Domingo de Páscoa: Bispo do Funchal diz que a Boa notícia da ressurreição incomoda

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal afirmou neste Domingo de Páscoa, na Eucaristia a que presidiu na Sé do Funchal, que “a Boa notícia da ressurreição incomoda”. E incomoda porque “não nos deixa nunca ficar como estamos. Mostra o quanto precisamos de caminhar. Mas constitui o verdadeiro motor para uma nova fronteira do ser humano: não já “o homem que sabe” (o Homo sapiens); não apenas “o homem fabricador” de artefactos e de técnica (o Homo Faber), mas “o homem com Deus” (o Homo Divino, Jesus Cristo)!”.

Por isso mesmo, frisou D. Nuno Brás, “necessitamos todos de escutar a notícia da ressurreição, uma vez mais, e outras tantas quantas necessário. Cada um de nós. Precisamos que esse hino de ressurreição entre em nós pelos nossos ouvidos e permaneça no nosso coração, para ser o princípio de uma vida nova”.

A nossa Região, vincou o prelado, “necessita de escutar a notícia da ressurreição, tão ocupados que estamos com os afazeres do dia-a-dia, com as nossas tradições e o nosso desenvolvimento”. Mas não é a única: “O nosso país necessita de escutar a boa notícia da ressurreição, tão enrodilhado que está em pequenos conflitos de corte, incapaz de enfrentar os problemas sérios da vida dos seus cidadãos. A Europa necessita de escutar a boa notícia da ressurreição, afogada que se encontra na burocracia e nas ideologias que aprisionam. O mundo inteiro necessita de escutar a boa notícia da ressurreição, prisioneiro das guerras infindáveis, dos interesses internacionais, dos poderes não confessados”, constatou.

A ressurreição de Jesus, lembrou inicialmente o prelado, “convida-nos não apenas à alegria pela notícia de que um Homem ressuscitou e fez-se ver ressuscitado”, mas, “também, nos convida — podemos mesmo dizer que nos exige — a olhar a nossa vida a partir de uma outra perspectiva. Não terrena mas celeste”.

E se Jesus ressuscitou “a meta da nossa existência muda radicalmente. A eternidade (a ressurreição), não a ganhamos sendo célebres ou importantes, deixando a nossa marca de seres humanos — hoje dir-se-ia: a nossa pegada —, através da célebre tríade: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro…”.

Em troca, “Deus apenas nos pede que nos deixemos moldar pelo seu amor, manifestado em Jesus de Nazaré, capaz de vencer a morte e o pecado e de nos deixarmos envolver pela sua novidade de Vida” e que, uma vez mais, “ela entre em toda a nossa vida e constitua uma seiva nova a dar vida eterna ao mundo inteiro”.

Neste domingo de Páscoa, em que se assinala a festa mais importante do calendário litúrgico da Igreja Católica, D. Nuno Brás terminou a sua homilia dirigindo, também algumas palavras aos imensos turistas presentes na Catedral, que voltou a estar cheia.

Uma vez mais esta celebração, que foi precedida da Procissão da Ressurreição, acompanhada pela Banda Municipal, foi solenizada pelo Coro Solidéu que, de resto, acompanhou todas estas celebrações da semana na Sé e a quem o prelado fez questão de agradecer, bem como a todos os funcionários da Catedral, ao reitor do seminário e a todos os seminaristas.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:

SOLENIDADE DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR
SÉ DO FUNCHAL, 31 de Março de 2024
“E tu, que queres ser?”

1. Habitualmente, vivemos a nossa vida a partir daquela questão que sempre nos colocam em crianças: “E tu, quando fores grande, que queres ser?”. O mesmo é dizer: planificamos e vivemos a nossa existência a partir dos nossos sonhos (ou dos sonhos dos nossos pais) e das nossas capacidades. Mesmo quando crescemos e passamos à idade adulta. Tudo é vivido e planificado a partir de nós. Nós e o mundo em que vivemos.

2. A ressurreição de Jesus convida-nos não apenas à alegria pela notícia de que um Homem ressuscitou e fez-se ver ressuscitado (se um entre nós ressuscitou já isso constitui uma boa notícia); ou de que todos somos convidados a ressuscitar com Ele (porque a nós que estávamos habituados a uma condenação à morte, essa notícia nos dá uma outra possibilidade de vida que desconhecíamos); mas, também, nos convida — podemos mesmo dizer que nos exige — a olhar a nossa vida a partir de uma outra perspectiva. Não terrena mas celeste.

Com efeito, se Jesus ressuscitou, a meta da nossa existência muda radicalmente. A eternidade (a ressurreição), não a ganhamos sendo célebres ou importantes, deixando a nossa marca de seres humanos — hoje dir-se-ia: a nossa pegada —, através da célebre tríade: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro… 

A partir do momento em que Jesus ressuscitou e se fez encontrado pelos discípulos, a eternidade é-nos oferecida como perspectiva, horizonte, meta de toda a existência — nossa e do mundo que nos rodeia. E mais ainda: como força motora, capacidade, certeza, já agora, no hoje da nossa vida. Não porque a possamos construir (como poderíamos nós construir a eternidade?), mas porque ela nos é oferecida por Deuscomo graça em Jesus ressuscitado.

Assim, a partir da ressurreição de Jesus, a grande questão humana passou a ser: “como posso viver como ressuscitado?”. Tudo o resto se mostra de menor importância. São Paulo dizia-o na IIª Leitura: “Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto… Afeiçoai-vos às coisas do alto, não às da terra… A vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Col 3,1-3).

Que me importa o muito que tenho, se me impede de viver como ressuscitado, de aspirar às coisas do alto? Que me importa o famoso que sou, se me impede de aspirar às coisas do alto? Que me importa o poder de que disponho, se me impede de aspirar às coisas do alto?

Fora qualquer coisa que teríamos de ser capazes de conquistar com as nossas forças, e poderíamos ser levados a desistir; ou a tentar obter a eternidade por outros meios. Mas, a nós, Deus apenas nos pede que nos deixemos moldar pelo seu amor, manifestado em Jesus de Nazaré, capaz de vencer a morte e o pecado e de nos deixarmos envolver pela sua novidade de Vida.

3. Sim. Necessitamos todos de escutar a notícia da ressurreição, uma vez mais, e outras tantas quantas necessário. Cada um de nós. Precisamos que esse hino de ressurreição entre em nós pelos nossos ouvidos e permaneça no nosso coração, para ser o princípio de uma vida nova.

A nossa Região necessita de escutar a notícia da ressurreição, tão ocupados que estamos com os afazeres do dia-a-dia, com as nossas tradições e o nosso desenvolvimento. O nosso país necessita de escutar a boa notícia da ressurreição, tão enrodilhado que está em pequenos conflitos de corte, incapaz de enfrentar os problemas sérios da vida dos seus cidadãos. A Europa necessita de escutar a boa notícia da ressurreição, afogada que se encontra na burocracia e nas ideologias que aprisionam. O mundo inteiro necessita de escutar a boa notícia da ressurreição, prisioneiro das guerras infindáveis, dos interesses internacionais, dos poderes não confessados.

A Boa notícia da ressurreição incomoda. Não nos deixa nunca ficar como estamos. Mostra o quanto precisamos de caminhar. Mas constitui o verdadeiro motor para uma nova fronteira do ser humano: não já “o homem que sabe” (o Homo sapiens); não apenas “o homem fabricador” de artefactos e de técnica (o Homo Faber), mas “o homem com Deus” (o Homo Divino, Jesus Cristo)!

Deixemo-nos envolver pela Boa Notícia pascal. Que uma vez mais, ela entre em toda a nossa vida e constitua uma seiva nova a dar vida eterna ao mundo inteiro.

We usually live based on that question we are always asked as children: And when you grow up, what do you want to be?” The same is to say: we plan and live based on our dreams and our capabilities. However, after the resurrection of Jesus, the great human question became: How can I live as a resurrected person?” Everything else seems to be of less importance.

The Good News of the Resurrection is uncomfortable. It never let us stay as we are. It shows how far we need to walk. But it constitutes the true engine of a new frontier for the human being: no longer the man who knows” (Homo sapiens); nor just the man who makes” artifacts and technology (Homo Faber), but the man with God”,  (Homo Divino, Jesus Christ)! Holy Easter to everyone!

Nous vivons généralement sur la base de cette question quon nous pose toujours lorsque nous sommes des enfants : « Et quand tu grandis, que veux-tu être ? ». C’est-à-dire : nous planifions et vivons notre existence en fonction de nos rêves et de nos capacités. Cependant, après la résurrection de Jésus, la grande question humaine est devenue : « Comment puis-je vivre comme une personne ressuscitée ? » Tout le reste semble avoir moins dimportance.

La Bonne Nouvelle de la Résurrection est inconfortable. Elle ne nous permets pas de rester tels que nous sommes. Elle nous montre jusquoù nous devons marcher. Mais elle constitue le véritable moteur d’une nouvelle frontière pour l’être humain : non plus « l’homme qui sait » (Homo sapiens) ; pas seulement « lhomme qui fabrique » des objets et de la technologie (Homo Faber) ; mais « lhomme avec Dieu » (Homo Divino, Jésus-Christ) ! Saintes Pâques à tous !

Di solito viviamo basandoci su quella domanda che ci viene sempre posta da bambini: E da grande, cosa vuoi fare?” Vale a dire: progettiamo e viviamo la nostra esistenza in base ai nostri sogni e alle nostre capacità. Tuttavia, dopo la risurrezione di Gesù, la grande domanda umana è diventata: Come posso vivere da risorto?” Tutto il resto sembra avere meno importanza.

La Buona Novella della Risurrezione è scomoda. Non ci permette mai di rimanere come stiamo. Mostra quanta strada dobbiamo ancora percorrere. Ma costituisce il vero motore di una nuova frontiera per lessere umano: non più “luomo che sa” (Homo sapiens); non solo “luomo che crea” artefatti e tecnologia (Homo Faber), ma “luomo con Dio” (Homo Divino, Gesù Cristo)! Santa Pasqua a tutti!