que os casais devem dar do Deus vivo, num mundo invadido pelo ateísmo” (As Equipas, 128)». 

Hoje, disse D. Nuno a terminar “damos graças a Deus pelos 60 anos das Equipas de Nossa Senhora nesta nossa Diocese. Damos graças por todos quantos elas ajudaram e ajudam. Pedimos, para todos os equipistas e para todos os cristãos, a graça de sabermos viver como “nascidos de Deus”, e que cada casal das nossas Equipas possa ser testemunho vivo dessa nova realidade que a ressurreição de Jesus.”

Leia na íntegra a homilia do prelado:

60 ANIVERSÁRIO DAS ENS 
II Domingo da Páscoa (B) 
Centro de Congressos da Madeira, 7 de abril de 2024 

“Nascer de Deus”

“Nascer de Deus” 

  1. “Nascer de Deus”: este parece ser o grande apelo que a Palavra de Deus hoje nos faz. Diante da ressurreição de Jesus, da alegria que ela provoca nos discípulos, da passagem da incredulidade à fé — afinal, a ressurreição de Jesus é caso único na história do universo! — é realizado um convite àqueles homens e mulheres, judeus que tinham acompanhado Jesus de Nazaré pelas estradas da Galileia; que tinham

“Todos nascemos da carne. Existimos porque fomos gerados pelos nossos pais, fruto do seu amor; nascemos numa família, temos irmãos, tios, primos, avós… E isso é muito bom”, lembrou D. Nuno Brás, para logo vincar que “todo e qualquer ser humano, pelo facto de o ser, é um milagre de Deus. E possui, por isso, uma dignidade única, incomparável. E é amado por Deus, que em cada ser humano encontra um outro a quem dirigir a palavra, a quem amar com amor único. Mas, ao mesmo tempo, todos nós, nascidos da carne, recebemos uma marca que nos limita, fruto do pecado humano que vai passando de geração em geração.

Se o nascer da carne traz consigo a marca do egoísmo, a vontade de nos sobrepormos aos outros, o esquecimento do bem comum, então necessitamos de um novo nascimento, necessitamos de um outro princípio, que nos dê um outro modo de viver. E esse só pode vir de Deus e do Seu Espírito de amor! 

E onde o encontramos? Encontramo-lo na ressurreição de Jesus: “«A paz esteja convosco. Assim como o Pai me enviou, também vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos»” (Jo 20,23). Encontramo-lo na Igreja: Tomé, fora do grupo dos Doze, fora da Igreja, não acreditou; mas, quando se encontrava no seio do grupo dos discípulos, foi capaz de reconhecer Jesus ressuscitado e de dizer: “Meu Senhor e meu Deus!” 

3. As consequências deste “nascer de Deus”, vemo-las nas leituras que escutámos: em primeiro lugar, a Fé. Aquele que nasceu de Deus vive a partir de Deus, conduzido por essa relação única com o Pai (uma participação na relação única que Jesus tinha com o Pai). A fé faz-nos ter com Deus uma relação única: passamos a viver como filhos, como filhos de Deus. Deus deixou de ser simplesmente Alguém que está nos Céus e a quem eu recorro quando a minha vida corre menos bem: passou a ser Aquele a partir do qual eu vivo, em cada momento. 

Creio que quem vive uma vida de família o percebe muito bem. Um homem e uma mulher que se casam vivem a partir dessa realidade: tudo na sua vida tem a marca do matrimónio — “já não são dois, mas um só”; e, quando nasce o primeiro filho, começou neles uma outra nova realidade: são pai e mãe, e jamais deixarão de o ser; viverão sempre a partir dessa nova realidade. 

Aquele que nasceu de Deus ficará para sempre marcado por este novo nascimento: vive não a partir de si, mas a partir de Deus. Vive não partir do que pensa, do que quer, do que poderiam ser os seus objectivos de vida, mais ou menos egoístas. A partir do momento em que nascemos de Deus, os nossos pensamentos são os pensamentos de Deus; aquilo que queremos é realizar a sua vontade; as metas que nos propomos são fruto do que percebemos ser a missão que o próprio Deus tem para cada um de nós. Quando nascemos a partir de Deus, o nosso olhar é o olhar de Deus; o nosso coração é o coração de Deus (“Fazei o meu coração semelhante ao vosso”, pedimos nós ao Sagrado Coração de Jesus!). 

Não nos espanta, portanto, a descrição que, na Iª leitura, S. Lucas fazia da primeira comunidade cristã (e essa é uma outra consequência do “nascer de Deus”): “A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. […] Não havia entre eles qualquer necessitado” (Act 4,32-35). 

Viver em cada dia, em cada momento, a partir deste nascimento novo, deste nascimento a partir de Deus: esse é o caminho da fé na vida de cada baptizado. 

4. A missão das Equipas de Nossa Senhora é a de ajudar os casais cristãos a viver a partir de Deus como casais cristãos. Porque o sacramento do matrimónio faz com que, sem perder a singularidade de cada cônjuge, nasça uma realidade nova: uma família cristã que, a partir desse momento, define a vida daquele homem e daquela mulher.  

Viver como família cristã; perceber que a relação de amor entre aquele homem e aquela mulher não é apenas algo humano mas é reflexo do amor de Deus e caminho para Ele; retirar as consequências de ser não apenas uma família constituída por cristãos mas uma família cristã — eis uma tarefa imensa, que seria impossível de cumprir, não fora a graça de Deus. “A caminhada para a santidade à qual são chamados os casais é uma caminhada para um amor mais intenso e de outra qualidade: amarem-se mais é amarem-se em Cristo”, escreveu o P. Caffarel (As Equipas, 19). 

E ainda: “Conhecer o pensamento de Deus sobre o amor e o casamento e, por outro lado, a sua aplicação na existência quotidiana do casal. […] Tinha-nos passado despercebido que esta procura não se dirigia apenas à santificação e plena realização dos nossos casais, mas também a esse testemunho que os casais devem dar do Deus vivo, num mundo invadido pelo ateísmo” (As Equipas, 128). 

Hoje, damos graças a Deus pelos 60 anos das Equipas de Nossa Senhora nesta nossa Diocese. Damos graças por todos quantos elas ajudaram e ajudam. Pedimos, para todos os equipistas e para todos os cristãos, a graça de sabermos viver como “nascidos de Deus”, e que cada casal das nossas Equipas possa ser testemunho vivo dessa nova realidade que a ressurreição de Jesus nos permite a todos: 

“Quem acredita que Jesus é o Messias, nasceu de Deus; e quem ama 

Aquele que o gerou ama também Aquele que nasceu d’Ele” (1Jo 5,1)