Conto: a guardiã da janela

D.R.

Naquela rua todos conheciam a D. Bibi há muitos anos. Quando pequenina, ao chegar da escola, punha- se logo à janela do rés- do- chão onde vivia, a ver quem passava, e fascinada, olhava o céu por entre as árvores, as nuvens e os aviões e contava as diferentes cores das folhas das árvores onde o sol batia. Sonhava voar um dia, céu fora, e visitar terras distantes…

A seu lado, a mãe apanhava malhas das meias de vidro das clientes com uma pequena máquina, acionada por um motor elétrico e com uma agulha tipo croché de ponta fina.

Depois, quando crescera e saíra da escola no fim do liceu, como não tinha grandes posses, mas tinha mãos de ouro, também começara a fazer pequenos arranjos de costura para as clientes da mãe, sentada num banquinho a seu lado, ali junto à janela. Pouco depois, aprendera corte e costura num atelier de modista ao fundo da rua e passara a fazer vestidos, saias e calças para crianças e senhoras, naquele mesmo quarto, sempre junto à janela.

Até que um dia, estando à janela, conhecera um soldado, o Ivo, um belo rapagão, que ia a passar na rua e lhe pediu se tinha uma caixa de fósforos para acender um cigarro e ali ficara a dar dois dedos de conversa… O Ivo voltara a passar nos dias seguintes, sempre com o mesmo pedido, e ia ficando a conversar, até que, num certo dia 2 de Novembro, dia de Fiéis Defuntos, ali à janela, sob o olhar vigilante da mãe, começaram alegremente a namorar e Bibi saíra com ele pela primeira vez, a dar uma volta ao quarteirão, de mão na mão, e olhos nos olhos, muito apaixonados.

As copas das árvores então já mais crescidas, começavam a retirar-lhes um pouco da luz do sol, mas mãe e filha continuavam sempre a trabalhar junto à janela.

Bibi não conhecera o pai, pois era recém-nascida quando o pai morrera de paludismo em África, e por isso, sendo muito mimada e apegada a sua mãe, quando o jovem soldado a pedira em casamento, quisera continuar a viver naquela casa com a mãe.

Não era uma grande ideia – no entender e previsão do noivo, pois ‘quem casa quer casa’ – mas o dinheiro era escasso e como ele tinha bom feitio e a sogra também era boa pessoa, lá chegaram a algum entendimento… a sogra ficava com o quarto da janela para a frente, para continuar a atender clientes, e o casal tinha o resto da casa ao seu dispor…

Porém, ao fim de um ano, o marido, um tanto farto daquela vida a três, tão rotineira e sem grande graça, com a sogra sempre a dizer- lhe a toda a hora que não fumasse tanto, a pretexto de melhorarem as suas vidas e garantirem um futuro melhor, deixara a tropa, contactara uns amigos emigrados e propusera a Bibi viajarem até ao Brasil… Ela não quis, achou que era uma aventura com muito risco, chorou muito, dividida e desolada por ter de abandonar a mãe, mas aflita por ver o marido partir, e pediu – lhe para ir ele primeiro, que depois iria lá ter… só que, ao fim de seis meses de insistência para que ela fosse viver com ele, e ante os sucessivos adiamentos de Bibi, ele cansara- se, deixara de dar notícias e não mais voltara… Bibi nunca mais soube nada dele…mas imaginava que ele já teria uma nova família brasileira e compreendia que a culpa era só sua…

Tivera um grande desgosto e a mãe ainda tentara que ela fosse para o Brasil, dizendo- lhe que não duraria sempre e ela acabaria por ficar sozinha, mas Bibi não quis…

Entretanto o tempo passava, a mãe ia envelhecendo, e Bibi passara a apanhar malhas das meias de vidro na máquina da mãe, até que nos anos 60 a sua profissão acabou. Havia meias de nylon muito mais baratas, collants produzidos em série em novas fábricas, e já ninguém precisava de apanhadeiras de malhas…Ficara só com a costura, mas também esse mundo da moda estava bem diferente! O pronto-a-vestir invadira a cidade, transformara os hábitos das meninas novas e das senhoras e os arranjos davam- lhe pouco dinheiro.

Por essa altura já as copas das árvores, de tão grandes que estavam, tapavam o sol por completo…e já quase não se via sequer os aviões a passar…

Bibi ainda arranjara um emprego numa loja, mas pouco depois a mãe adoecera, era preciso cuidar dela e Bibi voltara para os seus pequenos trabalhos à janela, até que a mãe partira e ela ficara só…Fora um tempo doloroso e difícil! Nessa altura, escrevera ao marido para a última morada que vinha nas suas cartas e pedira-lhe perdão por não o ter acompanhado. Sentia necessidade de o fazer para se libertar daquele sentimento de culpa que guardava no fundo do coração! Claro que ele nunca respondeu e talvez até já tivesse um outro endereço… mas Bibi era uma mulher de fé, confiava no Bom Deus, e há muito que aceitava o que não podia mudar.

Compreendia que o fim da vida era algo natural e que um dia também ela partiria, mas sentada à janela, enquanto ouvia os aviões, e imaginava viagens que nunca faria, descobrira novas razões para viver: pouco a pouco, transformara- se como que numa guardiã da janela e do prédio, cuidadora dos vizinhos, quase assumindo a missão de protetora dos passantes da sua rua… e todos a conheciam, tal como ela a todos conhecia. Conheciam – na e gostavam dela, porque o seu sorriso sereno e doce, a palavra amiga, o conselho materno, e o seu cuidado e atenção a quem ali passava a tornavam uma presença inconfundível.

‘- Ó vizinha, então o seu menino teve boa nota no exame? Eu logo vi pela carinha de alegria! Olhe dê-lhe este chocolatinho da minha parte, sim? Rezei por ele… ai, que alegria… está aqui, está um doutor! Pensar que o conheci tão pequenino, de bibe a caminho da escola…’

‘- Ó Sr. Dr., desculpe, mas olhe que vem aí muita chuva, então esqueceu-se do seu chapéu-de-chuva? Leve o meu, por favor, que vem aí uma grande carga de água…’

‘- Psst, psst ó menina, desculpe, tome atenção, que o seu carro ficou com os piscas acesos… não sei se vai demorar, mas pode ficar sem bateria…’

E ia falando com cada vizinho, ou mesmo desconhecido e ninguém se importava.

De uma vez fora o sem-abrigo ali da rua que lhe pedira comida e ela logo lhe prometera uma sanduíche de queijo diária, uma sopa quente e uma peça de fruta.

De outra vez, foram os novos vizinhos chineses que tinham perdido a chave de casa e estavam aflitos à chuva e ela recebera-os prontamente em sua casa, e servira- lhes um chá quente até chegarem os bombeiros para lhes abrir a porta… enfim, D. Bibi estava sempre disponível para ajudar quem precisasse!

Contudo vivia com algum aperto e de forma austera naquela casa, pois a reforma da mãe era pequena e quando o senhorio lhe falou em deixar a casa e lhe quis aumentar a renda, ficou muito aflita e ofereceu- se para em troca ser ela a lavar as escadas e a despejar os caixotes de lixo. E o senhorio teve pena e aceitou.

Certo dia, D. Bibi acabava de chegar do cemitério, onde, como de costume, visitara a campa da mãe, por ser dia 2 de Novembro, e estava já a abrir a janela, quando viu um táxi parar mesmo à sua porta. Dele saiu um jovem elegante, bem vestido e de pasta na mão. Olhou em volta, certificando-se do número da porta e ao vê- la à janela, dirigiu- lhe a palavra.

‘- Desculpe, mora aqui a Sra. D. Bebiana Monteiro da Silva?’

D. Bibi até pensou que seria engano… mas não era…

Ao dizer- lhe que sim, o jovem apresentou-se como sendo um advogado que tinha assunto do seu interesse a tratar e pediu- lhe se podia entrar em sua casa. Com o coração a bater desalmadamente, D. Bibi foi abrir a porta e recebeu o elegante senhor, um tanto intrigada, convidando-o a sentar-se na salinha junto à janela.

O advogado explicou- lhe então que tinha uma carta de seu marido para ela, não sem antes lhe dizer, cautelosamente, que se tratava de um assunto delicado, que por certo a apanharia de surpresa…

Na verdade, vinha dar- lhe conhecimento da herança de seu marido, o Sr. Ivo Monteiro da Silva, recentemente falecido, que lhe deixara a ela, como única herdeira, todos os seus bens… e eram muitos…

Teria contudo de o acompanhar ao Brasil…e o bilhete já estava junto da carta!

D. Bibi, muito emocionada, olhou-o fixamente e gaguejou apenas:

-‘ Eu ???… mas eu não mereço…nem sei que lhe diga…’