Dia do Pai e o 25 de abril com 50 anos de crises

Padre Aires Gameiro | Foto: Duarte Gomes

O Dia do Pai, a cruzar-se com o 25 de abril, convida a relacionar as figuras de pai na sociedade atual. Os pais constroem a casa comum da família e da sociedade com dignidade. Nem sempre. Alguns apoderam-se e gozam de fartura e deixam outros privados de subsistência em jogo de lutas, conflitos e interesses oligárquicos da sociedade.

Começo por uma questão: o 25 de abril trouxe um tipo de democracia funcional e humanizada ou uma sociedade de figuras de pais com tiques de anarquismo aristocrático? Pelo fim de 1974, já com o país alvoraçado com os tumultos iniciais do “verão quente”, 1975, e escaldante, pediram-me um artigo para a revista “Família Cristã” de análise psicológica da Revolução (em livro: Revolução…1976). Tinha acabado há pouco anos o curso de psicologia e alguns dos temas do curso e de leituras fizeram clique na figura do pai e nas especulações de Freud sobre a horda primitiva e a matança do pai pelos irmãos para se apoderarem de tudo o que era do pai, a começar pela mãe. Tudo seria de todos. Serviu de tema.  

Como figuras paternas destacava-se o pai que seria Salazar e os que continuaram o seu papel autoritário. Os grupos revolucionários dominavam a horda indisciplinada e desordeira de Freud tentavam controlar todos os bens.Com o pai morto, começou a guerra fratricida de lutas ao desafio de quem se apoderava mais das coisas do pai, do país. As tentativas de democracia libertária deram em lutas, conflitos, tiranias, “roubos”, nacionalizações de bancos, ocupações de herdades, de fábricas e instituições. Felizmente, não mortes. Os grupos anárquicos faziam saneamentos e arvoravam-se em substitutos do pai com os “irmãos” a derrubá-los antes que fosse tarde. A democracia tardou em se organizar. E já lá vão 50 anos, e muitos ainda perguntam: o 25 de Abril já cumpriu as promessas? De certeza? Ah, sim! Havia muita pobreza, apesar do “bacalhau a pataco”. E hoje, serão dois milhões de pobres! Naquele tempo o país era dos ricos e milionários; e hoje? Então chegava-se a uma consulta e um tratamento com uma dúzia de cunhas. E hoje? Então, anestesiava-se o “zé-povinho” com futebol, hoje a bola ocupa muitas horas diárias da TV. Porque sim, os jogos e os comentadores em vez de outros programas de cultura. No tempo da antiga senhora, os mais válidos e os pobres fugiam a salto para a emigração, como os da minha terra. Hoje, os mais formados nas universidades, para onde emigram, aos milhares? Havia muita injustiça e violência contra os dissidentes. Hoje, a corrupção alastrou pelas camadas dos influencers e dos manhosos das leis, da governação e dos escritórios dos espertos. Ontem, censurava-se a imprensa e as informações objetivas circulavam por redes de cadernos Gasocs; hoje, a mentira circula livremente por redes sociais a par de verdades que escapam à imprensa livre.

Os motivos disto vieram da esquerda? Muito. Vieram da direita, também julgo que sim. Vieram dos extremistas da esquerda e da direita? Bastante. Sofremos de direitismo, de esquerdismo, de extremismos e de estagnações centristas. Sofremos das imperfeições humanas e das ilusões de quem pensa que as não tem. Faz-se muito bem, mas não chega para uma democracia do bem comum de todo o povo, respeitada e administrada por pais e mães de família e da sociedade. E muitos clamam que os pais não fazem falta. Há escândalos no Cristianismo? Infelizmente. E as hostes que atiraram os valores do Evangelho às ortigas? (Ver Manfred Lutz, Escândalos dos escândalos, 2019). E os indiferentes à missão de pais que deixam os deveres familiares às mães que têm de ser mães e pais ao mesmo tempo, com identidade trocada? Mas não dá. E menos com a França revolucionária a dar direito de abortar na Constituição (que só Tito fez igual nos anos 1970). Grande maldade contra as crianças, pais e mães. A Irlanda, ao contrário, tenta com o poder do povo manter a maternidade e a família defendida na sua Constituição. Paganismo pior que o antigo, enfrentado pelo Cristianismo. O Dia do Pai só faz sentido com o Dia da Mãe; e o sentido do dia de S. José e da evocação de Maria, Mãe de Jesus. Não se podem separar a identidade homem e a identidade mulher das identidades de pai e de mãe, como pretende a “ideologia do género”, conflituosa, fraturante e absurda. Nos dias do pai e da mãe dá-me alegria lembrar e agradecer o que o meu pai e a minha mãe foram e me deram. Obrigado, pai e mãe por não me matarem “antes ou depois de nascer” (cf. Didaqué, século I, II).