Última Ceia: D. Nuno encoraja fiéis a acolher Deus que passa por nós

Foto: Duarte Gomes

Em tarde de Quinta-Feira Santa voltou a celebrar-se, na Sé do Funchal, a Missa da Ceia do Senhor, com a qual se inicia o Tríduo Pascal se faz memória da instituição do admirável mistério da Eucaristia.

A cerimónia incluiu o rito do lava pés, com D. Nuno Brás a repetir o profundo gesto de humildade que Jesus teve para com os seus discípulos, na última Ceia, lavando os pés a 12 escolhidos, neste caso aseis utentes da Casa de Saúde de São João de Deuse seis Irmãos da Confraria do Santíssimo da Sé.

Na sua homilia, o prelado encorajou os fiéis a acolherem “Deus que passa por nós; acompanhemos o Senhor Jesus à Sua Paixão; com Ele, vivamos o silêncio do Sábado; e deixemo-nos surpreender pela Boa Notícia da ressurreição”, para logo lembrar que “na celebração da Eucaristia, o Senhor não apenas nos lava os pés numa atitude extrema de serviço, mas nos purifica verdadeiramente para podermos tomar parte com Ele na Sua nova e definitiva Páscoa”.

De resto, “os evangelhos sinópticos têm o cuidado de mostrar como Jesus celebrou a sua Última Ceia em ambiente Pascal. Contudo, mostram igualmente como o próprio Jesus deu à Última refeição com os seus um novo conteúdo. Não lhe bastou repetir o memorial orante da saída do Egito e o acolhimento da salvação de Deus”.

Indo mais além, Jesus antecipou a sua Páscoa de morte, sepultura e ressurreição, concentrando-a, sintetizando-a no sacramento da Eucaristia, e permitindo que os seus, ao longo dos séculos e em qualquer lugar do universo, a pudessem celebrar, tornando-se desse modo presentes aos acontecimentos da salvação, aos eventos da nova e eterna Aliança”.

“A novidade das palavras e dos gestos de Jesus oferecem agora um novo sentido aos ritos e às palavras da velha refeição pascal: tudo nos passa a falar do mistério da Cruz redentora, conteúdo definitivo da celebração da Eucaristia”, vincou o bispo diocesano.

Hoje, “tal como sucedeu na Última Ceia, vivemos ainda com alguns sinais que nos ajudam a recordar o que era celebrado na Antiga Aliança (é uma refeição, celebrada à volta da mesa, com pão ázimo e cálice de vinho). Mas tudo isso o recebemos transformado na celebração da Eucaristia, verdadeira e real presença de Jesus morto e ressuscitado por nós”.

Todas estas realidades, observou D. Nuno Brás, “exigem a todos que participemos com uma atitude verdadeiramente orante em cada celebração eucarística. A Eucaristia não é um teatro, não é um espectáculo, não é uma refeição de família. É a celebração da morte e da ressurreição do Senhor, da qual todos participamos e a qual todos vivemos, transformando e unindo o nosso coração e a nossa vida às palavras proferidas e aos gestos realizados; deixando que o serviço que Jesus realiza para nós e por nós se torne o fundamento e a forma de toda a nossa vida e de todo o nosso serviço aos irmãos e ao mundo”.

Na Nova Aliança, “inaugurada na morte e ressurreição do Senhor, na vida do novo povo de Deus (de que Israel era figura), uma nova realidade nos oferece o verdadeiro sentido do banquete eucarístico e de toda a nossa existência cristã: Jesus que entrega a sua vida ao Pai e a toda a humanidade, de forma a permitir aos que nele acreditam, que recebam a vida em abundância, a Vida Eterna, a vida de Deus. Somos Eucaristia continuada em vida”.

Por isso mesmo, a Eucaristia é “o grande impulso da caridade que, partindo da morte e ressurreição do Senhor, anima também a vida do cristão: caridade com os irmãos na fé, exigindo verdadeira fraternidade e comunhão; caridade com todos, em particular para com os que sofrem — Amor de Deus hoje, distribuído sem medida, até aos confins do mundo; ponto fixo que eleva o mundo inteiro do tempo presente até Deus; Páscoa da passagem de Deus por cada vida humana, por nós, em cada dia, que apenas a oração é capaz de descobrir no seu verdadeiro significado, de acolher com todas as suas exigências, de nos ajudar a retirar dela todas as suas consequências existenciais”.

“Os discípulos — que, certamente, já se tinham apercebido como seria dramática aquela Ceia —, foram surpreendidos pela Ceia da Nova Aliança, e conduzidos por Jesus dali até à cruz, da cruz à sepultura, e desta à surpresa do túmulo vazio, ao encontro com o Ressuscitado e ao envio do Espírito Santo”, elucidou o prelado.

Por isso mesmo, “cada Eucaristia que celebramos é, na realidade, esse mesmo vértice pascal que nos é dado viver. Em atitude orante, acolhamos Deus que passa por nós; acompanhemos o Senhor Jesus à Sua Paixão; com Ele, vivamos o silêncio do Sábado; e deixemo-nos surpreender pela Boa Notícia da ressurreição. Na celebração da Eucaristia, o Senhor não apenas nos lava os pés numa atitude extrema de serviço, mas nos purifica verdadeiramente para podermos tomar parte com Ele na Sua nova e definitiva Páscoa”, concluíu.

Perante uma Sé cheia de fiéis cumpriram-se ainda outros rituais próprios desta Eucaristia, a última antes do Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor. Assim, procedeu-se à Trasladação do Senhor para o lugar de reserva no Altar de Santo António, junto ao qual está também a representação da Última Ceia.

Leia na íntegra a homilia do bispo do Funchal:

MISSA VESPERTINA DA CEIA DO SENHOR

Sé do Funchal, 28 de março de 2024

1. O memorial orante da saída do Egipto

Ontem como hoje, a Ceia Pascal judaica estava bem longe de ser uma simples refeição de convívio familiar: era, no tempo de Jesus (e é ainda hoje para cada família judaica que a celebra), toda ela, uma verdadeira acção sagrada, em que o Pai de família exerce uma função quase sacerdotal: a de, com os ensinamentos da Escritura e da Tradição judaica, revelar como a Mão de Jhwh continua presente, a conduzir o seu povo. 

Não se trata já, é certo, de fazer fisicamente sair o povo do Egito ou de o conduzir por meio do deserto para o introduzir de novo na Terra Prometida. Mas trata-se de, hoje, fazer viver o mesmo dinamismo de libertação dos deuses que nos tornam cativos; de levar a percorrer o deserto da própria existência; de oferecer a graça da comunhão com Deus, libertador, redentor, criador.

Na Ceia pascal, tudo é vivido com uma dimensão sagrada, orante: e, porque se trata do agir de Deus na história, cada elemento, cada gesto, cada palavra pronunciada hoje torna presente a acção divina de então, que continua a fortalecer a fé, a libertar. Os ritos, todos codificados e previstos, ajudam cada hebreu a viver esta dimensão sagrada. Mas a consciência da Presença de Deus permite que todos ultrapassem o mero tradicionalismo ritual. Trata-se antes de acolher a presença viva, nova e renovadora de Deus.

2. A novidade da Última Ceia

Os evangelhos sinópticos têm o cuidado de mostrar como Jesus celebrou a sua Última Ceia em ambiente Pascal. Contudo, mostram igualmente como o próprio Jesus deu à Última refeição com os seus um novo conteúdo. Não lhe bastou repetir o memorial orante da saída do Egito e o acolhimento da salvação de Deus. Indo mais além, Jesus antecipou a sua Páscoa de morte, sepultura e ressurreição, concentrando-a, sintetizando-a no sacramento da Eucaristia, e permitindo que os seus, ao longo dos séculos e em qualquer lugar do universo, a pudessem celebrar, tornando-se desse modo presentes aos acontecimentos da salvação, aos eventos da nova e eterna Aliança.

Pelos relatos que nos chegaram, somos capazes de perceber as raízes judaicas da Última Ceia. Mas, ao mesmo tempo, somos conduzidos à realidade definitiva de que a Páscoa judaica era apenas imagem: a Eucaristia, a presença da morte e ressurreição de Jesus, em cada tempo e lugar.

Por isso, deixou de fazer sentido falar do cordeiro, uma vez que está presente o novo e verdadeiro Cordeiro Pascal. Deixaram de fazer sentido as diferentes taças de vinho, porque todas elas se encontram e são ultrapassadas no cálice do Sangue do Senhor. Deixaram de ser necessárias as ervas amargas, porque a amargura que elas representavam se resume no sofrimento aceite e vivido por Jesus na cruz.

A novidade das palavras e dos gestos de Jesus oferecem agora um novo sentido aos ritos e às palavras da velha refeição pascal: tudo nos passa a falar do mistério da Cruz redentora, conteúdo definitivo da celebração da Eucaristia.

3. A novidade de cada Eucaristia

A nós, cristãos, não nos basta, por isso, comer uma refeição em memória de Jesus, como a que poderia ser celebrada por uma família cristã na sua própria casa; nem sequer de a celebrar num qualquer espaço mais alargado, dada a realidade maior das comunidades cristãs. 

É verdade que, tal como sucedeu na Última Ceia, vivemos ainda com alguns sinais que nos ajudam a recordar o que era celebrado na Antiga Aliança (é uma refeição, celebrada à volta da mesa, com pão ázimo e cálice de vinho). Mas tudo isso o recebemos transformado na celebração da Eucaristia, verdadeira e real presença de Jesus morto e ressuscitado por nós.

Todas estas realidades nos exigem a todos que participemos com uma atitude verdadeiramente orante em cada celebração eucarística. A Eucaristia não é um teatro, não é um espectáculo, não é uma refeição de família. É a celebração da morte e da ressurreição do Senhor, da qual todos participamos e a qual todos vivemos, transformando e unindo o nosso coração e a nossa vida às palavras proferidas e aos gestos realizados; deixando que o serviço que Jesus realiza para nós e por nós se torne o fundamento e a forma de toda a nossa vida e de todo o nosso serviço aos irmãos e ao mundo. 

Na Antiga Aliança, toda a história e toda a vida de Israel adquiriam sentido e eram lidas a partir da libertação do Egito. Na Nova Aliança, inaugurada na morte e ressurreição do Senhor, na vida do novo povo de Deus (de que Israel era figura), uma nova realidade nos oferece o verdadeiro sentido do banquete eucarístico e de toda a nossa existência cristã: Jesus que entrega a sua vida ao Pai e a toda a humanidade, de forma a permitir aos que nele acreditam, que recebam a vida em abundância, a Vida Eterna, a vida de Deus. Somos Eucaristia continuada em vida.

A Eucaristia é pois o grande impulso da caridade que, partindo da morte e ressurreição do Senhor, anima também a vida do cristão: caridade com os irmãos na fé, exigindo verdadeira fraternidade e comunhão; caridade com todos, em particular para com os que sofrem — Amor de Deus hoje, distribuído sem medida, até aos confins do mundo; ponto fixo que eleva o mundo inteiro do tempo presente até Deus; Páscoa da passagem de Deus por cada vida humana, por nós, em cada dia, que apenas a oração é capaz de descobrir no seu verdadeiro significado, de acolher com todas as suas exigências, de nos ajudar a retirar dela todas as suas consequências existenciais.

Os discípulos — que, certamente, já se tinham apercebido como seria dramáticaaquela Ceia —, foram surpreendidos pela Ceia da Nova Aliança, e conduzidos por Jesus dali até à cruz, da cruz à sepultura, e desta à surpresa do túmulo vazio, ao encontro com o Ressuscitado e ao envio do Espírito Santo.

Cada Eucaristia que celebramos é, na realidade, esse mesmo vértice pascal que nos é dado viver. Em atitude orante, acolhamos Deus que passa por nós; acompanhemos o Senhor Jesus à Sua Paixão; com Ele, vivamos o silêncio do Sábado; e deixemo-nos surpreender pela Boa Notícia da ressurreição. Na celebração da Eucaristia, o Senhor não apenas nos lava os pés numa atitude extrema de serviço, mas nos purifica verdadeiramente para podermos tomar parte com Ele na Sua nova e definitiva Páscoa.