Domingo de Páscoa: Irrompe a vida, e a pedra e as vestes da morte ficam fora de serviço!

At 10,34a.37-43; Sl 118; Cl 3,1-4 (1 Cor 5,6b-8); Jo 20,1-9

1. «Esta é a Obra do Senhor!», assim gritava com «voz forte» (grito de Vitória e de Revelação) Jesus na Cruz, deci­frando a Cruz, recitando o Salmo 22 todo (entenda‑se a meto­nímia de Mateus 27,46 e Marcos 15,34, citando apenas o início: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?»). Par­ticularmente ao longo da Semana Santa, dita «Grande» ou «dos Mistérios» pela Igreja do Oriente, Deus expôs (proétheto) diante dos nossos olhos atónitos – e logo a partir do Domingo de Ramos – o Rei Vitorioso no seu Trono de Graça e de Glória, que é a Cruz (veja‑se aqui demoradamente Romanos 3,24‑25), tomando posse da sua Igreja‑Esposa para o efeito redimida na «água e no sangue» (João 19,34; Efésios 5,25‑27), isto é, no Espírito Santo, conforme ensina Jesus com «voz forte» (!) no grande texto de João 7,37-39. Para aqui apontava também a caminhada quaresmal, a qual – vê‑se agora claramente – só daqui podia afinal ter partido. É este «o Mistério Grande» (Efésios 5,32) que nos foi dado a conhecer por Deus (Romanos 16,25‑26; 1 Coríntios 2,7‑10; Efésios 3,3‑11; Colossenses 1,26‑27). E só Deus pode dar tanto a conhecer (veja‑se agora o texto espantoso de Ef 3,14‑21). É quanto Deus operou na Cruz! Por isso, exultamos e nos alegramos com a Chará, a alegria grande da Páscoa, pois «este é o Dia que o Senhor fez» (Salmo 118,24) e em que o Senhor nos fez! É o «Primeiro Dia» (Mateus 28,1; Marcos 16,2 e 9; Lucas 24,1; João 20,1 e 19; Atos 20,7; 1 Coríntios 16,2), e tal permanecerá para sempre (!), o «Dia do Senhor, o Dia Grande» (Atos 2,20; Apocalipse 1,10), o Domingo, todos os Domingos, o Ano Litúrgico inteiro, o Ano da Graça do Senhor, em que a Igreja‑Esposa, redi­mida, santificada, bela (apresentada no Apocalipse com voz forte!), celebra jubilosamente o seu Senhor, à volta do al­tar, do ambão, do batistério: tudo «sinais» do túmulo aberto do Senhor Ressuscitado, de onde jorra continuamente a vida e a mensagem da Ressurreição. Aleluia!

2. O Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor oferece-nos o grande texto de João 20,1-9, com a descoberta do túmulo aberto, mas não vazio! Túmulo aberto: a pedra muito grande (Marcos 16,4) do poder da morte tinha sido retirada, e o Anjo do Senhor sentou-se sobre ela (Mateus 28,2): impressionante imagem de soberania e vitória! Mas não vazio: está, na verdade, cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita com uma túnica branca (Marcos 16,4); dois homens com vestes fulgurantes (Lucas 24,4); as faixas de linho no chão e o sudário enrolado em outro lugar (João 20,6-7). É importante ler os sinais e ouvir as mensagens! Se o túmulo estivesse vazio, como vulgarmente e inadvertidamente dizemos, estávamos perante uma ausência cega e muda. Na verdade, os sinais e as mensagens mostram o abandono das vestes da morte e deixam entrever uma forma de vida nova que somos chamados a identificar.

3. O texto imenso de João 20,1-9 coloca-nos ainda diante dos olhos o início de diferentes percursos por parte de diferentes figuras face aos sinais encontrados ou ainda não, lidos ou ainda não.

4. A Madalena vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê (blépei), com um olhar normal (verbo grego blépô), um olhar que até causa aflição, a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus (João 20,1), tal é o significado imposto pela forma verbal êrménos, particípio perfeito passivo do verbo aírô. De facto, até dói e aflige que se veja o inefável (ação de Deus!) como quem vê uma coisa qualquer, cegos como estamos tantas vezes pelos nossos preconceitos! Esta pedra para sempre retirada por Deus reclama e estabelece um claro contraponto com a pedra por algum tempo retirada pelos homens do túmulo de Lázaro. Chegado ao túmulo de Lázaro, Jesus manda retirar (árate: impv. aor. de aírô) a pedra (cf. João 11,39), e mãos humanas retiraram-na (êran: aoristo de aírô) (cf. João 11,41) por algum tempo, pois Lázaro, trazido da morte por Jesus a esta vida terrena, vai naturalmente voltar a morrer. No que se refere ao túmulo de Jesus, a Madalena, cega pelos seus preconceitos, falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada e baralhada, a levar uma notícia falsa: «Retiraram (êran: aoristo do verbo aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (João 20,2). O que a Madalena diz, trocando o perfeito pass. pelo aoristo simples, é que mãos humanas retiraram (ato histórico pontual) o Senhor do túmulo. Mas o leitor atento e competente do IV Evangelho não estranha esta cegueira da Madalena. É que o narrador informa-nos que ela anda ainda no escuro (João 20,1), e, no IV Evangelho, quem anda na noite e no escuro, anda perdido na incompreensão e na cegueira, e nada entende, e nada do que faça dá bom resultado. A oposição luz-trevas atravessa de lés-a-lés o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens é Jesus (João 1,9). Sem esta Luz, que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na cegueira, na dor, no fracasso, na incompetência, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto, exemplarmente, para nós, leitores –, que somos levados a constatar como Nicodemos, que anda de noite (João 3,2) e nada entende, como os discípulos que nada pescam de noite (João 21,3), e no meio do escuroandam perdidos (João 6,17-18), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (João 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido no pátio da noite e no meio dos guardas (João 18,17-18).

5. A notícia levada pela Madalena põe em movimento Simão Pedro e «o outro discípulo». Anote‑se a progressão e repare-se atentamente nos verbos utilizados: 1) Maria Madale­na vai ao túmulo, e  (blépei) a pedra(da morte) retirada. 2) «O outro discípulo», corria juntamente com Pedro, mas chegou primeiro (!), inclina-se e  (blépei) as faixas de linho no chão. 3) Pedro, que corria juntamente com «o outro discípulo», mas SEGUINDO-O e chegando depois… Na verdade, ainda em João 18,15, os dois SEGUIAM Jesus, que é a correta postura do discípulo. Pedro, porém, não SEGUIU Jesus até ao fim: ficou ali estacionado no pátio do Sumo-Sacerdote! Mais do que isso e pior do que isso, em vez de estar com Jesus, Pedro ficou com os guardas, a aquecer-se com os guardas! (João 18,18). Pedro, portanto, não fez o curso ou o percurso de discípulo de Jesus até ao fim, até à Cruz e ao túmulo! Digamos, à nossa maneira, que deixou por fazer umas quantas unidades curriculares. É por isso que agora tem de SEGUIR alguém que tenha SEGUIDO Jesus até ao fim. É por isso, e só por isso – nada tem a ver com idades (Pedro mais idoso, «o outro discípulo» mais jovem!) – que Pedro tem agora de SEGUIR «o outro discípulo», chegando naturalmente ao túmulo atrás dele. Note-se ainda que, não obstante um ir à frente e o outro atrás, correm os dois juntos. É aquilo que ainda hoje vemos na catequese e na mistagogia cristãs: corremos sempre juntos, mas alguém vai à frente, para ensinar o caminho aos outros! Belíssima comunhão em corrida!

6. Pedro, que corria juntamente com «o outro discípulo», mas SEGUINDO-O, entra no túmulo que «o outro discípulo» cuidadosamente sinaliza e lhe aponta (ele é o grande sinalizador de Jesus: veja-se João 13,24 e 21,7), e  (theôreî, ind. presente do verbo theôréô: um ver que dá que pensar e que abre para a fé: cf. João 2,23; 4,19; 6,2.19.40.62) as faixas de linho no chão e o sudário que cobrira o Rosto de Jesus, à parte, dobrado cuidadosamente, como «sinal» do Corpo ausente do Ressuscitado! Conclusão: o corpo de Jesus não foi roubado, como supôs a Madalena equivocada! Os ladrões não costumam deixar a casa roubada com tanta ordem, aprumo e esmero! Por isso, Pedro  com o olhar de quem fica a pensar no que terá acontecido… Olhando para trás, pode comparar-se com o que se passou com Lázaro. Por ordem de Jesus, mãos humanas retiraram por algum tempo a pedra que tapava o túmulo de Lázaro (cf. João 11,41). Por ordem de Jesus, Lázaro saiu do túmulo com as vestes da morte, com as faixas da morte a prenderem-lhe os pés e as mãos e o sudário a tapar-lhe o rosto (cf. João 11,44a). Foi mesmo necessária uma nova ordem de Jesus para que o libertassem e o deixassem ir (cf. João 11,44b). Em contraponto, a pedra agora da morte retirada para sempre e por Deus faz ver que o poder da morte não tem ali mais qualquer domínio. E a indicação preciosa de que as faixas da morte estavam estendidas no chão, inutilizadas, e que o sudário se apresentava cuidadosamente dobrado fazem ver a Pedro que o que ali aconteceu não foi obra de ladrões, mas Pedro ainda não está apto para compreender o que fazem ali as vestes da morte deixadas para trás (João 20,6-7).

7. «O outro discípulo» entrou depois de Pedro no túmulo, viu a mesma coisa, mas com olhos diferentes e de forma diferente. Viu por dentro, viuidentidade. O verbo empregado já não é o de Pedro, que era o verbo theôréô, que indica que quem vê, fica a pensar no significado do que vê. «O outro discípulo» entrou no túmulo, e viu de modo absoluto (eîden: ind. aoristo de horáô), com o olhar próprio de quem vê a identidade. Por isso, «o outro discípulo» deu um passo em frente: viu e acreditou de modo absoluto (João 20,8). Todavia, o narrador fecha a cena dizendo que «ainda não tinham entendido a Escritura, que dizia que Ele devia (deî) ressuscitar dos mortos» (João 20,9). A capacidade de compreensão dos discípulos habilitava-os a entender o que podiam entender: que o final da vida terrena de Jesus estava ali, naquela morte na cruz e naquele túmulo, onde ele jazia envolvido nas faixas da morte (cf. João 19,40). Agora já sabem que as faixas no chão estendidas e o sudário cuidadosamente dobrado são sinais, que ainda terão de aprender a ler; como terão também de aprender a ler a Cruz de Jesus como «Obra do Senhor» (Salmo 22,32), bem como outros sinais que Jesus recomendou, para evitar equívocos, que apenas fossem falados depois de o Filho do Homem ressuscitar dos mortos (Marcos 9,9). Será, portanto, o encontro com o Senhor Ressuscitado que habilitará os discípulos de todos os tempos a compreenderem a Escritura (cf. João 2,22) e a interpretarem tudo o que ela diz sobre Jesus (Atos 2,24-31; 13,32-37).

8. É verdade que à pergunta fundamental de Jesus aos seus discípulos, estrategicamente colocada no centro do Evangelho: «Quem dizeis vós que Eu Sou?», Pedro reconheceu e confessou Jesus como «o Cristo, o Filho do Deus vivo» (Mateus 16,16). Mas opõe-se logo energicamente às palavras de Jesus (Mateus 16,22), quando Ele anuncia que vai ter de sofrer muito e morrer e ressuscitar ao terceiro dia (Mateus 16,21). Pedro e os discípulos sabem bem o que é o sofrimento e a morte, mas não têm qualquer noção do que possa ser a ressurreição dos mortos. Marcos 9,10 observa que os discípulos «se interrogavam entre eles sobre o que fosse ressuscitar dos mortos». Além disso, hão de eles certamente ter pensado, para que nos serve um Messias que sofre e morre? Para isto, os discípulos não têm necessidade dele, pois sabem que hão de sofrer e morrer mesmo sem ele. Do Messias, os discípulos, como os judeus em geral, esperavam que viesse pôr fim ao sofrimento e à morte, e que os viesse libertar, a eles e a todos, dessa triste realidade.

9. O que não compreendem agora, compreendê-lo-ão mais tarde, quando souberem a Escritura e experimentarem a força (dýnamis) da Ressurreição de Cristo (Filipenses 3,10-11). Reconhecerão então em Jesus Aquele que veio do outro lado do nosso mundo de sofrimento e de morte, Aquele que veio de Deus, para trazer à humanidade, na sua pessoa, a vida de Deus e a plena comunhão com Ele. Verdadeiramente, a vida, a vida mesmo, é união e comunhão com Deus. E esta vida divina, dada por Jesus à humanidade, atravessa a morte, mas não se extingue nem se apaga na morte. A união e comunhão com Deus, a nós dada por Jesus, não conhece fim nem decaimento nem qualquer tipo de parêntesis. O verdadeiro dom que Jesus nos traz não consiste numa vida terrena que se prolonga sempre, digamos uma vida terrena sem morte terrena, mas na vida em comunhão com Deus, esta sim, inextinguível.

10. Os primeiros cristãos rapidamente fizeram do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto, que o Imperador Adriano (117-138) soterrou e paganizou, estabelecendo ali cultos pagãos (no lugar da Ressurreição, colocou a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore), com o intuito de desviar deles os cristãos. O mesmo fez em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, Em 326, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, que aí terá descoberto a Cruz do Senhor, mandou demolir as construções pagãs, e vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela Anástasis, grandioso mausoléu que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota, e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a veneração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. Esta comemoração ganhou novo relevo quando, em 630, o imperador Eráclio derrotou os Persas, e as relíquias da Cruz foram trazidas processionalmente para Jerusalém. Esta bela Basílica Constantiniana foi danificada por diversas invasões e ocupações. A atual Basílica do Santo Sepulcro, que os ortodoxos e os árabes chamam Anástasis e Qiyama, termos que em grego e árabe significam «Ressurreição», é fruto de cinquenta anos de trabalho dos Cruzados (1099-1149). Aqui estão guardadas as mais fundas raízes da nossa vida cristã, hoje quase uma espécie de «condomínio» de três Igrejas cristãs, infelizmente separadas entre si: a igreja greco-ortodoxa, a romano-católica e a armena. Aqui se sente ao vivo a mesma e comum fé pascal, mas também o drama da separação.

11. Na Leitura que hoje escutamos do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-43), os Apóstolos dão testemunho do que viram. Foi‑lhes dado ver exatamente para dar teste­munho. Viram e testemunham o Batismo de Jesus, a execução da sua missão filial batismal, a sua Morte na Cruz, a sua Ressurrei­ção Gloriosa, a sua Vinda Gloriosa. Mas os Apóstolos insistem que também os Profetas [= Antigo Testamento] dão testemunho d’Ele Ressuscitado, no qual se cumpre para nós a «remissão dos pecados», o Jubileu divino do Espírito Santo (v. 43). A base profética é imponente: Jeremias 31,34; Isaías 33,24; 53,5‑6; 61,1; Ezequiel 34,16; Daniel 9,24. Ver depois João 20,19‑23. «As Escrituras» (então o Antigo Testamento) apontam para o Ressuscitado! O Ressuscitado remete para «as Escrituras». Cumplicidade entre o Ressuscitado e «as Escrituras». Na verdade, o Ressuscitado cumpre e enche as «Escrituras». Não está depois delas ou no fim delas. Está dentro delas, no meio delas, fá-las transbordar, transborda delas.

12. O Capítulo III da Carta aos Colossenses (3,1-4) trata a «vida nova» em Cristo, que é vida batismal, operada pelo Espírito Santo que faz morrer e renascer na Fonte da Graça. Por isso, adverte solenemente Paulo: «procurai as coi­sas do alto» (v. 1), «pensai as coisas do alto» (v. 2), exorta­ção que ecoa ainda no Diálogo que antecede o Prefácio: «Corações ao alto!», a que respondemos com a alegria e a sabedoria do Espírito: «O nosso coração está em Deus!», enquanto ecoa ainda em cada coração habitado pelo Espírito o «Glória a Deus nas alturas!».

13. Em alternativa a Colossenses 3,1-4, pode ler-se e escutar-se 1 Coríntios 5,6-8. A sua linguagem é da cor da Páscoa (grego páscha, hebraico pesah). O Novo Testamento usa o termo grego páscha [= Páscoa] por 28 vezes, assim distribuídas: 24 vezes nos Evangelhos + Atos 12,4 e Hebreus 11,28, todas em referência exclusiva à Páscoa hebraica do Antigo Testamento; as duas menções que faltam são precisamente 1 Coríntios 5,7 e Lucas 22,15, esta com o precioso lógionde Jesus: «Desejei ardentemente esta Páscoa (toûto tò páscha) comer convosco». Em 1 Coríntios 5,7, lemos a expressão tò páscha hêmôn etýthê Christós, cuja tradução não pode ser «Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado», como se vê habitualmente, mas «durante a nossa Páscoa (hebraica), foi imolado Cristo». Os motivos são gramaticais (tò páscha hêmôn é um acusativo adverbial) e teológicos: o cordeiro da páscoa não é um sacrifício imolado; não é queimado sobre o altar; não é oferecido ao Senhor (só o que é oferecido ao Senhor é sacrifício); é convivialmente comido em família. Sacrifício da Páscoa era a ʽôlat-tamid, o holocausto perpétuo, diário, o sacrifício de dois cordeiros, filhos de um ano, um de manhã e outro de tarde, conforme Êxodo 29,38-42 e Números 28,3-8, e que, sendo diário, precedia qualquer celebração festiva. Só depois deste sacrifício quotidiano, se procedia, em dias de festa, como é a Páscoa, ao sacrifício da festa propriamente dito, sacrifício suplementar, e que, na Páscoa, consistia num «sacrifício de ovelhas e bois», este sim, «Páscoa imolada para o Senhor» (Deuteronómio 16,2). De notar também que o Novo Testamento desconhece em absoluto o adjetivo «pascal», de que nós fazemos uso indiscriminado, e não pensado. A restante linguagem da cor da Páscoa que 1 Coríntios 5,6-8 mostra é o fermento (hamets) e os pães ázimos (matstsôt). Servem os termos para Paulo reclamar dos cristãos vida nova (pães ázimos), sem malícia (fermento velho).