Balamento

D.R.

Recordo-me de jogar o balamento com os colegas da escola e do seminário nas últimas semanas da Quaresma. O vencedor ganhava um saco de amêndoas, daquelas envolvidas em açúcar, brancas e cor-de-rosa. O jogo era muito simples. Bastava ser o primeiro, em cada dia, a dizer “balamento”, ao encontrar o adversário. Os pontos eram somados até ao último dia de aulas antes das férias da Páscoa.

Nesses dias, de manhã, o ambiente era de muita cautela. Para ter graça era necessário surpreender o colega. Às vezes mais parecia o jogo das escondidas. Antes das aulas, ouvia-se os gritos dos balamentos de uns para outros.

Na Madeira, havia também outras regras para este mesmo jogo. Escreve Naidea Nunes que nos dias antes da Páscoa “era o tempo de brincar ao balamento para ter um saquinho de amêndoas no domingo de Páscoa. Quem avistasse primeiro um barco no mar, escondia-se e dava balamento. Ganhava quem desse mais balamentos” (in A condição de Ilhéu, Universidade Católica Editora, 2021).

O nome do jogo apresenta outras variantes, como belamento ou belamente. Deolinda Macedo (1939), no seu estudo sobre o dialeto madeirense, diz que belamente é o “jogo que se pratica com muita frequência durante a quaresma”. Antonino Pestana, que já faz referência a este termo na Revista de Filologia (1937), afirma que o jogo belamente “é praticado com tanto entusiasmo que às vezes dá lugar a relingas sérias” (Estudos Madeirenses, 1970).

Horácio Bento Gouveia na obra Torna Viagem (1979), escreve que determinada personagem, pela Semana Santa, pede à filha da madrinha para “jogar com ela o belamente”.

Ao começar a Semana Santa, ainda vamos a tempo do jogar o balamento ou belamente, e que o vencedor saiba partilhar alguma amêndoa no Domingo de Páscoa.